Suicídio de engenheiro retrata pressão sentida pela classe média na China

Uma postagem de blog escrita pela esposa de um engenheiro chinês que recentemente saltou para a morte chamou a atenção para a intensa pressão e estresse enfrentados pela classe média na China.

Ou Jianxin, de 42 anos, um homem casado com duas crianças, era engenheiro da ZTEICT Technology Co., um provedor de serviços de tecnologia da informação e comunicação (TIC) controlado pela empresa-mãe ZTE Group. Em 10 de dezembro, ele saltou para a morte de um prédio em seu local de trabalho no distrito de Nanshan, na cidade de Shenzhen, de acordo com uma reportagem de 15 de dezembro do popular portal de notícias chinês Sina.

De acordo com uma postagem de blog online publicada em 14 de dezembro, aparentemente escrita por sua viúva, a sra. Ding, Ou Jianxin decidiu tirar a própria vida após ser forçado a demitir-se devido à reestruturação interna da empresa e às lutas internas entre funcionários. Em 1º de dezembro, o supervisor de Ou Jianxin, de sobrenome Wang, tentou convencê-lo a se demitir voluntariamente do emprego.

Dias depois, o departamento de recursos humanos da empresa ofereceu um pacote de indenização, que ele recusou. No dia 7 de dezembro, numa conversa com um diretor departamental chamado Guo, Ou Jianxin ofereceu que ele renunciaria se pudesse vender suas ações da empresa por 4 yuanes (US$ 0,6) por ação, que era o valor das ações da empresa em 2016. Guo rejeitou a sugestão de Ou Jianxin e disse que ele só poderia vender por 2 yuanes por ação. Quando Ou Jianxin recusou a contraproposta, Guo ameaçou Ou Jianxin dizendo que ele enfrentaria as consequências.

Leia também:
• Regime chinês promove Nova Ordem Mundial baseada no ‘Modelo da China’
• China publica novas regras para apertar ainda mais empresas privadas

De acordo com o post online, Ou Jianxin era um bom marido, com um filho de 9 anos e uma menina de 2 anos, que vieram de um vilarejo na província chinesa de Hunan. Ele graduou-se na Universidade Beihang da China antes de obter um mestrado na Universidade Nankai, uma instituição pública na cidade de Tianjin.

Ou Jianxin trabalhou durante oito anos para a Huawei Technologies, uma empresa de equipamentos e serviços de telecomunicações, antes de se mudar para a ZTEICT em 2011, onde posteriormente assinou um contrato de trabalho pelo período de 18 de abril de 2011 até 18 de agosto de 2019. Segundo o blog, Ou Jianxin era um trabalhador diligente que frequentemente trabalhava horas extras e às vezes inclusive levava tarefas inacabadas para casa.

Sem Ou Jianxin, sua viúva disse que a família perdeu a única fonte de renda, que os permitia viver em relativa prosperidade como parte da classe média. Na sociedade chinesa, o chefe de uma família também é responsável por cuidar de seus pais e dos sogros, como um ato de piedade filial, o que aumentava os encargos financeiros e as preocupações de Ou Jianxin.

Uma indústria em dificuldade

Os problemas trabalhistas de Ou Jianxin eram provavelmente um sinal dos problemas financeiros enfrentados por seus empregadores, os maiores fabricantes de telefones celulares da China, a Huawei e a ZTE.

De acordo com a Xinhua, uma mídia estatal porta-voz do regime chinês, por causa de ganhos ruins, a ZTE começou a demitir empregados em 2012, quando mais de 10 mil pessoas foram dispensadas, totalizando 15% da força de trabalho da empresa. Muitos também tiveram de sofrer cortes salariais. Em janeiro de 2017, a ZTE anunciou outra onda de demissões, afetando mais 3 mil funcionários, sendo 600 dos departamentos de telefonia móvel da empresa.

Em março de 2017, a ZTE foi julgada culpada de violar os embargos dos EUA, comprando componentes de tecnologia dos EUA, incorporando-os aos produtos da ZTE e depois os vendendo para o Irã e a Coreia do Norte, de acordo com a Reuters. A ZTE teve de pagar US$ 900 milhões para resolver o caso.

Leia também:
• Novo relatório do FMI revela dimensão do problema da dívida da China
• As rachaduras na economia da China

Funcionários da Huawei, que atualmente compete com a Apple e a Samsung em termos de participação no mercado mundial de smartphones, também estavam sob pressão para deixar a empresa, de acordo com uma reportagem do Sina de 6 de março de 2017. A matéria do Sina, citando o próprio fórum interno de discussão online da Huawei, disse que os empregados seniores com mais de 34 anos eram alvo da política de demissão da empresa. Os programadores com mais de 40 anos também eram alvo, enquanto a Huawei planejava reduzir custos ao substituí-los por trabalhadores mais jovens que receberiam um salário mais baixo.

“Todos estávamos pensando sobre o que deveríamos fazer em seguida, pois percebemos que a Huawei não garante a segurança do nosso emprego no longo prazo”, disse um engenheiro anônimo de 36 anos da Huawei, segundo o Sina.

A Huawei não gera tantos lucros como sua concorrente Apple, embora tenha vendido um número recorde de 139 milhões de smartphones em 2016. De acordo com um relatório de novembro de 2016 da Strategy Analytics, uma empresa de pesquisa de mercado sediada em Boston, no terceiro trimestre de 2016, a Apple capturou 91% da participação nos lucros operacionais do mercado global, de um total mundial de US$ 9 bilhões em lucros com smartphones. A Huawei ganhou apenas 2,4% da fatia.

Aumento dos custos de propriedade

O custo de uma casa (mais provavelmente um apartamento) é geralmente um estresse financeiro enfrentado pela classe média na China, embora não seja claro que papel os altos custos da propriedade tenham desempenhado no suicídio de Ou Jianxin.

O fosso entre a renda pessoal e os preços da habitação tem crescido cada vez mais. De acordo com o Trading Economics, um website de estatísticas macroeconômicas com sede em Nova York, os salários na China aumentaram de uma média de 29.229 yuanes (cerca de US$ 4.440) em 2008 para 67.569 yuanes (cerca de US$ 10.270) em 2016, um aumento de cerca de 231%. Enquanto isso, o mercado imobiliário tem estado em ascensão consistente. De acordo com os números do Departamento Nacional de Estatísticas da China, os preços da habitação residencial em média mais que dobraram entre 2006 e 2015, de 3.119 yuanes (cerca de US$ 470) por metro quadrado para 6.473 yuanes (cerca de US$ 980). Em Pequim e Xangai, os preços da habitação residencial mais que triplicaram no mesmo período, atingindo mais de 20 mil yuanes (US$ 3.040) por metro quadrado em 2015.

Os altos preços levaram muitos chineses a obterem empréstimos. De acordo com o Diário da Manhã do Sul da China, a dívida doméstica total da China aumentou de 5,6 trilhões de yuanes (cerca de US$ 846 bilhões) em agosto de 2008 para 31,1 trilhões de yuanes (cerca de US$ 4,7 trilhões) em setembro de 2016, um aumento de 455%.

 
Matérias Relacionadas