Torcedores venezuelanos protestam no Mundial 2014

Durante a difícil partida desta segunda-feira (30) em que a França superou a Nigéria no Estádio Nacional, o Mané Garrincha, em Brasília, pelas oitavas de final do Mundial 2014, uma das diversas faixas da torcida não passou no telão da arena nem nas telinhas da grande mídia brasileira. Nela se lê “SOS Venezuela”. Pode-se notar que um dos venezuelanos faz parte do mesmo grupo que estendeu outra faixa de protesto no Mineirão no jogo Argentina x Irã, no dia 21. Brasileiros na torcida simpatizaram com a causa e se somaram ao protesto.

Na partida Brasil x Chile deste sábado (28), em que o goleiro Júlio César “salvou a pátria”, no Mineirão, garantindo a classificação da seleção brasileira para as quartas de final da Copa, torcedores venezuelanos presentes na torcida verde e amarela também defenderam sua pátria. Vestindo a camisa de seu país e burlando a censura da Fifa, estenderam na arquibancada uma faixa com as cores de sua bandeira onde se lia “Venezuela resiste”.

O registro foi replicado no Facebook por Daniel Alex obtendo muitas curtidas, compartilhamentos e comentários. “Faixa muito leve, tem que ser mais clara e dura contra o governo”, comentou o internauta Daniel Sagaidak. “Meu povo já não tem medo”, disse Omaira Aponte, de Caracas.

No jogo entre Argentina e Irã, no sábado anterior (21), também no estádio Mineirão, pelo Grupo F, venezuelanos também compareceram na torcida e fizeram um protesto pedindo socorro e alertando os brasileiros sobre a semelhança dos rumos políticos do Brasil com a Venezuela. Também burlando a vigilância da Fifa, exibiram na arquibancada uma bandeira de seu país onde se lia: “Tempo em derrubar uma ditadura: Ucrânia – 1 mês, Egito – 2 meses, Síria – 2 anos, Venezuela – ‘loading’, Brasil – ‘warning!’ #S.O.S.Venezuela”.

Completamente ignorado pela mídia tradicional, o fato teve repercussão viral nas redes sociais. Tirada no estádio por torcedores venezuelanos amigos de Daniel Alex, a foto foi postada inicialmente no Twitter e em seguida republicada no Facebook, atingindo mais de 400 curtidas e 2.000 compartilhamentos.

O jornal Folha de São Paulo registrou mais protestos de venezuelanos em outros dois jogos da Copa do Mundo que também furaram a proibição da Fifa a manifestações políticas para reprovar o governo de Nicolás Maduro e a dura repressão às manifestações populares na Venezuela.

No duelo da terça-feira (24) entre Uruguai e Itália, na Arena Dunas, em Natal, pelo Grupo D, um venezuelano, um comerciante uruguaio radicado na Venezuela e mais dois uruguaios, vestindo camisas de ambas as seleções, estenderam a bandeira venezuelana com a inscrição “S.O.S.”. O comerciante, Álvaro Sanchez, 59, informou que precisou vaiajar para o Uruguai para conseguir comprar as passagens para o Brasil e os ingressos para os jogos. Ele também estranhou as obras inacabadas e a falta de divulgação do Mundial aqui no país: “Acho que estão com medo dos protestos”.

No dia 14 de junho, no clássico Inglaterra x Itália, em Manaus, pelo Grupo D, uma faixa se destacava na arquibancada da Arena da Amazônia: “Venezuela Ditadura”. Uma bandeira da Venezuela também se misturava entre a das seleções da disputa e do Brasil. Pelo menos uma centena de venezuelanos estavam presentes, vestidos com a camisa de sua seleção e a bandeira venezuelana. A maioria deles vieram de carro, pela BR-174, e torceram para a Itália.

No dia seguinte (15), venezuelanos também marcaram presença no Maracanã, no Rio de Janeiro, para apoiar a Argentina na partida contra a Bósnia-Herzegovina, pelo Grupo F. Dessa vez não houve notícia de que algum material de protesto tenha passado pela vigilância.

A seleção da Venezuela jamais obteve classificação para disputar uma Copa do Mundo, mas os venezuelanos vêm marcando forte presença neste Mundial, para torcer por outras seleções e também chamar atenção sobre a grave situação de violação dos direitos humanos em seu país.

Segundo fontes extraoficiais citadas pelo canal venezuelano NTN24, centenas de civis foram mortos até o momento pela Guarda Nacional Bolivariana e por milícias paramilitares chavistas armadas pelo regime cubano, como La Piedrita e Tupamaros, em ofensivas visando sufocar a maior onda de protestos no país em décadas.

O país experimenta uma escalada inflacionária extratosférica, excassez de alimentos e de produtos básicos, filas intermináveis, apagões constantes e um quadro de violência endêmica. A Venezuela teve 24.763 mortes violentas em 2013, segundo a ONG Observatório Venezuelano de Violência (OVV). As cifras oficiais de homicídios estão suspensas pelo governo desde 2003.

 
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