Será o fim do romance entre as montadoras globais e a China?

Enquanto as montadoras globais mostram suas últimas criações no Salão do Automóvel em Xangai, iniciado em 22 de abril, elas se veem cada vez mais numa posição de desvantagem no maior mercado de automóveis do mundo, o chinês.

Em Xangai, a General Motors levará seu emblemático Cadillac sedan CT6 e a Volkswagen AG apresentará o novo luxuoso e esportivo Audi Q7. Mas por trás dessa pompa, as montadoras estrangeiras que operam na China estão se preparando para uma enxurrada de problemas: declínio no crescimento das vendas, regulamentos punitivos, forte concorrência das montadoras nativas e o florescimento de um mercado-negro que ameaça seus canais de distribuição.

As vendas de automóveis na China aumentaram 3,9% no primeiro trimestre, decepcionante em relação ao aumento de 9,2% registrado no primeiro trimestre de 2014, de acordo com estatísticas oficiais. A queda de 20% nas entregas de veículos comerciais, devido ao flácido crescimento industrial e ventos macroeconômicos negativos, foram os grandes culpados.

As vendas de veículos de passageiros aumentaram 9% no primeiro trimestre de 2014, em grande parte impulsionadas pelas montadoras nacionais da China, que deram um salto de 21% na venda de veículos. O crescimento das marcas estrangeiras praticamente estagnou, um lúgubre 1%.

Menores metas de vendas

Em 2015, quase todas as montadoras estrangeiras reduziram suas metas de crescimento em relação a 2014.

A governo chinês informou que haverá um crescimento econômico de 1,3% no primeiro trimestre de 2015, o mais baixo em duas décadas numa base anualizada. As estimativas independentes foram ainda piores. Com sede no Reino Unido, a Lombard Street Research disse que houve um declínio de 2,1% no PIB do primeiro trimestre. Tanto os ventos contrários à econômica como a campanha anticorrupção do líder regime Xi Jinping, em curso, são prejudiciais ao crescimento às vendas de automóveis.

Na semana passada, a BMW reduziu sua previsão de produção para o segundo trimestre bem como sua meta de vendas na China, de acordo com memorandos de suas concessionárias obtidas pelo Wall Street Journal. A empresa não divulgou o valor da redução, mas em sua última previsão pública, lançada em março, a BMW espera vendas de um único dígito em 2015, muito mais baixas dos 17% de crescimento de ano passado na China.

Volkswagen informou vendas de 2% no 1º trimestre, mas fechou o trimestre com uma decepcionante queda de 0,6% em março. A Audi, sua marca de luxo, viu um aumento de vendas de 7,1% no trimestre. Ambos os resultados foram significativamente menores que em 2014, quando a Volkswagen e Audi informaram crescimentos de 14% e 21%, respectivamente, no primeiro trimestre.

Um  veículo utilitário desportivo Audi em uma concessionária de automóveis em Xangai, em 06 de agosto de 2014.
Um veículo utilitário desportivo Audi em uma concessionária de automóveis em Xangai, em 06 de agosto de 2014 (Johannes Eisele / AFP / Getty Images)

A Toyota Motor, a maior montadora do mundo, informou que suas vendas na China caíram 21% em março, enquanto o declínio global das vendas no trimestre foi de 0,1%. Para 2015, a Toyota mantém a previsão de vendas de 1,1 milhões de veículos na China, um aumento de 6,8% em relação ao 1,03 milhão de veículos vendidos no ano passado.

Mercado-negro sancionado pelo regime chinês

A partir deste mês, as montadoras estrangeiras também serão prejudicadas pelo mercado-negro de importações na China.

Os preços dos automóveis chineses são definidos pelos fabricantes para suas redes de concessionárias; promoções ou descontos em geral devem estar dentro de uma faixa aprovada pelo fabricante.

O preço para certos veículos, especialmente os topo de linha, são muito mais elevados na China do que nos Estados Unidos ou na Europa. Por exemplo, um sedan Lexus GS, que é vendido por cerca de 52.000 dólares nos Estados Unidos, na China, é vendido por 89.000 dólares.

Isso tem criado oportunidades de preços diferenciados. Importações não autorizadas de carros de luxo, ou “importações paralelas” de acordo com o jargão do setor, subiram nos últimos meses na China, assim, ameaçando a rentabilidade das montadoras estrangeiras e seus revendedores na China. As montadoras desencorajam oficialmente essa tática comercial por meio de afirmar que os carros importados não têm garantia de funcionamento com a gasolina chinesa ou de ser compatível com as peças produzidas localmente.

Apelos a Pequim seriam infrutíferos, porque o próprio regime criou esse mercado paralelo. Em um projeto-piloto, que começou oficialmente no início de abril, os órgãos reguladores chineses permitiram aos revendedores locais, por meio da criação de uma nova zona de livre comércio em Xangai, importar carros diretamente do exterior, sem anuência dos fabricantes estrangeiros.

O carros provenientes de importações paralelas são geralmente vendidos com 15% de desconto em relação às concessionárias oficiais e, além disso, as montadoras estrangeiras não têm controle sobre o inventário e os preços.

