Snowden, vazamento por fantasia ideológica

A cidade de Hong Kong, onde Edward Snowden, o ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança dos EUA, teria estado até recentemente (Philippe Lopez/AFP/Getty Images)

Edward Snowden, o ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança dos EUA, disse recentemente ao The Guardian que agiu porque: “Eu não posso, em sã consciência permitir que o governo dos EUA destrua a privacidade, a liberdade na internet e as liberdades fundamentais das pessoas ao redor do mundo com esta máquina de vigilância em massa que eles estão construindo secretamente.” Ele acrescentou: “Eu entendo que sofrerei por minhas ações.”

Há alguns norte-americanos que são idealistas e consideram criticar o capitalismo como a missão de suas vidas. A maioria dessas pessoas é de esquerda ou são jovens pró-esquerda. Eu participo de uma lista de e-mail de esquerda e leio suas opiniões regularmente. Os comentários de Snowden sobre o governo dos EUA destruir as liberdades básicas e sua desconfiança nos EUA são atitudes ordinárias recorrentes.

Outra coisa que me fez sentir desconfortável sobre Snowden é ele ter dito que escolheu Hong Kong para ser o lugar onde vazaria a informação e deu entrevistas porque Hong Kong tem “espírito de compromisso pela liberdade de expressão e pelo direito de dissidência política”.

Snowden disse que tinha uma “predisposição para buscar asilo num país com valores compartilhados”. Ele também acredita que Hong Kong é um dos poucos lugares no planeta que pode se levantar contra o poder dos EUA.

Tais declarações bem preparadas são suspeitas.

Hong Kong

Primeiro, Snowden alegou ter escolhido Hong Kong para se esconder por causa de seu sistema legal sólido. Isto é pouco convincente. Desde a transferência para a República Popular da China em 1997, os residentes de Hong Kong têm perdido gradualmente a liberdade de que gozavam durante o governo britânico. Lutar pela liberdade se tornou parte da vida do povo de Hong Kong.

Uma única razão pode explicar por que Snowden escolheu Hong Kong: Porque é controlada pela China. De acordo com um artigo do Guardian de 11 de junho, Snowden deixou o hotel em que estava por um “lugar seguro”. Quem forneceu tal local é fundamental para a verdade sobre o caso Snowden.

Segundo, Snowden claramente sabia o resultado de suas ações e, no entanto, a publicação de sua identidade como delator e suas acusações contra os EUA ocorreram no momento mais sensível: a noite seguinte ao encontro entre o presidente Obama e o líder chinês Xi Jinping ter terminado (ou seja, na manhã de 9 de junho, horário de Hong Kong).

Logo após Obama e Xi Jinping discutirem os ataques de hackers realizados pela China, Snowden ganhou publicidade denunciando a vigilância telefônica e da internet dos EUA. A mensagem era clara: a democracia e os direitos humanos dos EUA são hipócritas. A administração Obama foi arrastada para um lamaçal de argumentos políticos.

Muitos internautas chineses chegaram à conclusão de que “todos os corvos sob o sol são negros”, o que implica que todos os governos são igualmente ruins. Mas como as discussões na internet chinesa estão sob estrita vigilância e uma questão básica dificilmente pode ser discutida: Os alvos da fiscalização são diferentes nos dois países.

Enquanto os EUA monitoram pela necessidade de conter o terrorismo e manter a segurança pública, o regime chinês monitora para manter seu regime.

Terceiro, a alegação de Snowden de que ele queria pedir asilo na Islândia é difícil de engolir. Com um passaporte norte-americano, se Snowden realmente quisesse voar para a Islândia em busca de asilo, ele poderia ter chegado lá dias atrás logo após deixar o Havaí. Na realidade, ele ficou em Hong Kong por quase 20 dias e não fez qualquer arranjo para ir à Islândia.

Ele permaneceu em Hong Kong, porque esperava a oportunidade para revelar sua identidade como o responsável pelo vazamento logo após a reunião Obama-Xi Jinping. Ao fazer isso, tornou se extremamente difícil sua entrada na Islândia.

A verdadeira motivação de Snowden ainda está para ser revelada.

Esquerdistas e a China

Por que esquerdistas norte-americanos entusiasticamente abraçam a China? Num bate-papo na web em 17 de junho organizado pelo jornal The Guardian, Snowden negou ter tido qualquer contato com o governo chinês.

Após ler vários artigos no Guardian, eu acredito que a decisão de Snowden foi motivada por sua orientação política. Como Snowden disse ao Guardian, ele não confia no sistema político norte-americano (ele votou num terceiro partido na eleição presidencial de 2008). Ao mesmo tempo, eu aposto que ele nutre fantasias ideológicas pela China socialista.

Esquerdistas ocidentais têm uma longa história de abraçar países comunistas. Esquerdistas como John Reed (“Dez dias que abalaram o mundo”), Edgar Snow (“Estrela vermelha sobre a China”), William Hinton (“Fanshen: Um documentário da revolução numa vila chinesa”) e Sidney Rittenberg atualmente compartilham algo em comum. Ao abraçarem países “socialistas”, eles estão realmente abraçando suas próprias ilusões sobre a ideologia comunista. Eles ignoram os verdadeiros abusos dos direitos humanos que as pessoas nesses países têm sofrido.

Desde a morte de Mao Tsé-tung, a China transitou do esquerdismo ocidental para que o capitalismo. Quando investidores ocidentais vão à China em busca de negócios, suas atitudes em relação à China são ditadas pelo lucro.

Mas eles não admitem qualquer amor pelo sistema político comunista. Em vez disso, eles diplomaticamente apresentam-se como tentando orientar a China em direção à democracia por meio de impulsionar seu desenvolvimento econômico.

A julgar por minhas experiências pessoais com esquerdistas, acredito que a maioria deles está extremamente decepcionada e agonizante agora. Sua crença os faz abominar o capitalismo ocidental e concordar com os poderes e países que pretendem adotar o socialismo, principalmente a China, pois eles não acreditam que a Coreia do Norte seja um país socialista.

Mas a realidade é que, na China pós-reforma-econômica, muito poucos nas arenas política e acadêmica têm qualquer interesse em esquerdistas ocidentais.

Snowden, com sua experiência em manusear materiais ultrassecretos e sua atitude anti-EUA, poderia facilmente se tornar um alvo de “caçadores de talentos” para uma determinada profissão especial. Já que todo mundo tem fraquezas, os caçadores de talentos podem se aproveitar das crenças de alguém, do desejo por dinheiro, emoções, hobbies ou mesmo a necessidade de atenção.

Entre o final do século 19 e os primeiros 40 anos do século 20, a onda esquerdista inundou o mundo. O renomado estadista francês Georges Clemenceau comentou uma vez sobre a juventude da época: “Se um homem não é um socialista em sua juventude, ele não tem coração. Se ele não é um conservador em seus 30 anos, ele não tem cérebro.” Curiosamente, a grande decisão de Snowden ocorreu quando ele tem 29.

He Qinglian é uma proeminente autora chinesa e economista que atualmente vive nos Estados Unidos. Ela é autora de “China’s Pitfalls”, que trata da corrupção na reforma econômica da China da década de 1990, e “The Fog of Censorship: Media Control in China”, que aborda a manipulação e restrição da imprensa. Ela escreve regularmente sobre questões sociais e econômicas da China contemporânea.

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