Tempestade anticorrupção prossegue na China

Pessoas usam seus laptops num café em Pequim em novembro (Wang Zhao/AFP/Getty Images)

“Anticorrupção” se tornou o chavão na China nas últimas semanas. Todos os dias, há relatos sobre autoridades comunistas em vários níveis sendo investigadas. Liderados por Xi Jinping, a liderança do novo regime prometeu lidar com a corrupção entre os oficiais. Essa nova rodada da campanha anticorrupção tem aspectos que podem levar os chineses a perceberem que vivemos numa sociedade caótica que perdeu quase completamente sua moralidade.

Numa selva, ninguém se sente seguro

A sociedade chinesa é como uma selva, onde todos tem um sentido fundamental de insegurança. Isso se manifesta entre oficiais e seus associados, entre amantes e mesmo entre familiares.

Qi Hong, especialista em dispositivos de vigilância eletrônica, tornou-se conhecido por detectar e remover artefatos de espionagem e filmagem para oficiais. Ele disse ao Chongqing Evening News que nos círculos oficiais da China, a vigilância se tornou prática comum. No ano passado, ele removeu mais de 300 dispositivos de carros, escritórios e quartos de oficiais. Na semana mais movimentada, ele removeu mais de 40 dispositivos, que haviam sido plantados por esposas, amantes, colegas e concorrentes.

Todas essas pessoas têm diferentes relacionamentos e níveis de proximidade com os oficiais, então, por que todos agem como a polícia secreta no filme “A vida dos outros”?

Cada pessoa tem suas próprias razões. Rivais políticos instalam dispositivos de vigilância para descobrir falhas escondidas ou erros de seus oponentes para usarem contra eles. Esposas temem que seus maridos estejam sendo infiéis e querem proteger seus casamentos. Espionar um(a) amante tem razões mais complexas por trás, podendo ser armadilhas sedutoras com segundas intenções. Ainda mais estranho é o fato de que alguns dispositivos não são plantados por inimigos, mas por parceiros que “estão no mesmo barco” e que querem garantir que seus interesses comuns permaneçam sólidos e seguros.

Este é apenas um exemplo da insegurança presente na sociedade chinesa moderna, regida pela lei da selva. Casais não confiam uns nos outros, amantes comercializam sexo por poder e as interações entre colegas, cúmplices e outros estão cheias de intrigas ainda mais. Basicamente, nenhuma relação na sociedade permite sentir segurança.

Dicas online

No passado, as pessoas costumavam alertar secretamente a Secretaria Anticorrupção ou o Comitê Central de Inspeção Disciplinar. Mesmo que vazassem a informação online, era raro alguém revelar seu nome verdadeiro. No entanto, um precedente ocorreu na tempestade anticorrupção de 2012. Na manhã de 6 de dezembro, Luo Changping, editor associado da renomada revista de finanças chinesa Caijing, postou três mensagens em seu Weibo, um serviço chinês semelhante ao Twitter, informando sobre Liu Tienan, que detém as posições de vice-diretor da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma e secretário do Conselho Nacional de Energia.

A declaração de Luo Changping no Weibo foi intitulada, “Relatório ao Comitê Central de Inspeção Disciplinar, usando o nome real”. Foi divulgado o conluio entre Liu Tienan; o empresário Ni Ritao; Guo Jinghua, a esposa de Liu Tienan que é uma oficial distrital e Liu Decheng, o filho de Liu Tienan que também possui ações no negócio de Ni Ritao.

A exposição também apresentou o certificado de educação falsificado de Liu Tienan e informações sobre suas amantes. Ele também listou contas bancárias no exterior que Liu Tienan e a empresa de Ni Ritao usariam para solicitar empréstimos de bancos do continente e nomeou contas bancárias no HSBC em nome do filho de Liu Tienan, contendo depósitos em dólares norte-americanos e canadenses.

