Vendo com clareza a transição da liderança em Pequim

Entender o 18º Congresso do PCC exige desfazer-se de alguns mal-entendidos
Hu Jintao (esquerda), o líder chinês que acaba de concluir seu mandato, e o ex-líder Jiang Zemin (direita) levantam a mão numa votação na sessão de encerramento do 18º Congresso Nacional em 14 de novembro em Pequim, China (Feng Li/Getty Images)

A tão esperada mudança na liderança do Partido Comunista Chinês (PCC), que ocorre uma vez a cada década, terminou duas semanas atrás e tivemos um fluxo constante de análises do que tudo isso significa. Muitas dessas análises se baseiam em equívocos e falsas esperanças.

Antes do 18º Congresso do PCC, houve um boato de que o então líder chinês Hu Jintao manteria por mais dois anos o cargo de presidente do Comitê Militar Central (CMC) – a chefia das forças armadas da República Popular da China. Hu Jintao teria o direito de fazê-lo de acordo com regras-não-escritas do PCC.

Na verdade, não existe tal regra-não-escrita. Mao Tsé-tung morreu com todos os seus títulos. Deng Xiaoping, mesmo que fosse o verdadeiro chefe, nunca teve os cargos de secretário-geral do PCC ou presidente do Estado.

Jiang Zemin foi o primeiro líder do PCC que, após possuir todos os três títulos – líder do PCC, do Estado e dos militares – estendeu seu mandato como presidente do CMC, após ter se aposentado das outras duas posições.

Mantendo o poder

Deng Xiaoping e Jiang Zemin tiveram suas razões para manter suas posições no CMC, quando de outra forma estariam aposentados.

Na história do PCC, há duas frases que descrevem a relação entre o Partido e os militares: “O Partido comanda a arma”, e “O poder político surge do cano de uma arma.” Que aforismo prevalece depende de quem está no comando.

Deng Xiaoping iniciou as reformas econômicas, que foram uma experiência totalmente nova para o PCC. Havia muitos potenciais obstáculos. Ele tinha de ter certeza de que sua reforma superaria os obstáculos e por isso permaneceu como presidente do CMC.

Jiang Zemin tinha razões diferentes. Ele temia que o PCC pudesse decidir terminar sua campanha contra a prática espiritual do Falun Gong. O próximo passo depois disso seria expor os crimes contra a humanidade que ele é responsável. E o próximo passo seria responsabilizar Jiang Zemin, fazendo-o responder por seus crimes.

Agarrar-se a presidência do CMC era a pedra fundamental para uma nova estrutura do PCC, que Jiang Zemin arranjou para proteger a si mesmo e sua facção.

Jiang Zemin expandiu o número de membros do Comitê Permanente do Politburo – o pequeno corpo que controla o PCC – em dois assentos. Ele acrescentou as duas pessoas mais necessárias para continuar a perseguição ao Falun Gong: Li Changchun, que estava no comando da propaganda, e Zhou Yongkang, que estava no comando do Comitê dos Assuntos Político-Legislativos, o órgão do PCC que controla as forças de segurança e todo o sistema judiciário.

Ele também transformou o Comitê Permanente numa espécie de oligarquia. Dentro do Comitê Permanente, não haveria um “centro”, como ele havia sido. Quando Jiang Zemin comandava o Comitê Permanente, ele podia “unificar” as opiniões dos membros e, sozinho, decidir uma questão. Foi assim que ele começou a perseguição ao Falun Gong mesmo com a oposição unânime dos outros membros do Comitê Permanente.

Jiang Zemin usou seu poder ditatorial para acabar com esse poder. Após sua aposentadoria, ele ordenou que todos no Comitê Permanente, incluindo o líder Hu Jintao que o sucedeu, teriam apenas um voto, mas sem poder de veto. Com este arranjo feito, Zhou Yongkang poderia continuar a perseguição ao Falun Gong por si mesmo, enquanto os membros da facção de Jiang Zemin, que formavam a maioria do Comitê Permanente, poderiam manter inalterada a política de perseguir o Falun Gong.

Ninguém, incluindo Jiang Zemin, sabia se esta nova estrutura de poder funcionaria ou não. Jiang Zemin estendeu seu mandato como presidente do CMC para encontrar uma maneira de garantir que a nova estrutura funcionaria.

Criando e terminando o caos

Tanto Deng Xiaoping quanto Jiang Zemin usaram a tática de “O poder político surge do cano de uma arma.” Eles conseguiram assegurar a continuidade de suas políticas. No entanto, ambos criaram caos no PCC: Eles quebraram a cadeia de comando e criaram um segundo centro de poder no topo da liderança.

A consequência direta do segundo centro de poder de Deng Xiaoping foi o Massacre da Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em 1989. Os oficiais do PCC sabiam que Deng Xiaoping e Zhao Ziyang, o então chefe titular do PCC, tinham opiniões diferentes, mas eles não sabiam a quem seguir.

O resultado do segundo centro de poder de Jiang Zemin foi a conspiração de Bo Xilai, o ex-chefe do PCC em Chongqing, e de Zhou Yongkang para tomar o poder do novo líder Xi Jinping após o 18º Congresso do PCC.

