Teledoenças: pragas que destroem a consciência

“Teledoenças” e a degeneração da consciência

As pessoas não só adoecem do corpo, como pior, adoecem da consciência. E as doenças da consciência são devastadoras, porque distorcem severamente ou até destroem as verdadeiras bases humanas de uma pessoa, e, além disso, têm uma enorme virulência, ou seja, possuem uma alta capacidade de disseminação.

Tenho visitado uma entidade filantrópica que cuida de crianças e adolescentes, entidade essa que respeito muito, devido ao esforço constante da fundadora e das demais assistentes, que trabalham duramente sem qualquer remuneração. Mas, depois de constatar certas coisas, fiquei triste e bastante preocupado com a influência socio-cultural a que estão submetidas as jovens.

A fundadora – M.A. (para preservar a sua identidade) – é uma senhora de cerca de 75 anos, que criou, a partir de um cubículo feito de tábuas e um teto improvisado, um lar que já abrigou e formou mais de 2 mil crianças, entre normais, deficientes, abandonadas, doentes, violentadas etc.

M.A. dormiu no chão duro, em cima de papelões ou de uma coberta fina, durante um bom período, para poder superar tempos duros de falta de recursos, enquanto cuidava e educava sozinha de algumas crianças.

O lar-abrigo cresceu, edificou-se em pedra e cimento e continua dando suporte para crianças, famílias e necessitados, mas sempre com muita dificuldade, porque a sra. M.A. não se corrompe, não aceita favores mal-intencionados e precisa lutar para defender o abrigo de bandidos comuns e dos bandidos de colarinho, que vindos de órgãos públicos, tentam, como aves de rapina, tirar proveito da fragilidade aparente da instituição.

Mas, existem outros tipos de malfeitores contra os quais a sua instituição não soube lutar e se proteger, porque a estes ela abriu as portas, tentando manter a sensação de coletividade, e também para encontrar alívio do cansaço cotidiano e para receber informações e orientações sobre o mundo. E fez isso porque esses pérfidos malfeitores certamente pareciam bons moços, gente culta e honesta que é responsável pela confiável certificação do senso comum cotidiano e da moralidade.

A verdade, porém, é que por trás dos bons modos, do refinamento intelectual, da eloquência e do riso aparentemente generoso, eles mentem, e mentem muito, porque estão comprometidos pelos seus próprios interesses. E, além disso, iludem, manipulam e criam novos parâmetros, conceitos e ondas de senso comum que, ao invés de prezarem pelas relações humanas íntegras, pelos bons costumes e pela ética, criam, em sua maioria, padrões imorais, vulgares e decadentes de conduta humana.

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Ver aquelas crianças e adolescentes arrastadas pela estupidez dos apresentadores de tv e das “estrelas” nos programas de auditório do domingo é devastador, porque todo o duro e suado trabalho de educação que se faz na instutuição – a partir de valores morais, humanos e espirituais preciosos – cai por terra num instante, com a tremenda influência que artistas mediocres e apresentadores dissimulados têm sobre pessoas sem bases morais e intelectuais sólidas.

De muitas formas é feita a difusão da estupidez e a transformação da consciência da audiência. A hipocrisia do bom-mocismo dos apresentadores, que sorriem, oferecendo prêmios “incríveis” aos vencedores de seus jogos mediocres e infantis, ou carros velhos reformados e “casas dos sonhos” para os “sortudos” telespectadores. As inúteis curiosidades sobre as novidades e “modas” dos artistas: as novas tatuagens feitas, a reforma siliconada de peitos e bundas, as mansões luxuosas e os carros de último tipo adquiridos recentemente, ou as perguntas lamentáveis dirigidas aos ídolos, do tipo “com quem você dormiria se pudesse?”, e um monte de outras inutilidades e vulgaridades estupidificantes. Existem também os novos hits musicais, que falam de festinhas picantes, de vizinhas seduzidas com carrões, ou de sugestivas onomatopeias sexualizadas, além das dancinhas eróticas vulgaríssimas, altamente apelativas, mas que alcançam um sucesso alarmante e incompreensível.

Mas, a toda essa mediocridade e leviandade é dado um ar de produção elaborada, de trabalho refinado; tudo isso é colocado como um modelo de sucesso, de gente que se deu bem e que, supostamente, representa o ideal de status social.

Junto com isso, a ostentação ilusória e as vaidades correm soltas: jóias exageradas e adornos extravagentes e cafonas, o ar de estrelismo de muitos, e a opulência material frisada, enfatizam o quão recompensadores e vantajosos são esses modelos de estilo de vida.

Não é isso que se aclama, que se glorifica? Não é esse algo ao qual se dá valor e que reluz como ouro? Não são essas coisas afirmadas por muitos artistas, apresentadores sem ética e outros formadores de opinião? Todos esses valores distorcidos não vêm daqueles que detem “a voz” que remodela os valores sócio-culturais, fortalecendo conceitos e opiniões e estabelecendo o senso comum?

Por que deveriam, então, as crianças e os adolescentes seguirem modelos e valores que lhes exigem mais esforço, seriedade, comprometimento e humanidade? Ou: quem os guia de forma amorosa e consistente por esse caminho virtuoso, já que as vozes-mãe do senso comum, astutas e interesseiras, afirmam o suposto caminho fácil e aclamado (leia-se tortuoso) para a riqueza e o glamour?

Munidos das potentes vozes das mídias – apoiadas por poderosos anunciantes -, os eloquentes formadores de opinião martelam impiedosa, mas dissimuladamente, contra a fragilidade e a falta de recursos de inúmeras instituições filantrópicas, e não só contra elas, mas contra a maciça maioria da população, que ainda vive em “cubículos de madeira e tetos improvisados” pelo imenso Brasil.

A tv invade como um raio e em todos os cantos é a voz que dirige e forma o senso comum, contra o qual os tímidos, sinceros e pacíficos educadores devem lutar todos os dias, afim de manterem ainda o mínimo de dignidade e bom-senso nas crianças e jovens em formação. As “teledoenças” são como uma praga, como vírus altamente contagiosos, contra os quais se necessita atenção e prevenção constantes para que se evite o contágio e a disseminação massiva. Mas, isso tem sido difícil de evitar…

Alguém pode colocar a cínica questão de que os programas de tv e rádio são feitos de acordo com os anseios do público, e que, inclusive, as pessoas são livres para escolher o que assistir ou ouvir. De fato, elas seriam livres para escolher se tivessem bases morais e intelectuais sólidas; mas quem as dá a elas, já que o ensino público é extremamente deficiente e atualmente incompetente para isso, além de que os próprios meios de comunicação de massa têm uma base perversa e, com raras exceções, estão totalmente distante desse intento? E quanto a oferecer programas e conteúdos de baixo nível intelectual e moral, a verdadeira pergunta deve ser: que tipo de pessoas são essas que intencional e conscientemente se dão ao trabalho de produzir coisas como essas? O que desejam e esperam? E completo com uma frase conhecida: “Conhece-se uma árvore pelos seus frutos”…

 

Alberto Fiaschitello é terapeuta naturalista e cientista social

 
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