Publicado em - Atualizado em 03/01/2018 às 0:19

Vício: uma doença da alma?

Como um espírito ferido pode desenvolver o comportamento compulsivo

Especialistas chamam a atenção para o recorrente fracasso dos tratamentos do vício e apostam em um despertar interno da consciência a partir de um diagnóstico integral (Namning/Shutterstock)

Especialistas chamam a atenção para o recorrente fracasso dos tratamentos do vício e apostam em um despertar interno da consciência a partir de um diagnóstico integral (Namning/Shutterstock)

Naturalmente, nós queremos nos sentir bem. Mas o que acontece quando nosso método favorito de alívio do estresse se torna destrutivo?

Vícios sérios inegavelmente cobram uma taxa ambas física e mental. Mas, de acordo com Lisa Boucher, autora da obra vencedora do Prêmio Melhor Livro para a saúde da mulher em 2017, ‘Raising the Bottom: Making Mindful Choices in a Drinking Culture‘ (‘Emergindo do Fundo: Fazendo Escolhas Conscientes em uma Cultura da Bebida’, em tradução livre), as pessoas frequentemente ignoram a verdadeira raiz do comportamento viciante: um espírito ferido.

“Vício é uma doença espiritual”, disse Boucher, enfermeira registrada que ajudou mulheres a superarem o alcoolismo nos últimos 28 anos. “As pessoas estão apenas tentando preencher o buraco da alma.”

Vício é uma doença espiritual — Lisa Boucher, enfermeira e autora best-seller

A maioria dos especialistas em dependência química reconhece o aspecto espiritual da compulsão de seus clientes. ‘The Big Book’ (O Grande Livro) dos Alcoólicos Anônimos (AA), por exemplo, enfatiza um despertar espiritual como um passo necessário para libertar-se das garras do álcool.

Mas é uma lição notadamente difícil de se aprender. Um tema comum entre as centenas de viciados com quem Boucher trabalhou é que eles podem levar anos ou décadas até admitir que eles têm um problema.

“O orgulho e o ego são o que mantém as pessoas presas dentro do vício”, disse ela. “Eles não querem aceitar que não podem controlar algo.”

O novo alcoólatra

Somos todos propensos a indulgência ocasional, mas podemos ser negligentes em julgar quando chegamos longe demais. O abuso de substâncias pode ser ainda mais difícil de se aceitar quando a sociedade as apoia. Ao contrário da heroína ou da cocaína, o álcool é uma droga legal e socialmente encorajada. Mas Boucher diz que essas características podem torná-la ainda mais insidiosa. Ela aponta para um caráter cada vez mais comum: ‘a mãe do vinho‘.

“Nós normalizamos o alcoolismo”, disse Boucher. “O novo alcoólatra carrega uma sacola de babadores e usa compressores de grife.”

Enquanto o consumo recreativo de drogas, em geral, está em alta, o álcool continua a ser a droga mais abusada do mundo depois do tabaco, e está afligindo especialmente as mulheres. As mortes relacionadas ao álcool entre mulheres brancas de 35 a 54 anos mais do que duplicaram nos Estados Unidos desde 1999, de acordo com uma análise de dados federais realizada pelo The Washington Post. Os pesquisadores que estudam o pico chamam-no de crise de saúde pública.

Se você está tentando mudar a maneira como você se sente, você não está lidando com a emoção mais profunda — Lisa Boucher

De acordo com um estudo de 2013, a indústria do álcool aumentou o gasto publicitário quase 400% desde 1971. Os anúncios fazem um breve aceno para “beber de forma responsável”, mas a mensagem predominante é que a bebida é uma desculpa divertida, sofisticada e socialmente sancionada para ceder.

É uma proposta atraente, especialmente para aqueles que tentam fazer malabarismos entre sua carreira e sua família. Mas Boucher acredita que as mulheres, sob estresse, têm se tornado tão condicionadas a alcançar uma bebida, que acabaram perdendo contato com as suas capacidades de enfrentamento inatas.

“As pessoas bebem porque não conseguem lidar com a maneira como se sentem”, disse Boucher. “Se você está tentando mudar a maneira como você se sente, você não está lidando com a emoção mais profunda.”

