Saúde, consciência e responsabilidade

A saúde depende de consciência e responsabilidade

Em geral, nós não entendemos os problemas – sejam eles doenças, conflitos sociais, desequilíbrios ambientais e outros – porque não observamos com calma, atenção e profundidade os fatores germinais que os originam.

Nossa tendência é querermos nos livrar o mais rápido possível das dores, dos conflitos e do desconforto. Não paramos para nos questionar e estabelecer as relações entre os problemas e suas possíveis causas, e, assim, os resolvemos de forma paliativa e superficial. O resultado é que eles vão se acumulando para o nosso futuro: possivelmente surgirão novamente em algum momento, algumas vezes parecendo situações novas.

As dores, as doenças e os problemas são o resultado concreto de nossas tendências desequilibradas, que, devido à nossa falta de atenção, provocam males a nós mesmos. Quando apenas anestesiamos nossas dores, suprimimos nossas doenças ou passamos por cima dos problemas, deixamos de encontrar, conhecer e resolver nossos desequilíbrios e deficiências reais, e assim não aprendemos, não evoluímos e não melhoramos as coisas. Ao invés disso, continuamos a agir desatentamente, provocando danos sobre danos, tornando os problemas cada vez mais ininteligíveis, complexos e difíceis de resolver.

Essa falta de atenção e de consciência reflexiva provém de estados desequilibrados e nocivos que dirigem a nossa mente e as nossas ações, como o medo, a ansiedade, a ira, o ressentimento, a rigidez, a impaciência, o desalento, a autopiedade. Todos esses estados, de um modo ou de outro, impedem o nosso contato real com os problemas, a sua investigação sincera e a sua compreensão e resolução correta.

Na verdade, todos eles são os próprios elementos germinais que originam nossos conflitos, doenças e sofrimentos, mas nós não percebemos isso e nos eximimos de nossa responsabilidade pelo que nos acontece. Por exemplo, quando estamos doentes ou temos alguma dor importante ou estamos num conflito interpessoal, nossa reação imediata é a de sanarmos o distúrbio o mais rápido possível para pararmos de sofrer, sem entendermos suas causas reais e nem refletirmos se ele é o resultado de nossas ações ou comportamentos. Praticamente todos pensam e agem assim. Isso pressupõe que a doença, o conflito ou o que nos ocorre é externo a nós, que ele não tem nenhuma relação com nossos comportamentos e ações, e se deve a uma fatalidade, a uma circunstância aleatória.

Porém, esse é o erro fundamental que nos impede de nos conhecermos, de pararmos de errar, de nos curarmos e de resolvermos fundamentalmente os problemas.

“Conhece-te a ti mesmo” [1]

Na esfera pessoal, especialmente no âmbito da saúde, precisamos saber que cada pensamento, sentimento ou emoção que temos emite imediatamente ondas de energia, mensagens bioquímicas e impulsos nervosos, que alteram instantaneamente as nossas funções fisiológicas e até as nossas estruturas orgânicas.

Mais importante ainda: os padrões de comportamento que temos – que estão baseados em nossos conceitos, crenças e paradigmas cristalizados: sobre o nosso eu, sobre os outros e sobre a vida -, criam padrões específicos e contínuos de influência sobre nossos órgãos e todo o nosso organismo. É por isso que certas pessoas têm gastrite crônica, enquanto outras têm bronquite crônica e ainda outras têm tensão muscular crônica nos ombros; umas têm pressão baixa e outras, alta. Cada uma teve experiências particulares, sentiu coisas particulares e desenvolveu reações, ideias, sentimentos e emoções que formaram conceitos e crenças pessoais, gerando reações específicas que deram forma ao seu comportarmento no mundo (ansioso, auto-piedoso, ressentido, rebelde, temeroso, astuto, rígido, pretencioso, severo), condicionando, assim, preferencialmente, alguns órgãos e estruturas orgânicas ao invés de outras.

É por isso que a homeopatia, a terapia floral, a medicina tradicional chinesa e todas as outras ciências que possuem uma abordagem profunda e integral dos seres humanos dão importância crucial a fatores como o temperamento, as tendências emocionais e psíquicas, às idiossincrasias e outros fatores. Estas ciências sabem da relação entre a mente, os distúrbios funcionais e as fraquezas orgânicas, e também da prevalência dos estados da mente no surgimento das doenças. Por isso, tratam do indivíduo e não da doença.

Nós somos bastante conscientes de que quando uma criança tem dores de barriga antes de ir à escola ou quando um adulto sofre igualmente antes de se expor diante de uma plateia, isso se deve a certas expectativas e tensões emocionais. Percebemos também que a pessoa que desmaia depois de uma notícia impactante, sofreu de um mal emocional. Ou quando o médico diz “Você precisa ter uma vida mais relaxada e se estressar menos com o trabalho, porque isso está afetando a sua pressão”, entendemos claramente que nossas tensões emocionais e psíquicas estão afetando o nosso organismo.

Do que não temos consciência ainda é que todos os distúrbios de saúde têm essa mesma origem: do mais simples distúrbio à mais severa doença, quase sempre a origem está em nossa mente e em nossos comportamentos e tendências.

A hereditariedade conta? Sim, e, às vezes, muito. Mas, em geral, a mente do indivíduo prevalece inclusive sobre a hereditariedade, o que gera duas possibilidades: se suas experiências, influências fundamentais e reações são positivas e otimistas, até possíveis doenças hereditárias graves nunca se manifestarão ou terão pouco efeito sobre a pessoa; mas, se suas experiências, influências fundamentais e reações foram muito negativas e pessimistas, suas predisposições hereditárias ruins terão maior facilidade de se manifestar.

A doença é sempre o resultado das tendências e padrões psicológicos do indivíduo.

Da mesma forma, não importa se os problemas são de ordem macroscópica: tudo também é resultado de nossas ações coletivas. Quando a peste negra se abateu sobre o mundo, o homem foi o responsável – mesmo que a pulga encontrada nos ratos tenha sido o vetor que transmitiu a doença – pois foram as condições insalubres, como a falta de higiene e de saneamento básico que promoveram a transmissão e a disseminação da doença. Da mesma forma ocorreu com a epidemia de sífilis que corroeu a Europa no final do século 15. É evidente que coisas como a promiscuidade e falta de noções de higiene íntima foram as causas básicas. Igualmente o Cólera, a Gripe Espanhola e outras – apesar de sempre terem seus vetores específicos – ocorreram em momentos de grande desordem ou conflitos sociais, onde era evidente a falta de responsabilidade e de consciência correta das pessoas.

O que quer que desejemos fazer, quaisquer que sejam nossas expectativas e intenções, se não nos tornarmos responsáveis, atentos e reflexivamente conscientes, perpetuaremos o caos e as dores e seremos vítimas de nossas próprias ações.

Mas, uma vez que surge a responsabilidade e o desejo de compreender, as rédeas da vida vêm para nossas mãos e poderemos encontrar, conscientemente, as soluções fundamentais para os problemas. Se não fugirmos da dor, não mascararmos os problemas, e deixarmos de agir inconscientemente, teremos um novo mundo pela frente.

[1] Máxima escrita no Templo de Apólo, em Delfos, na Grécia antiga.

Alberto Fiaschitello é terapeuta naturalista e cientista social

 
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