Há também evidências de que Liu Tienan recebeu grandes quantias de dinheiro da empresa de Ni Ritao, segundo um artigo da Caijing intitulado, “Aquisição de estilo chinês: O esquema de empréstimo fraudulento no estrangeiro envolvendo um oficial sênior e empresários”.

Neste caso, a evidência de corrupção apareceu conclusiva. Porém, quatro horas mais tarde, um gerente do Escritório de Informação do Conselho Nacional de Energia, onde Liu Tienan tinha uma posição, disse à imprensa que tudo que Luo Changping disse sobre Liu Tienan era “pura calúnia e rumores”. Ele disse que eles estavam contatando os departamentos relacionados à gestão da internet e a Segurança Pública e estavam no processo de apresentar um caso e notificar a polícia. “Tomaremos medidas legais para lidar com este assunto”, disse o gerente.

Na época que a mensagem do Weibo foi postada online, Liu Tienan estava na Rússia, negociando um acordo de energia. Isso criou uma situação constrangedora para os líderes comunistas em Pequim, porque tinham de prevenir a oportunidade de Liu Tienan escapar, embora improvavelmente. E, mais importante, eles precisavam considerar como lidar com relatos anticorrupção na internet, uma vez que haviam prometido cuidar de casos notificados online.

Negociando sexo

A negociação do sexo se tornou um tema quente constante em círculos oficiais chineses. De tempos em tempos, este fenômeno chama a atenção para o quão baixo a moralidade declinou na China.

Em casos recentes de corrupção, o caso de Lu Yingming, vice-diretor da Secretaria de Terras e Recursos de Guangdong, realmente se destaca. As violações de Lu Yingming incluem o desvio de 2,8 bilhões de yuanes (c. 450 milhões de dólares), a posse de 63 imóveis e o sustento de 47 amantes. Lu Yingming também é um “oficial nu”, ou seja, ele enviou sua família para viver no exterior para protegê-los se alguma coisa acontecesse com ele.

Outros casos de destaque incluem Qi Fang, chefe da Secretaria de Segurança Pública da cidade de Wusu, que mantinha irmãs gêmeas como amantes; e o chefe de 43 anos de uma vila na província de Shanxi, que tinha quatro esposas e 10 filhos. Lei Zhengping, um membro do Partido Comunista Chinês (PCC) em Chongqing, teve seus vídeos pornográficos postados online por outros. Dan Zengde, o vice-diretor da Secretaria de Agricultura da província de Shandong, teve evidências de seus vários casos amorosos divulgadas na internet, incluindo um compromisso assinado com sua amante de que se divorciaria de sua esposa.

Escândalos sexuais chocantes foram tornados públicos no passado, como o caso da “amante pública” de Li Wei, secretário do Comitê do PCC em Quanshan. Outro oficial, Xuzhou Tong Feng, teria abusado de sua esposa e também a obrigou a tirar fotos de cenas de quarto dele com sua amante. Xu Qiyiao, o prefeito da cidade de Yancheng, província de Jiangsu, teve cerca de 100 amantes, incluindo uma mãe e filha.

A fase atual das medidas anticorrupção foca-se principalmente em expor a frequência de tais escândalos. O jornal Telegraph da Inglaterra, por exemplo, publicou um artigo em 6 de dezembro com a manchete, “China abalada por cinco escândalos sexuais em seis dias”.

Evidência audiovisual

Hoje em dia, a diversidade de evidências torna difícil para os oficiais refutarem as afirmações contra eles. Em meados da década de 1990, acusações manuscritas se tornaram digitadas e, nos últimos anos, evidências audiovisuais se tornaram cada vez mais comuns. A impressão digital vermelha na carta assinada de compromisso de divórcio que Dan Zengde deu a sua amante é excepcionalmente clara. E os vídeos indecentes de Lei Zhengfu, um oficial de Chongqing, foram sem dúvida filmados na cena. Evidência tão forte não dá margem para recusa a estes oficiais.

