Uma vida virada de cabeça para baixo pelo comunismo

A vida encantada e regalada de Ildiko Trien na Romênia foi virada de ponta cabeça quando ela tinha cinco anos e meio.

Seu pai, que falava vários idiomas, era um homem de negócios; sua mãe, uma advogada. Sua família de origem húngara era rica e possuía terras. O pai de Trien também criava cavalos Lipizzaner.

Uma noite em 1946, quatro ou cinco homens com casacos de couro e bonés invadiram sua casa e recolheram toda a família. A família planejava escapar para a Palestina no dia seguinte.

“Eles calçaram-me com os sapatos do meu irmão”, lembrou-se Trien. Ele era quatro anos mais velho. “Eles eram tão grandes.”

Seu pai foi arrebatado para um gulag [campo de trabalhos forçados], e Trien, sua mãe e seu irmão mais velho, Csaba, foram levados para viver num casebre fora de Bucareste.

“Fomos considerados burgueses”, disse Trien. Intelectuais, médicos, advogados e latifundiários foram reunidos e colocados em gulags. Os gulags pontilhavam a rota de um canal que os prisioneiros foram postos para construir, conectando o Rio Danúbio ao Mar Negro.

(Shutterstock)
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“Fomos colocados num casebre com piso de terra, lâmpadas de querosene e um palheiro”, contou Trien, agora com 75 anos e vivendo em Manhattan, Nova York. O casebre foi uma mudança dramática para uma garota que, até então, estava acostumada a estar vestida com roupas que combinassem com seu pônei.

Trien não viu seu pai por mais de dois anos depois daquela noite. “Minha infância foi tirada de mim”, disse ela.

A mãe de Trien foi posta num trabalho noturno para carregar grandes sacos de batata e milho para um trem. Desta forma, “ela era capaz de trazer pão para mim e meu irmão.”

Em 1945, o comunismo tinha começado seu lento mas mortal estrangulamento na Romênia. O líder da União Soviética, Josef Stalin, impôs o comunismo à Romênia; ele delineou grandes planos, enviou tropas e instalou o primeiro líder comunista, Gheorghe Gheorghiu-Dej.

Após a abdicação do Rei Miguel I no final de 1947, os líderes comunistas passaram a próxima década estabelecendo um regime totalitário.

Os números variam, mas estima-se que cerca de 1 milhão de romenos foram aprisionados no sistema gulag; muitos foram forçados a trabalhar na construção do canal.

(À esquerda) Brayer Piry, a mãe de Ildiko, foi forçada a parar de praticar direito quando o comunismo chegou ao poder na Romênia. Ela morreu em 19 de dezembro de 1989, poucos dias antes do regime de Ceausescu ser derrubado. (À direita) Brayer Karoly, o pai de Ildiko, era um rico empresário antes de ser levado para um campo de trabalhos forçados na Romênia em 1946. Ele morreu em 1956 numa cela de prisão. (Cortesia de Ildiko Trien)
(À esquerda) Brayer Piry, a mãe de Ildiko, foi forçada a parar de praticar direito quando o comunismo chegou ao poder na Romênia. Ela morreu em 19 de dezembro de 1989, poucos dias antes do regime de Ceausescu ser derrubado. (À direita) Brayer Karoly, o pai de Ildiko, era um rico empresário antes de ser levado para um campo de trabalhos forçados na Romênia em 1946. Ele morreu em 1956 numa cela de prisão. (Cortesia de Ildiko Trien)

O circo

Porventura, os negócios do pai com cavalos Lipizzaner apresentaram à família uma oportunidade. O proprietário do Circo Krately, que tinha feito negócios com o pai de Trien, encontrou-os uma semana depois que eles foram transferidos e sugeriu que eles se juntassem ao circo como uma forma de ajudá-los a evitarem atrair muita atenção.

Trien e seu irmão começaram a dançar, e depois se tornaram artistas de trapézio após treinarem por vários anos. Eventualmente, eles subiram para o topo da profissão, realizando truques nunca feitos antes; enquanto sua mãe vendia ingressos.