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E não é apenas álcool; todos os nossos remédios mais destrutivos tendem a ser aqueles que proporcionam uma saída temporária da desgraça. Tais substâncias podem ser uma bênção de curto prazo para ferimentos e doenças graves. Mas perdemos uma parte importante de nós mesmos quando eles se tornam nosso principal método de enfrentamento.

A dependência crônica de uma substância para nossa sensação de bem-estar pode prejudicar nosso crescimento emocional e espiritual, diz Boucher, porque nunca desenvolvemos a força do caráter que vem de enfrentar os desafios da vida com uma mente clara. Um excelente exemplo é a irmã de Boucher, uma mulher de carreira bem sucedida em seus 50 anos e que está há quatro anos livre de um sério vício em metanfetamina.

“Esta é uma mulher que nunca aprendeu a lidar com a vida”, disse Boucher. “Ela teve que voltar e reaprender a como lidar com conflitos de maneira apropriada.”

Pesquisadores apontam para indicadores genéticos que podem aumentar o risco de dependência, mas as funções de referência podem selar o negócio. Boucher e seus irmãos cresceram ressentidos com sua mãe alcoólatra, quem viveu entorpecida de calmante Valium ou de bebia alcoólica durante a maior parte da infância deles. Ainda: todos eles terminaram seguindo por um caminho semelhante.

“Nossa mãe nunca nos ensinou habilidades de enfrentamento”, disse Boucher.

Doença espiritual

Por que alguém escolheria desperdiçar dinheiro, destruir relacionamentos e arruinar sua saúde? O vício não faz qualquer sentido lógico, mas não conseguimos parar a maré. Apesar de o governo estadunidense ter gasto mais de US$ 1 trilhão na guerra contra as drogas nas últimas quatro décadas, as taxas de dependentes químicos e de mortes por overdose nos Estados Unidos estão agora mais altas do que nunca. Os opioides recebem a maior atenção, mas, em alguns estados, a metanfetamina pode em breve reivindicar o maior número de viciados e mortes por overdose.

Em geral, o vício se aplica principalmente a substâncias. Hoje, também é encontrado vícios em pornografia, jogos de azar, compras, uso excessivo de smartphones e inúmeros outros prazeres compulsivos.

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Pesquisadores acreditam que em breve poderão descobrir uma solução física para nossa epidemia de dependência. Estudos estão em curso para o desenvolvimento de tratamentos com foco nos desequilíbrios químicos e na configuração defeituosa encontrada nos cérebros dos viciados.

Mas, e se o nosso problema de dependência for mais complexo do que qualquer ciência da solução possa lidar? De acordo com a rev. Sheri Heller, uma psicoterapeuta e pastora inter-religiosa radicada em Nova York, o vício pode ser bioquimicamente motivado, mas os aspectos psicológicos e espirituais da doença ainda exigem atenção. “Você não pode curar feridas emocionais intelectualmente”, disse ela.

Nosso senso de comunidade, intimidade e humanidade foram substituídos por uma cultura de tecnologia, celebridades e divisões. Isolados e esmagados, fazemos qualquer coisa para preencher o vazio — Sheri Heller, psicoterapeuta

O espírito é um conceito que muitas vezes está em desacordo com a medicina contemporânea, mas nem sempre foi assim. As pessoas antes procuravam significado em seus sofrimentos.

Dr. Carl Jung, o psiquiatra suíço famoso por suas descrições de arquétipos antigos que residem em nosso inconsciente coletivo, ajudou os ocidentais a recuperar o sentido do seu sofrimento. Jung forneceu ao mundo moderno um vocabulário para a psique, uma vez reservada a mitos e lendas. Ele também foi instrumental por inspirar o paradigma de 12 passos atualmente encontrado em programas de recuperação de vícios.

“Jung disse que o vício é realmente uma busca por Deus equivocada. É uma tentativa de sentir a euforia obtida por ter um sentimento de pertencimento ou uma sensação de ser amado”, disse Heller.

Evidentemente, cada viciado possui uma experiência única de trauma e dor, mas Heller acredita que uma mudança na sociedade está no cerne da crescente onda de vícios. Nosso senso de comunidade, intimidade e humanidade foram substituídos por uma cultura de tecnologia, celebridades e divisões. Isolados e esmagados, fazemos qualquer coisa para preencher o vazio.

