Publicado em - Atualizado em 15/03/2017 às 16:51

O segredo por trás do mercado de ouro da China

Especialistas estimam a posse total de 19.500 toneladas métricas

Vendedoras chinesas caminham ao longo de um corredor pavimentado com barras de ouro numa casa de negociação de ouro em Kunming, China, em 11 de dezembro de 2012 (STR/AFP/Getty Images)

Vendedoras chinesas caminham ao longo de um corredor pavimentado com barras de ouro numa casa de negociação de ouro em Kunming, China, em 11 de dezembro de 2012 (STR/AFP/Getty Images)

O mundo está cheio de regras de ouro. Há uma para cada campo – ética, comunicação, moda. Mas há apenas uma que conta: a regra de ouro do dinheiro, “Quem tem o ouro faz as regras.”

A China, ao que parece, quer fazer as regras no sistema monetário internacional, razão pela qual tem adquirido grandes quantidades de ouro por meio de canais privados e oficiais.

Devido à natureza obscura do mercado de ouro chinês e à relutância dos oficiais chineses em mostrar sua mão, ninguém foi capaz de calcular com precisão a quantidade de ouro que os chineses adquiriram desde 2000, quando começaram a acumulá-lo.

Eis que surge Koos Jansen, um analista do grande negociante de ouro cingapurense BullionStar. Ele tem estudado o mercado de ouro chinês há anos e recentemente revelou uma estimativa do total de ouro acumulado pela China: 19.500 toneladas métricas, ou 21.495 toneladas estadunidenses, no final de janeiro de 2017.

“Eles têm promovido a propriedade do ouro como uma forma de reserva de valor desde pelo menos 2002, mas especialmente quando introduziram o conceito de ‘reter ouro com o povo’ em 2004”, disse Jansen.

Tesouro privado

De acordo com as estimativas de Jansen, o total de participações privadas, incluindo indivíduos e empresas, é de 15.500 toneladas métricas. As reservas oficiais do Banco Popular da China (PBOC) são cerca de 4 mil toneladas métricas.

Isso tornaria os chineses o segundo maior detentor de ouro depois da Índia, onde os cidadãos são estimados detendo 20 mil toneladas métricas de ouro em joias e outras formas. As participações do setor privado nos Estados Unidos são desconhecidas, mas o Tesouro americano ainda mantém 8.134 toneladas em reservas oficiais.

Mas onde a China conseguiu todo esse ouro, quando no ano de 2000 ela tinha um total de apenas cerca de 4 mil toneladas?

A primeira peça do quebra-cabeça é a mineração doméstica.

“Na década de 1970, quando a China precisava de reserva de câmbio, foi quando começou sua indústria de mineração. Eles teriam então começado a exploração, e as pessoas foram incentivadas a extrair ouro. É por isso que existem tantas minas de ouro na China.” Jansen sugere o número de cerca de 600 minas.

Essas 600 minas produziram 490 toneladas de ouro em 2015, tornando a China o maior produtor, à frente da Austrália, que produziu 300 toneladas.

Vendendo para um buraco negro

A próxima peça do quebra-cabeça é as importações de outros países. De acordo com as estimativas de Jansen, a China importou cerca de 1.300 toneladas de ouro em 2016, principalmente por meio de Hong Kong, mas também diretamente da Suíça e do Reino Unido.

Aqui, Jansen aponta uma peculiaridade em relação à compra asiática: “A demanda asiática é forte quando o preço cai. A demanda ocidental é forte quando o preço sobe. Em abril de 2013, o preço do ouro desabou e um monte de ouro foi exportado do Ocidente para a China, principalmente do Reino Unido.”

Quando o ouro entra na China, ele é vendido por meio da Bolsa de Ouro de Shanghai (SGE), que também lida com fragmentos e a mineração doméstica.

Curiosamente, assinala Jansen, nada dessa oferta vai para o banco central, mas sim para os consumidores e empresas.

“No mercado interno, há leis e incentivos para canalizar o suprimento por meio da SGE. Fragmentos, produção doméstica, importações, todos passam primeiramente pela SGE. As retiradas da SGE são praticamente iguais ao total da demanda privada de ouro.”

A demanda privada vem de indivíduos que querem diversificar seus ativos, investidores institucionais como fundos de pensão e empresas de joias para revenda posterior, entre outros.

“Empresas e indivíduos compram ouro pela mesma razão: Afastar-se do renminbi [a moeda chinesa], diversificar [investimentos], proteger-se, etc.”, disse ele.

Quanto ao banco central, Jansen diz que suas compras não aparecem nas estatísticas oficiais de importação e são mantidas em segredo.

“O exército chinês tem inclusive uma divisão especial, que eu o chamo de exército do ouro. Inicialmente, este exército do ouro também surgiu na década de 1970 para a exploração, e pode estar ativo ainda. Eles podem pegar [ouro] diretamente no Reino Unido”, disse ele. O banco central também usa bancos comerciais que compram na Suíça ou na África do Sul e secretamente enviam o ouro para a China.

Por exemplo, o total de reservas de ouro da Associação do Mercado de Bulhão de Londres (LBMA) encolheu 2.750 toneladas entre 2011 e 2015, mas as exportações líquidas foram de apenas mil toneladas. Assim, 1.750 toneladas aparentemente desapareceram e provavelmente acabaram nas reservas oficiais chinesas.

De acordo com os contatos de Jansen em bancos chineses, as participações oficiais giram em torno de 4 mil toneladas, ao invés do número publicado de 1.842 toneladas.

Para que a China precisa desse ouro? “Eles compram ouro oficial para internacionalizar o renminbi. Se houver reservas de ouro suficientes para lhe lastrear, eles podem torná-lo uma moeda de reserva mundial credível.” Quem tem o ouro faz as regras.

É também por isso que a China não permite que sequer um grama de ouro e prata saia de suas fronteiras uma vez que tenham entrado. Como disse Jansen, “O Ocidente vem vendendo ouro para um buraco negro.”

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