Era uma vida difícil. Num dia típico, Trien acordaria cedo, faria uma séria completa de exercícios, iria à escola, então voltaria para casa e faria dois shows. Mas porque eles viajavam com frequência, eles estavam um tanto afastados da sociedade e não sofreram tanto quanto seus compatriotas romenos, disse Trien.

A Securitate, a polícia secreta no núcleo de uma vasta rede de segurança, havia penetrado toda a sociedade, e familiares e vizinhos eram encorajados a espionar uns aos outros. Para obter minúsculos ganhos, as pessoas delatariam seus vizinhos, dizendo, por exemplo, que os ouviram escutando a rádio Voz da América, disse Trien. Todos aprenderam a colocar travesseiros sobre o telefone antes de falar sobre qualquer coisa sensível.

Ildiko Trien (nee Brayer), 5, e seu irmão Csaba Brayer, 9, executavam danças escocesas quando se juntaram ao Circo Krately na Romênia em 1946. (Cortesia de Ildiko Trien)
Ildiko Trien (nee Brayer), 5, e seu irmão Csaba Brayer, 9, executavam danças escocesas quando se juntaram ao Circo Krately na Romênia em 1946. (Cortesia de Ildiko Trien)

“[Os comunistas] destruíram a estrutura moral da sociedade, portanto não havia sociedade”, disse ela. “Costumava ser que, como um ser humano, você acreditava num poder maior e isso o ajudava a se comportar de certa maneira. [O comunismo] é uma coisa tão subversiva.”

Durante anos, a comida foi racionada usando-se cupons. Trien disse que ela e Csaba tinham cupons vermelhos, porque eles realizavam o que era considerado “trabalho pesado”. Eles conseguiam mais pão e carne. Sua mãe tinha um cupom amarelo para “trabalho leve”.

“Minha mãe nunca se sentou para comer comigo e meu irmão”, disse Trien. Ela se certificaria de que seus filhos estavam bem alimentados primeiro, então ela comia o que restava.

Trien iria à escola onde quer que o circo estivesse localizado, muitas vezes por apenas um mês num lugar e um mês no próximo.

Como Trien era considerada burguesa, ela recebeu um “grau social” de zero na escola. Os camponeses recebiam uma graduação de +10. “Eu tinha de conseguir um A+ na escola apenas para passar, porque o zero faria minhas notas serem rebaixadas.”

Visitando o pai

Cerca de dois anos após sua família ter sido dividida, quando Trien tinha quase 8 anos, a família recebeu um cartão postal dizendo que podiam visitar seu pai. No cartão havia uma lista de itens que eles estavam autorizados a levar para ele: banha de porco, cigarros, cuecas e meias. Trien ainda tem os sacos de estopa no qual eles levaram os itens.

Trien se lembra de ter viajado para onde o pai estava, uma área árida e fria. Quando chegaram ao gulag, nomeado como “Portal Branco”, eles esperaram até que seus nomes fossem chamados após os prisioneiros terminarem seus trabalhos forçados.

Eles esperaram e esperaram, mas seus nomes não foram chamados. Sua mãe foi se informar e lhe foi dito que ele tinha sido transferido para um gulag pior devido a “mau comportamento”.

Este gulag, chamado “Vale Negro”, ficava a cerca de 48 quilômetros de distância, então a mãe de Trien arranjou um táxi e eles foram para lá.

O mais próximo que o motorista iria era o grande bloqueio criado como posto de vigia, cerca de um quilômetro do campo, recordou Trien.

Sua mãe desceu do carro, colocou Trien na frente e Csaba logo atrás, agarrou suas malas e disse, “Marchem!”

Os soldados começaram a disparar, mas a mãe de Trien lhes disse para continuarem, dizendo: “Eles não atirarão em crianças.”

Eles passaram pelos corpos de dois homens enforcados. Ao redor de seus pescoços havia sinais com o aviso, “Escapar é morte.”

O gulag era cercado por uma camada tripla de arame farpado.

De algum modo, entre os milhares de prisioneiros, seu pai os viu.

“Ele pulou no arame farpado e gritou: ‘Dê-me meus filhos!’”, contou Trien. “Milhares de prisioneiros começaram a bater os pés e a gritar: ‘Dê-lhe seus filhos!’”

