Tapa na cara da Colômbia: guerrilheiro com pedido de extradição agora é congressista

Colombianos indignados tornaram viral no Twitter a hashtag #SantrichNARCOngresista e #SantrichVerguenzaMundial, demostrando que a chegada de Santrich ao Congresso é um golpe à democracia e à credibilidade das instituições judiciais colombianas

Por Andres Fernández

O caso do líder guerrilheiro das FARC, Jesús Santrich, deu uma guinada a seu favor: após uma série de decisões judiciais ele recuperou sua liberdade, e apesar de continuar sendo investigado por formação de quadrilha e tráfico de drogas, ele tomou posse como congressista da Colômbia no dia 12 de junho.

Enquanto isso, o presidente Iván Duque afirmou que não se pode permitir que um mafioso assuma um cargo como congressista e que ele está totalmente convencido de que Santrich continuou traficando cocaína mesmo após a assinatura do acordo Santos-FARC.

Duque pede ajuda à Procuradoria

Em uma tentativa de impedir a posse da Santrich na Câmara dos Deputados, o presidente pediu ao Procurador Geral da Nação que suspenda o líder guerrilheiro do exercício do cargo.

“Parece-me que este vídeo prova que o pseudônimo Jesús Santrich é de um mafioso, como temos dito por alguns dias […] Como pode um país aceitar a posse de alguém que tenha uma acusação com testemunhos tão claros de participação no tráfico de drogas? Isso, no mínimo, garante uma suspensão por parte da Procuradoria Geral da Nação e, obviamente, o que esperamos é que o sistema judiciário funcione e adote uma sanção proporcional, exemplar e eficaz para o crime de narcotráfico”, disse Duque durante sua visita à Argentina.

Em sentido estrito, Duque quer anular a decisão da Comissão de Credenciamento da Câmara dos Deputados que endossou a posse de Santrich. Três dos cinco congressistas que compõem a Comissão aceitaram os documentos e deram sinal verde para sua posse como congressista pelo Partido Fuerza Alternativa Revolucionaria do Común (FARC).

Com relação ao processo judicial do líder guerrilheiro, a Procuradoria tem sido fundamental, pois foi a única instituição que tornou controversa a decisão da Jurisdição Especial pela Paz (JEP), que concedeu a liberdade ao líder guerrilheiro. A Procuradoria também solicitou à Suprema Corte a reconquista do pseudônimo Santrich, considerando que — ao contrário da tese adotada pela JEP, que indicou na sua decisão que os vídeos e provas fornecidos pela Procuradoria Geral não eram conclusivos — há provas sólidas que o incriminam por tráfico de drogas.

Se Santrich for capturado novamente, o partido FARC perde a cadeira, já que a figura da cadeira vazia entra em vigor. Cabe lembrar que o líder guerrilheiro chega ao Congresso para ocupar a cadeira que até a última segunda-feira ocupava outro dos líderes das FARC, Benedicto González, porque pensava-se que Santrich não tomaria posse por ter sido capturado.

“Na verdade, respeitando as instituições, também espero que desde que a Procuradoria Geral estava pedindo à Suprema Corte que o prendesse, também com as mesmas provas, a Procuradoria Geral o impedisse de assumir o cargo”, disse o presidente colombiano.

Marlon Marín é a principal testemunha que incrimina Santrich

Embora a JEP tenha dito que não havia provas conclusivas sobre o negócio de narcotráfico que Santrich estava gerindo, a captura de Marlon Marín, sobrinho do número dois das FARC, Iván Márquez, foi fundamental para destravar o jó jurídico contra o líder guerrilheiro, agora um “respeitável congressista”. Marín tornou-se uma testemunha protegida das autoridades norte-americanas.

Nos Estados Unidos, Marín declarou que Santrich foi seu principal cúmplice em uma operação para enviar dez toneladas de drogas para aquele país.

Nessa diligência, Marín assegurou que Santrich se reuniu com os supostos emissários do Cartel de Sinaloa para negociar o envio de cocaína. Ele confirmou, além disso, que a primeira abordagem com os supostos narcotraficantes, que na verdade eram agentes secretos, foi em agosto de 2017 e que a proposta comercial consistia em comprar a droga para levá-la à América Central e depois para países como Inglaterra e Canadá.

Além disso, ele assegurou que nas conversas que foram gravadas pelo Ministério Público, eles sempre usaram palavras-chave como “televisões” ou “hectares de milho” para se referir à droga. Somado a isso, Marín informou que a Santrich recebeu a soma de US$ 6.800 (22 milhões de COP) por um carregamento inicial de cinco quilos de cocaína e supostamente o pagamento foi feito em espécie dentro de um shopping center.

Reações

A posse da Santrich como parlamentar, apesar de ter sido solicitada sua extradição por tráfico de drogas nos Estados Unidos, suscitou fortes críticas. Muitos associam o caso do líder guerrilheiro com o do traficante Pablo Escobar. O capo colombiano também pisou nas instalações do Congresso para ser eleito deputado em 1982, mas durou apenas um ano como congressista, já que foi comprovada sua responsabilidade em negócios ilegais.

Rafael Guarín, Alto Assessor Presidencial em Segurança Nacional, comparou a chegada do líder guerrilheiro com o cado de Escobar na década de 80. Ou seja, depois de três décadas está se repetindo um evento quase semelhante. Em sua opinião, as instituições ficam deslegitimadas com a presença de mafiosos.

Essa percepção também foi expressa por alguns usuários do Twitter, que manifestaram sua irritação com a posse da Santrich.

Tal tem sido a indignação dos colombianos que em redes sociais como o Twitter, tornaram viral a hashtag #SantrichNARCOngresista e #SantrichVerguenzaMundial, demostrando que a chegada de Santrich ao Congresso é um golpe à democracia e à credibilidade das instituições judiciais colombianas, especialmente para a JEP.

Este artigo foi originalmente publicado em PanAm Post

 
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