Situação econômica da China é grave e vai piorar, entenda por quê

O maior problema da China não é o mercado de ações, mas sim o excesso de capacidade de produção, a elevada inadimplência e a gigante dívida pública.

Recessão

Dados macroeconômicos da China dos últimos dois anos mostraram desaceleração do crescimento econômico. Embora as taxas divulgadas do PIB para os dois primeiros trimestres de 2015 tenham sido de 7%, os indicadores de consumo elétrico, do transporte de mercadorias, das empresas e do comércio, entre outros, dão claros indícios de que a economia está deslizando para a recessão.

Por que recessão? Porque depois de anos de rápido crescimento, os problemas estruturais acumulados na economia não podem mais ser ignorados. Problemas manifestados no nível macro, como a desaceleração do crescimento, e outros no nível micro, estão produzindo um ambiente que dificulta as empresas operarem.

Como tudo isso aconteceu? Como sair dessa situação? A razão para a desaceleração foi superestimar a estabilidade econômica. Se, durante a crise financeira internacional de 2008, fosse aproveitada a oportunidade para realizar ajustes estruturais na economia e na indústria, não existiriam os problemas de hoje. Ao invés disso foi lançado um plano de estímulo de cerca de US$ 600 bilhões (4 trilhões de yuanes), assim evitou-se artificialmente a recessão, mas se perdeu uma excelente oportunidade para fazer mudanças.

Os ajustes necessários hoje são muito mais difíceis do que em 2008. O estímulo de US$ 600 bilhões em 2009 agravou ainda mais o desequilíbrio na estrutura econômica chinesa. Muitas indústrias experimentam excesso de capacidade de produção desde aquela época, além disso, a tecnologia foi ficando ultrapassada. Muitos produtos não puderam ser vendidos pela baixa demanda do mercado e, com o passar do tempo, acabaram sendo substituído por novos produtos, o que gerou prejuízos.

O massivo estímulo governamental daquele período ajudou a manter tecnologias e produtos desatualizados e sustentou empresas sem competitividade. Ao invés de retificar a estrutura doente e eliminar excessos, o regime chinês exacerbou o problema, permitindo que a capacidade de produção defasada se expandisse.

Siderúrgicas quebradas

Não faz muito tempo, eu visitei uma siderúrgica privada. Eles me disseram que a capacidade de produção de aço do país gira em torno de 1,1 a 1,2 bilhão de toneladas, enquanto o consumo é de apenas 600 a 700 milhões de toneladas. Em outras palavras, a produção de aço na China tem de 30% a 40% de excesso de capacidade. O preço do aço não se estabilizará até que o problema do excesso de capacidade seja resolvido.

As siderúrgicas estão vendendo aço a preços baixos e, como resultado, ninguém lucra. Algumas siderúrgicas dependem de aportes do governo, se não fosse isso, elas já teriam fechado há muito tempo. Inclusive, manter indústrias defasadas afeta aquelas que têm operações de alta eficiência, mas sofrem com os preços baixos.

A indústria do aço é um exemplo da condição atual do setor manufatureiro chinês. O regime está cobrindo antigas bolhas com novas bolhas e o resultado são bolhas maiores. Há bolhas no mercado de capitais, entretanto, a maioria das bolhas está na economia real na forma de excesso de capacidade de produção.

Maus empréstimos

O excesso de capacidade de produção numa economia de mercado gera elevado número de empréstimos no setor bancário. Se os bancos não tivessem dado tantos empréstimos, não existiriam os problemas atuais. A economia precisa se livrar desse excesso de empréstimos podres e o setor financeiro precisa desalavancar.

Os empréstimos cedidos aos investidores “A-share” são considerados problemáticos, entretanto, são somente um pequeno problema em comparação com a dívida acumulada pelo setor financeiro e os governos locais. O valor dos empréstimos das ações “A-Share” é de cerca de US$ 486 bilhões (3 trilhões de yuanes). Os empréstimos do setor financeiro são de cerca de US$ 13 trilhões (80 trilhões de yuanes). A taxa de inadimplência chega a 10%, sendo estimada em US$ 1,13 trilhões (8 trilhões de yuanes). A dívida do governo é estimada em US$ 3,24 trilhões (20 trilhões de yuanes). Tudo isso é um grande problema para a China.

Esse monstro “A-share” foi criado pelo governo. Quando os riscos gradualmente vieram à tona, o governo interveio e esmagou a margem de negociação. Depois da quebra da bolsa, o governo novamente interveio para socorrer o mercado.

Apesar da considerável repercussão no mercado, as ações “A-share” são apenas um pequeno problema na economia chinesa. Os grandes problemas são a dívida pública, os maus empréstimos no setor bancário e o excesso da capacidade de produção.

Quão sério é o excesso de capacidade de produção? Cada indústria é diferente. Diz-se que o excesso de capacidade na indústria do cimento é superior a 60%. Esse número mostra que o processo de recuperação pode ser bem demorado. O mundo deve se preparar.

Falências

Muitas siderúrgicas de pequeno e médio porte estão falidas e esse se torna um bom momento para aquisições. Entretanto, a intervenção dos governos locais bloqueia as aquisições e impede que as empresas quebrem, pois serão perdidos impostos e aumentará o desemprego.

Na economia como na natureza existe o processo de: nascimento, envelhecimento, doença e morte, são leis naturais. Se é hora de uma empresa “morrer”, deve-se deixá-la morrer, caso contrário, aquelas que devem prosperar, que necessitam de recursos, terão dificuldades para crescer. Empresas que caminham para a falência tentam manter o fluxo de caixa estável, para conseguir isso elas baixam os preços de seus produtos para queimar o estoque, o que desprime os preços do mercado, e assim colocam as empresas saudáveis numa situação ruim para lucrarem ou até sobreviverem.

Devido à intervenção governamental, empresas saudáveis não se atrevem a fazer aquisições quando não há margem para reestruturação. Como isso poderia funcionar? Ao se comprar uma nova empresa, deve-se cortar despesas redundantes. Entretanto, governos locais proíbem as demissões e, consequentemente, prejudicam a reconstrução do setor industrial. Na China, se não fosse por obstrução dos governos locais, haveria muitas oportunidades para fusões e aquisições.

Através de fusões e aquisições, negócios bem administrados podem melhorar sua fatia de mercado, gerir preços mais eficientemente, crescer sua margem de lucro e alcançar condições de operação satisfatórias, o que beneficiaria de forma sustentável toda a economia.

Esta é uma tradução resumida de uma palestra do professor Xu Xiaonian, datada de 26 de julho de 2015. Ele é professor de economia e finanças na Escola Internacional de Negócios China-Europa em Shanghai.

 
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