O regime comunista costumava ter uma atitude negativa sobre informações anticorrupção sendo publicadas online. Apesar de tais histórias terem se tornado temas quentes para o debate público, elas realmente não previnem a corrupção. Em 2009, houve apenas nove casos nacionais anticorrupção divulgados na internet que foram verificados, segundo estatísticas do Diário do Povo Online. Em 2010 e 2011, vimos uma média anual de menos de dez.

No entanto, durante a campanha de 2012 contra a corrupção, as autoridades se comprometeram a aceitar denúncias online e, desde que haja provas, elas seriam investigadas. Apesar de apenas uma denúncia ter se tornado um caso oficial até agora, o impulso anticorrupção na internet não é fácil de controlar e as decisões não dependem completamente das autoridades. Portanto, o desenvolvimento futuro e o destino da anticorrupção na internet podem ser usados para medir o empenho das autoridades políticas superiores da China no combate à corrupção.

Varredura anticorrupção aleatória

A expressão chinesa, “pegar o coelho que atinge a árvore”, descreve bem a aleatoriedade desta nova campanha.

As diversas províncias têm reagido com taxas diferentes ao chamado por ação anticorrupção de seu novo líder Xi Jinping. A resposta mais rápida veio da província de Guangdong, onde cinco oficiais de departamentos ou secretarias e um secretário distrital do PCC já foram presos.

No entanto, Hunan, Hubei, Mongólia Interior e muitas outras províncias não fizeram qualquer movimento ainda e provavelmente ainda estão observando o desenrolar da situação. Esta atitude demonstra que o oficialismo chinês ainda vê a proposta anticorrupção de Xi Jinping como “um novo oficial aplicando medidas rigorosas temporariamente”. Eles acreditam que este vento de mudança só soprará um pouco e desaparecerá e ainda não consideram sacrificar um peão para salvar a carruagem. Esta atitude relaxada significa que oficiais ainda não definiram restrições sobre seus familiares e alguns, infelizmente, tornam-se coelhos que atingiram a grande árvore.

Li Yali, o chefe de polícia da cidade de Taiyuan, na província de Shanxi, tornou-se um destes coelhos ignorantes quando seu filho Li Zhengyuan foi preso por dirigir embriagado e agredir a polícia de trânsito que o mandou parar o carro.

Nesta rodada da campanha, até agora, a província de Shanxi só contribuiu com um chefe de aldeia corrupto, acusado de ser casado com várias esposas. Aa autoridades superiores de lá têm se preocupado com como encontrar um ou dois oficiais corruptos em altas posições para “equilibrar as coisas” e avidamente procuram alguns casos. Li Yali deu-lhes essa oportunidade, assim, eles terminaram suas funções como vice-diretor da Secretaria de Segurança Pública da província de Shanxi e como chefe da Secretaria de Segurança Pública de Taiyuan, fazendo-o se submeter a investigações.

Algumas mídias no estrangeiro chamaram esta varredura anticorrupção de “um plano de 100 dias”, o que significa que será semelhante à nova política de 100 dias de Putin na Rússia e ao plano de 100 dias de Mursi no Egito, que foram meramente blefes e arrogância.

Minha opinião é que essa rodada de combate à corrupção apenas começou e o resultado não pode ser previsto. O que pode ser dito é que Xi Jinping quer verdadeiramente combater a corrupção, porque este é o principal método para remodelar a legitimidade do Partido Comunista Chinês e reunir o apoio popular. No entanto, a corrupção está enraizada na ditadura de partido único que se propagou e aprofundou. Portanto, essa campanha não é completa o suficiente e não resolverá o problema na fonte. Após a campanha terminar e quando a corrupção retornar, os efeitos de usar esta medida novamente serão muito limitados.

He Qinglian é uma proeminente autora e economista chinesa que atualmente vive nos Estados Unidos. Ela escreveu “China’s Pitfalls”, que retrata a corrupção na reforma econômica da China da década de 1990, e “The Fog of Censorship: Media Control in China”, que aborda a manipulação e restrição da imprensa. Ela escreve regularmente sobre questões sociais e econômicas da China contemporânea.

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