Medicando o vício

Como as pessoas costumam se drogar para se sentir melhor, prevalece uma noção de que o abuso de tóxicos é apenas um sintoma de depressão. Mas Boucher considera que isto é uma ideia atrasada.

“Você não pode diagnosticar depressão quando eles estão fumando maconha todos os dias, bebendo álcool, usando metanfetamina, fumando crack, tomando opioides ou qualquer que seja a droga de escolha daquelas pessoas”, disse ela. “Como você sabe no que está a base de referência daquelas pessoas?”

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O álcool, por exemplo, é um depressor. Então, se um grande bebedor se queixa de depressão, eles podem estar engolindo a causa raiz.

Boucher é simpática com os casos legítimos de depressão, mas ela acredita que, para diagnosticá-los adequadamente, a sobriedade deve vir primeiro. Em sua experiência, aqueles que ficam sóbrios por três a seis meses muitas vezes eliminam a necessidade do tratamento medicado.

“Em 90% dos casos com os quais eu trabalhei, essas mulheres conseguiram sair de seus antidepressivos”, disse ela.

Além da força de vontade

Poucas pessoas podem deixar seus maus hábitos abruptamente. Mas para muitos viciados, conectar-se a algo maior do que eles os ajuda nos esforços pela recuperação. No entanto, adotar essa mentalidade pode ser um salto difícil, precisamente porque aqueles que se voltam para a droga costumam fazê-lo porque sua fé em Deus ou no homem foi quebrada.

O próprio Jung era relutante em utilizar a terminologia espiritual com seus pacientes porque temia que eles interpretassem mal sua mensagem. Para aqueles que são resistentes a falar de um poder superior, Heller sugere mais uma linguagem neutra quanto a deidade.

“Pode-se dizer que a pessoa precisa ser capaz de expandir sua consciência para incorporar novas ideias”, disse ela, “mas para que alguém possa se envolver em um processo de cura e auto-exploração, eles devem ser capazes de se render a algo maior do que a sua própria vontade”.

Se você está encarando isso através de um modelo de doença, você é tão impotente ao vício quanto é com o câncer — Kimberly Hershenson, psiquiatra

Alguns insistem na força de vontade como chave para a recuperação: se estamos determinados a negar nossos desejos por tempo suficiente, podemos estar novamente inteiros. Mas, de acordo com Kimberly Hershenson, um terapeuta especializado em dependência química radicado em Nova York, a força de vontade sempre ficará aquém.

“Se você está encarando isso através de um modelo de doença, você é tão impotente ao vício quanto é com o câncer”, disse Hershenson. “Não importa o que você tente fazer, seu cérebro vai implorar mais. É realmente preciso admitir isto.”

Um viciado não pode forjar uma condição de saúde lutando ao longo da vida. Isto é sobre estar disposto, não sobre estar dedicado — Hershenson

Nossos impulsos de vício estão conectados aos centros de sobrevivência e prazer do nosso cérebro, então eles reagem mais rápido e com mais força que a parte do nosso cérebro responsável pelo raciocínio. Isto significa que os impulsos predominam antes que os pensamentos de consequência voltem. “Bater de volta” pode ser uma batalha perdida, mesmo para a mais forte das determinações.

“Um viciado não pode forjar uma condição de saúde lutando ao longo da vida”, disse Heller. “Isto é sobre estar disposto, não sobre estar dedicado.”

Se o vício é uma doença espiritual, então a cura deve vir de dentro. Existem ferramentas para se abordar os aspectos físicos do vício, mas especialistas dizem que também devemos cultivar comportamentos positivos, como humildade, responsabilidade, sentido de propósito e mecanismos de enfrentamento saudáveis.

A vida pode ser cruel, o mundo pode parecer louco, mas como lidamos com isso faz toda a diferença. Boucher nos insta a dar um passo atrás, ser grato pelo que temos e reconectar com o que é essencial para nossas almas.

“Nós somos seres humanos. Precisamos de calma. Precisamos refletir. Precisamos nutrir a pessoa integralmente”, disse ela.

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