Varejo de nível médio enfrenta tempos difíceis com fechamentos e falências

Alguns nos Estados Unidos estão chamando o fenômeno de “apocalipse do varejo” devido ao crescente fechamento e falências de lojas. A crise foca-se em varejistas de nível médio, como a Sears.

Os fatores que estimulam a transformação do varejo também estão afetando o Canadá, embora o impacto no país não seja tão alarmante, dizem os analistas.

Por enquanto, o problema não é simplesmente uma questão de a Amazon estar abocanhando a fatia de todos. O crescimento das compras online é inegável, mas isso ainda é um pequeno aspecto. Statistics Canada informou que em janeiro, numa base ano-a-ano, o comércio de varejo total cresceu 3,4%, enquanto sua porção de e-comércio, que corresponde a 2,7 % do total, cresceu 17,2%. Nos Estados Unidos, o comércio digital representa apenas 10% das vendas totais no varejo.

A morte iminente de varejo de nível médio e a superconstrução de espaço de varejo, particularmente nos Estados Unidos, também são catalisadores por trás dos problemas no setor.

Morte do varejo de nível médio

A Sears é considerada um exemplo da crise no varejo e, recentemente, sua gerência expressou dúvidas de que a loja possa continuar no contexto atual.

“Os consumidores já não veem razão para comprar [nas lojas físicas]. Por que eles veriam razão, quando podem obter online seus itens desejados a um preço razoável e muitas vezes recebê-los em um ou dois dias”, disse Mladen Svigir, diretor da consultoria Jackman Reinvents, via e-mail.

Assim, lojas agregadoras, como a Sears, estão perdendo terreno. No nível superior, as empresas também estão investindo em lojas para criar uma experiência de compra memorável.

Algumas marcas mais sofisticadas podem não querer estar numa loja agregadora, por exemplo, Zegna poderia estar numa Saks ou Nordstrom, mas também desejariam ter suas próprias lojas, disse Mark Satov, consultor de estratégia de negócios da Satov Consultants, em entrevista por telefone.

“Eles não querem que a loja agregadora seja sua representante total porque eles querem controlar a experiência de seus clientes”, disse Satov.

No extremo inferior do espectro, o modelo de negócios bem-sucedido da Dollarama está satisfeito com o comércio eletrônico; o varejista planeja abrir 1.700 lojas em todo o Canadá. Ao cortar custos, a Dollarama é capaz de oferecer mais valor aos seus clientes. É uma maneira rápida e fácil de comprar produtos de baixo preço e dar aos clientes a sensação de poupar dinheiro.

O varejo de nível médio, com empresas como a Sears, está sendo atacado de todos os lados. “Combine com tudo isso o aumento do nível de seleção e serviço prestado por varejistas online e este problema dos varejistas de nível médio não se resolverá tão cedo”, disse Svigir.

Medidas de sobrevivência

Os varejistas precisam se adaptar rapidamente. O CEO do EBay, Devin Wenig, numa entrevista à CNBC, chamou o quarto trimestre de 2016 de ponto de inflexão e o “fim do varejo como nós o conhecemos”. Sua mensagem era que as lojas tinham que proporcionar uma grande experiência ao cliente para sobreviver, ou então fechar.

Svigir apontou como, por exemplo, Nordstrom oferece um restaurante/bar em algumas lojas, enquanto alguns shoppings oferecem seções especializadas ou experiências de saúde/beleza.

No caso da Sears, a loja não fez os necessários investimentos transformadores, disse Satov.

“Sim, é difícil estar no meio. Sim, é difícil ser um agregador. Mas a Sears simplesmente não tentou”, disse Satov.

Nos Estados Unidos, a Target, que fracassou abruptamente em sua expansão canadense, planeja remodelar centenas de lojas nos próximos dois anos. A Kohl’s está mudando para lojas menores.

Talvez a expressão “apocalipse do varejo” esteja se tornando mais um bordão, assim como “omnichannel“. Os varejistas estão percebendo que mais importante do que nunca é a experiência de compra do cliente e ser capaz de interagir com o cliente de várias maneiras diferentes. A morte do varejo de nível médio provém de um cliente mais exigente.

Os varejistas que foram capazes de aproveitar o poder do meio digital, enquanto melhoravam a experiência nas lojas físicas, estão mais bem posicionados para sobreviver.

O desafio dos shoppings

Os Estados Unidos têm um excesso de capacidade de shoppings. Sua metragem quadrada per capita é 23,6, que de acordo com o Conselho de Varejo do Canadá (RCC) é 43% maior do que no Canadá. Um estudo do RCC também descobriu que os shoppings canadenses são tão movimentados quanto os shoppings estadunidenses, mas são muito mais produtivos em termos de vendas-por-metro-quadrado.

Nos Estados Unidos, nove varejistas entraram com falência apenas no primeiro trimestre de 2017. Em contraste, nove foi o total para todo o ano de 2016, de acordo com a CNBC.

Nos últimos anos, o Canadá tem visto uma parcela menor de falências e fechamentos de um número de varejistas nacionais, como Jacob, Smart Set e cadeias internacionais como Mexx e BCBG.

“O Canadá tem sido mais disciplinado quanto à construção de metragem quadrada per capita e isso nos ajudará, mas não nos inoculará contra a possível questão”, disse Satov.

Exceto pela província de Alberta, 2016 foi um ano saudável para os shoppings no Canadá, com produtividade de 2,4% e o investimento atingindo um recorde de 6,8 bilhões de dólares, de acordo com pesquisa da CBRE. Um bom desenvolvimento, considerando a construção excessiva nos Estados Unidos, é que, após a conclusão de muitos grandes projetos de desenvolvimento, o espaço total de construção está em seu menor nível desde 2010.

“Minha visão é que os canais analógicos não desaparecerão tão cedo”, disse Satov. Varejistas físicos não sumirão, mas uma melhor utilização de áreas menores é necessária.

“Para os varejistas que são também produtores, eles têm que gastar mais nesses espaços para fazer as pessoas querer estarem lá”, acrescentou Satov.

Satov disse que os shoppings de nível médio, que não são ancorados por varejistas de alto nível, estão em apuros, enquanto shoppings de alto nível ou “shoppings tipo A”, como o Toronto Yorkdale, continuam a reinvestir e estão cheios de clientes.

“Os shoppings têm que trabalhar mais para provar aos varejistas que eles lhes deram um espaço que as pessoas têm interesse em visitar e ajudá-los a promovê-los dessa forma”, disse Satov.

“Os shoppings de tipo ‘B’ e ‘C’, que ainda dependem de varejistas como a Sears Canada para ancorar inquilinos, sofrerão enquanto a Sears (e outros similares) continuam a decair”, disse Svigir.

“A menos que eles possam encontrar uma maneira de se reinventar e criar experiências (ou oferecer conveniência) que traga os consumidores e dê-lhes uma razão para comprar, shoppings de nível médio seguirão o caminho que os varejistas de nível médio têm trilhado nos últimos anos”, disse Svigir.

Enquanto a reviravolta do varejo no Canadá não foi tão drástica quanto nos Estados Unidos, o Canadá está em desvantagem em relação aos Estados Unidos, pois o consumidor canadense tem menos renda disponível e está mais endividado do que seu equivalente estadunidense.

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