Assim como Jiang Zemin tentou por meio de uma mudança na estrutura de poder preservar a si mesmo e sua facção de prestar contas, também Bo Xilai e Zhou Yongkang tentavam, por sua vez, subverter a estrutura de poder do PCC pela mesma razão.

Seu plano para tomar o poder foi o verdadeiro escândalo que colocou o PCC contra si mesmo e acabou derrubando Bo Xilai. Não foram atos de corrupção, que são comuns para aqueles na posição de Bo Xilai, nem o assassinato do britânico Neil Heywood, que Hu Jintao poderia facilmente ter acobertado se desejasse fazê-lo.

Quando a hora de Hu Jintao se aposentar chegou, ele não tinha qualquer nova política ou mudança estrutural cuja implementação ele precisasse supervisionar e por isso não havia necessidade de permanecer como chefe do CMC.

Hu Jintao esteve no poder por oito anos após a aposentadoria integral de Jiang Zemin. Ele teve tempo suficiente para fazer algo se quisesse. Se ele não pôde ou não quis fazer nada nos últimos oito anos, por que se preocupar em ficar mais dois anos para nada?

Algumas pessoas disseram que Hu Jintao fez uma coisa certa: Ele se aposentou totalmente após seu mandato encerrar. Depende de como você observa a questão. A aposentadoria de Hu Jintao foi parte de seu esforço para reduzir o caos e reforçar a liderança do PCC após a turbulência política deste ano passado. Tentar salvar um partido que se recusa a mudar e não vale a pena salvar não é a “coisa certa” a se fazer.

Nenhuma reforma

Algumas pessoas ficaram desapontadas que dois indivíduos identificados com a reforma não foram nomeados – Wang Yang, o chefe da província de Guangdong, e Li Yuanchao, diretor do Departamento de Organização do PCC.

Tanto Wang Yang como Li Yuanchao são considerados membros da facção da Liga da Juventude. Esta é uma suposição errada.

Analistas da China regularmente falam de duas facções: Os “príncipes” e a Liga da Juventude. Membros da Liga da Juventude ou dos príncipes apenas refletem o histórico familiar da pessoa ou sua experiência profissional. Essas categorias não refletem os pontos de vista políticos de uma pessoa.

Por exemplo, por definição, a Liga da Juventude Comunista Chinesa (LJCC) treina e fornece sucessores para o Partido Comunista. Se fosse uma facção, então, só poderia ser a facção do Partido Comunista.

Os príncipes, descendentes dos líderes fundadores do PCC, não têm uma facção. Eles têm interesses e pontos de vista políticos totalmente diferentes.

Na verdade, desde que Mao Tsé-tung tomou totalmente o poder na década de 1940, o PCC não teve facções, com apenas uma exceção.

Mao e Deng Xiaoping não tinham suas próprias facções. Lin Biao, que era o sucessor designado de Mao, morreu num acidente de avião quando tentava fugir para a União Soviética em 1971. Nenhum dos generais de Mao jamais se considerou parte de uma facção contra Mao.

A única exceção à regra geral tem sido a facção de Jiang Zemin.

Quando Jiang Zemin estava no poder, aqueles leais a ele não podiam ser chamados de uma facção. No entanto, o novo arranjo de Jiang Zemin na estrutura do Comitê Permanente e a extensão de sua manipulação do poder nos bastidores criaram uma facção no topo da liderança.

Esta facção tinha um líder, membros e interesses e táticas comuns, que eram diferentes, se é que não opostos, a liderança de Hu Jintao e do premiê Wen Jiabao. A formação e os interesses da facção foram baseados na perseguição ao Falun Gong. Fora isso, os líderes que chegam ao topo têm mais semelhanças do que diferenças.

Se alguém realmente quer colocar Wang Yang numa categoria, ele provavelmente tem algumas ideias que são semelhantes às de Wen Jiabao. A questão é, se Wen Jiabao não conseguiu aprovar a reforma em seu mandato de 10 anos, como podemos esperar que Wang Yang tivesse sucesso?

Além disso, quem é ou quem não é um reformador no topo da liderança, na última geração de líderes, nesta geração ou na próxima? O poder e a riqueza de todos vieram das reformas econômicas iniciadas há 33 anos por Deng Xiaoping. Quanto à reforma política, alguém viu isso na China?

Sucessores são escolhidos, não com base em quem é o melhor para o trabalho, mas em quem é o menos provável de fazer uma mudança. Violações dos direitos humanos, a disposição para encobrir desastres – sejam naturais ou feitos pelo homem – e a ausência de qualquer realização distintiva de governo são os requisitos básicos para a nova liderança.

Toda vez que um momento importante aparece, a liderança do PCC parece tomar o rumo errado: o Massacre de Tiananmen, a perseguição ao Falun Gong, a seleção da próxima geração da liderança e outras ocasiões. Bem, o PCC não pensa da forma como as pessoas normais fazem. Esses “rumos errados” são considerados como as “manobras corretas” pelo PCC.

A decepção expressa em alguns setores vem de esperanças ou expectativas irrealistas.

Epoch Times publica em 35 países em 19 idiomas.

Siga-nos no Facebook: https://www.facebook.com/EpochTimesPT

Siga-nos no Twitter: @EpochTimesPT

 
Matérias Relacionadas