Sobrevivendo às chuvas no Rio

Vista aérea de uma casa em risco depois dos deslizamentos de terra na localidade de Poço Fundo, perto de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, Brasil, em 18 de janeiro. (Vanderlei Almeida/AFP/Getty Images)RIO DE JANEIRO – Quando ouvimos sobre as fortes chuvas e inundações que severamente castigaram as serras do Rio em 11 de janeiro, imediatamente tentamos ligar para Tainá, mas o telefone estava fora de alcance. Nós ficamos cada vez mais ansiosos. Minha irmã, Tainá, e seu marido, Angel Urrutia, ambos diretores de cinema, estavam visitando Nova Friburgo, uma das áreas afetadas, com sua filha de dois meses de idade, Mila.

Finalmente nosso telefone tocou, era minha irmã. Eles estavam a salvo! Chorando, Tainá nos contou tudo que havia passado.

No meio da noite, eles foram acordados sacudidos por fortes ventos e chuva pesada intermitente. A chuva caia tão forte que soava como granito, disse Angel a sua esposa.

Na manhã seguinte, enquanto Tainá alimentava sua filha, Angel entrou com os braços cheios de coisas e disse: “Olhe pela janela.” Quando Taina olhou, ela não podia acreditar no que via. Todas as encostas desabaram, e as casas ao redor deles foram destruídas, somente o lugar onde estavam permanecia intacto.

O interior, verde no dia anterior, agora estava completamente marrom. Angel já havia estado fora da casa ajudando a socorrer os pertences da governanta, sua modesta casa havia sido destruída pela catástrofe.

Rodeados por entulho, água e lama, era muito arriscado se aventurar do lado de fora, então, eles decidiram ficar no último pedaço de terra sólida. Eles escreveram em letras grades “SOS” com um lençol branco, mas os helicópteros sobrevoando não os notaram. Eles passaram uma noite sem dormir com medo da chuva que cai.

Na manhã seguinte eles mudaram de ideia e decidiram que ficar era mais arriscado que sair. Angel amarrou Mila ao corpo de Tainá, e então eles deixaram tudo para trás e começaram a andar.

Com um grupo de outros sobreviventes, eles caminharam oito quilômetros e três horas na chuva, subindo e descendo lama escorregadia, em risco constante de colapso da encosta.

“Foi uma cena apocalíptica, pessoas saindo dos escombros, chorando e segurando um ao outro, tomando decisões em grupo e lutando arduamente, limpando, preparando comida, abrindo estradas e caminhos, e ajudando uns aos outros.”

Era algo como o “Ensaio sobre a cegueira”, disse Tainá, referindo-se a José Saramago, o romance do escritor português, em que a humanidade fica cega e experimenta o caos total.

“Mesmo os bombeiros nos deram informações erradas. Se tivéssemos seguido o caminho que nos disseram teríamos de andar 20 km”, disse Tainá.

“Há estudos alertando sobre o risco de tragédias como essa na região”, disse Angel, referindo-se as previsões feitas pelos institutos de meteorologia e estudos dos governos federal e estadual e da Petrobras.

“Mas os bombeiros não tinham estratégias e estavam desorganizados”, disse Tainá.

Chegando finalmente à vila de Mury, tomaram um táxi até Japuíba para encontrar o carro que haviam deixado lá no início da viagem. Eles foram recebidos por uma família que lhes ofereceu segurança, e um lugar para lavar e cuidar do bebê. Esta família tinha perdido um filho e duas netas, todos soterrados nos deslizamentos de terra. E os relâmpagos e mais chuva deixavam todos ainda mais assustados.

MILAGRE: Tainá, Angel Urrutia e a bebê Mila, em casa, no Rio de Janeiro, depois de sobreviver a seu calvário no deslizamento de terra no Rio. (Bruno Menezes/The Epoch Times)Retorno seguro

Poucas horas depois, eu ouvi uma voz chamando do lado de fora da minha casa, eram eles! Tainá, com um lenço de lã na cabeça e os sapatos ainda cobertos de lama, havia retornado ao Rio com sua família. Em meio ao esgotamento, o riso de Mila fez o milagre de sua sobrevivência ainda mais comovente.

Com dois meses de idade, a bebê já tinha feito história, a primeira viagem de sua vida foi uma aventura incrível.

A chuva só aumentou de manhã cedo; o volume que caia era enorme. Os deslizamentos de terra aconteceram rapidamente. Muitos morreram durante o sono, disse Tainá.

“E pensar que dois dias antes nós estávamos tomando banho na piscina, tomando banho de cachoeira, era um dia ensolarado. Agora tudo está em ruínas”, disse ela.

“Ficamos sem energia elétrica e telefone, e percebi o quanto tudo isso realmente não é essencial para a existência. Hoje, as pessoas estão tão acostumadas, dependentes dessas coisas”, disse Angel, acrescentando que ao abandonar todos seus pertences teve de praticar o desapego. “Foi uma experiência muito interessante, porque eu percebi ainda mais que as coisas materiais não são nada diante do valor da própria vida.”

Famílias que perderam tudo ainda estão chorando pela morte de familiares e amigos.

A catástrofe no Rio de Janeiro já é considerada o pior desastre natural na história do Brasil, com mais de 700 mortes e 13 mil pessoas deslocadas ou sem casas, segundo a Defesa Civil brasileira.

A Presidente Dilma Rousseff e o Governador Sergio Cabral do Rio declararam três e sete dias de luto oficial respectivamente.

 
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