Guardas apareceram rapidamente e levaram os três para o campo. “Minha mãe gritava para nós: ‘Não chorem.’”

“Pai tinha sangue nas mãos do arame farpado e marcou todo o meu cabelo e rosto. Durante anos, eu acordaria devido a pesadelos com sangue no meu rosto”, disse Trien.

Ela disse que seu pai estava tão magro que parecia um esqueleto.

As crianças só puderam ver seu pai por alguns poucos minutos e os guardas se recusaram a permitir que sua mãe o visse. Trien lembra-se de andar muito depois de deixarem o gulag.

Ildiko Trien (nee Brayer) (na parte inferior) completa uma das manobras mais difíceis num trapézio, enquanto seu irmão, Csaba, segura-a pelos pés. Os dois estavam na Flórida como parte de um intercâmbio cultural com o Ringling Bros em 1971. (Cortesia de Ildiko Trien)
Ildiko Trien (nee Brayer) (na parte inferior) completa uma das manobras mais difíceis num trapézio, enquanto seu irmão, Csaba, segura-a pelos pés. Os dois estavam na Flórida como parte de um intercâmbio cultural com o Ringling Bros em 1971. (Cortesia de Ildiko Trien)

Fama sem liberdade

Três anos depois, quando Trien tinha 11 anos, a Romênia recebeu o Festival Mundial da Juventude de 1953, uma exposição com o lema: “Não! Nossa geração não servirá à morte e à destruição!”

Ela foi uma das grandes estrelas do show, descrevendo-se como a “Shirley Temple da Romênia” da época. No palco, o secretário do Partido Comunista, Gheorghiu-Dej, pegou-a nos braços e perguntou o que ela queria.

“Quero meu pai.”

“Claro, vamos trazê-lo para o palco.”

“Não, ele está no canal.”

Três dias depois, homens da Securitate visitaram o circo. “Eles me perguntaram por que meu pai estava num gulag”, recordou Trien. “Eu disse: ‘Vocês terão de perguntar aos camaradas o porquê.’”

Nesse ponto, ela já tinha aprendido a se autocensurar. “Tudo o que passasse por sua mente, você não diria; mesmo quando criança, você aprendia a manter a boca fechada”, disse ela.

“Você tinha que acreditar fortemente em algo dentro de si. Você tinha que acreditar que esta não era a realidade. Mas você não falaria sobre isso.”

Os homens retornaram uma semana mais tarde e disseram-lhe que não poderiam liberar seu pai porque ele tinha exibido mau comportamento, feito greve de fome e resistido à prisão. Mas, em vez disso, eles deram à família uma casa de aluguel em Bucareste para morar, disse Trien.

Deixando a Romênia

Após a morte de Stalin em março de 1953, o sistema gulag enfraqueceu, mas o pai de Trien só foi libertado em 1956 por três semanas. Ele foi internado num hospital para tratar pressão arterial elevada, antes de ser preso novamente e morrer três dias depois.

Trien casou-se aos 21 anos com um acadêmico romeno, mas finalmente não deu certo e eles se divorciaram sete anos depois.

Em 1970, Trien e seu irmão tiveram a oportunidade de ir para os Estados Unidos e trabalhar no circo Ringling Bros por três anos num intercâmbio cultural. Na época, Nicolae Ceausescu estava no poder na Romênia e a vida estava prestes a ficar muito pior no país.

Trien casou-se com um estadunidense em 1973 e permaneceu nos Estados Unidos, onde vive desde então.

Nos últimos 47 anos, Trien aproveitou ao máximo sua liberdade. Durante anos, ela exerceu seus direitos da Primeira Emenda como editora-executiva da Fire Island News, que serve uma comunidade em Long Island. Agora, ela administra sua própria empresa em Manhattan, Accent Funding, especializada em fornecer empréstimos-ponte.

Apesar de ter deixado a Romênia há muito tempo, as memórias de Trien a respeito do comunismo são profundas. Mesmo hoje, ao sair de uma loja, ela ainda para e olha para os dois lados para ver se há alguma ameaça ao redor.

“Minhas antenas estão sempre ligadas, sempre alertas”, disse ela. “Isso é sobreviver ao comunismo.”

 
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