China lançou esse programa teste como parte de uma mais ampla “campanha anti-monopólio do governo chinês para melhorar a organização do mercado e derrubar os preços de carros importados”, disse um funcionário do Ministério do Comércio à Reuters. A campanha “anti-monopólio” é realmente um equívoco, pois há dezenas de montadoras que vendem carros na China, tornando o monopólio impossível. O preço é realmente orientados pelo mercado e há um diferencial nos preços dos carros de marcas estrangeiros com relação aos de marcas nativas devido à qualidade, à confiabilidade e ao renome. E existe demanda para tal política de preços. O problema é que as montadoras chinesas, até à data, têm sido incapazes de competir nessa linha.

Por enquanto, as importações paralelas estão limitadas a marcas de luxo, por causa das margens de lucro superiores. Mas se o programa for lançado nacionalmente, todas as montadoras estrangeiras na China vão sofrer duramente.

Batalha crescente

Há tempos, os líderes chineses admiram muito o design, a tecnologia e o processo de fabricação das montadoras americanas e europeias. Para criar sua própria base de fabricação de automóveis, o governo chinês estabeleceu que toda montadora estrangeira que deseja produzir carros na China deve formar uma joint-venture com uma empresa local, com participação nos lucros, e mais importante ainda, transferir sua tecnologia para a China.

Em 1984, a American Motors (atual Chrysler) formou a primeira joint-venture, Beijing Jeep Corporation, para vender seus veículos na China. No mesmo ano, a Volkswagen firmou uma joint-venture com a SAIC Motor, chamada de Shanghai Volkswagen. Jeep e Volkswagen tornaram-se os primeiros carros de marca estrangeira produzidos e vendidos localmente na China.

Décadas mais tarde, a China se tornou o mercado mais importante para as montadoras globais, no entanto, as forçadas parcerias estrangeira-doméstica produziram pouca inovação para próprias montadoras chinesas.

A China é o maior mercado para a BMW Group, representou 22% do total das entregas do grupo em 2014. Para a marca Daimler AG’s Mercedes-Benz, a China representa o segundo maior mercado, somente atrás dos Estados Unidos. Para a General Motors, suas vendas de 3,5 milhões de veículos na China representam aproximadamente 35% do total das entregas da empresa em 2014.

Testemunhando o sucesso das montadoras estrangeiras e o relativo fracasso de suas montadoras nativas, Pequim há muito tempo desejava mudar essa situação. E quando os subsídios do governo e as transferências de tecnologia não são suficientes para nivelar o campo de disputa entre as montadoras nacionais e estrangeiras, os órgãos reguladores chineses recorreram a multas.

Em setembro de 2014, montadoras estrangeiras foram multadas várias vezes como resultado de sindicâncias “anti-monopólio”. A Audi foi multado em 40,5 milhões de dólares e a Chrysler em 5,2 milhões de dólares. Os fabricantes de automóveis foram multados por aconselharem seus concessionários a estabeleceram um preço mínimo de venda para seus veículos.

Punições “anti-monopólio” semelhantes foram feitas contra outras empresas estrangeiras de tecnologia que operam na China. O exemplo mais recente é da Qualcomm, multada em 975 milhões de dólares em fevereiro. 57% das empresas estrangeiras pesquisadas consideram que o governo chinês está tratando as empresas estrangeiras de forma injusta, de acordo com o relatório anual de 2015 da Câmara Americana de Comércio. A maioria das empresas alvos pertenciam ao ramo da “pesquisa e desenvolvimento”, tais como tecnologia, produtos farmacêuticos, aeroespacial e automotiva, onde as empresas estrangeiras dominam determinado setor, mas sem muita concorrência chinesa. Será isso o fim da história de amor entre as montadoras globais e a China?

Competição local

Depois de décadas de tratamento preferencial e transferência de tecnologia para montadoras nacionais, as empresas de automóveis chineses parecem ter finalmente conseguido um nicho no mercado local.

As vendas de veículos utilitários desportivos (SUVs), na China, saltou para 64% em comparação com apenas 3,3% para todos os outros tipos de carros no mesmo período. A maioria dos SUVs foram vendidos por marcas nativas como a Great Wall Motor, Changan e Geely (com maior sucesso).

“Porque as montadoras locais não podem realmente competir em sedans, nos últimos anos, elas realmente se dedicaram  a lançar mais SUVs”, disse Yale Zhang, diretor da Automotive Foresight em Xangai, à Reuters em 17 de abril.

Eles também parecem menos imune à turbulência política em curso na China. Longe de serem símbolo de status e luxo, as marcas nacionais crescem em meio à uma competição de preços com as marcas estrangeiras. O Haval SUV H2, da Great Wall Motor, começa com modelos na faixa de US$ 16.000, cerca de metade do preço de partida da CR-V da Honda Motor. Os chineses têm também sido mais ágil no atendimento a mudança de prioridade da classe média, que preferem utilidade, eficiência de combustível e preços mais baixo. Dados de prospecção da Automotive Foresight mostram que as marcas nativas da China lançaram 18 modelos SUV durante 2014 em comparação com 11 lançados de montadoras estrangeiras.

O resultado? As marcas nacionais chinesas, reunidas, aumentaram sua participação de mercado para 43% no 1º trimestre, acima dos 39% do ano passado. No novo nível da economia da China, o barato e modesto, muitas vezes, supera o caro e ostensivo.

Tudo isso é um sinal de que 2015 poderá ser um ano encrespado para as montadoras estrangeiras.

 
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