Saiba mais sobre a Artemisia: A erva do ano de 2014

Uma das divindades mais célebres do antigo panteão grego era Artemis, a deusa que fielmente guardava a floresta, o parto, e as mulheres.

Artemis nunca se casou, mas as Moiras (três irmãs que determinavam o destino dos Deuses e dos humanos) a transformaram uma parteira. Quíron, um centauro que possuía grande habilidade com a medicina, nomeou uma erva muito amarga em sua honra: a Artemisia.

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Existem mais de 300 espécies diferentes de Artemisia encontradas em todo o mundo. A Herb Internacional Association (Associação Internacional de Ervas) escolheu este gênero como sendo a erva do ano de 2014.

Amargura

As Artemisias são conhecidas por sua forte amargura. Embora não possamos considerer o amargo muito saboroso, ele pode desempenhar um papel importante na purificação do corpo.

Para equilibrar os sabores salgado e doce, as tradições culinárias antigas utilizavam frequentemente alimentos amargos. Um gosto amargo pode estimular a digestão, desencadeando a vesícula biliar a produzir mais bile, o que facilita a quebra de gorduras. Por esta razão, bebidas como o café (um dos poucos alimentos amargos abraçado pelo mundo moderno) ou um licor digestivo, são frequentemente servidas ao final de uma refeição pesada.

Losna

O amargo mais poderoso da Artemisia é a losna, também conhecida como absinto (Artemisia Absinthium). Escritos antigos, desde a Bíblia até Shakespeare, usam a losna como referência para descrever um coração frio ou tempos difíceis.

A losna madura parece um arbusto prateado. Quando desabrocha produz pequenas flores amarelas perfumadas.

A losna ajuda a livrar o corpo de parasitas (vermes e outras criaturas pequenas intrusivas), e assim como outras ervas amargas, também serve como um auxiliar digestivo. De acordo com o antigo medico romano Dioscorides, a losna protege contra os efeitos nocivos de intoxicação e envenenamento, incluindo cicuta, cogumelos, e mordidas do dragão do mar.

Ervas amargas também podem ser utilizadas para tratar desequilíbrio emocional, tais como pânico, ansiedade e depressão. Herbalistas usam a losna para resolver o mais extremo destes casos.

Em “O Livro da Sabedoria Herbal”, o fitoterapeuta Matthew Wood descreve a losna como um remédio para aqueles que sofreram em situações duras e desumanas.

“Ela é particularmente adequada para os pacientes que têm uma falta de afeto, um amortecimento em sua personalidade, sofreram circunstâncias brutais, e têm o potencial de serem [eles próprios] brutais”, escreve ele.

A losna funciona melhor em doses muito pequenas, e o sabor intensamente amargo geralmente garante que as pessoas não bebam muito. No entanto, ao ser misturado com açúcar e destilado em álcool, torna-se muito mais atraente.

A losna é o ingrediente-chave do absinto – o licor verde escuro usado e abusado pelos famosos escritores e artistas europeus no início do século 20.

O absinto foi originalmente fabricado como um preventivo da malária para os soldados, mas sua popularidade logo se espalhou por todo o continente, até que foi proibido no início de 1900.

A evidência sugere que os efeitos alucinógenos do absinto foram muito exagerados, mas a reputação persiste. A proibição do absinto tem sido levantada nas últimas décadas, mas os órgãos reguladores dos EUA proíbem rótulos contendo informações tais como “efeitos alucinógenos, psicotrópicos ou que alteram a mente”.

Artemisia Comum

A artemísia beneficia muito o nosso organismo, incluindo os sistemas digestivo, hormonal, nervoso e circulatório (*Shutterstock)
A artemísia beneficia muito o nosso organismo, incluindo os sistemas digestivo, hormonal, nervoso e circulatório (*Shutterstock)

A Artemisia Comum (Artemisia vulgaris) tem pequenas flores perfumadas exatamente como a losna, mas suas folhas profundamente lobadas têm uma cor verde escuro na frente e prateada atrás. Frequentemente cresce como selvagem entre outras ervas daninhas.

Esta planta é provavelmente mais conhecida como artemísia e vem sendo utilizada como um medicamento e um elemento divino para proteger contra os maus espíritos. Em seu 1931, no seu livro Modern Herbal (Bíblia das Ervas), a fitoterapeuta britânica Maude Grieve disse que o nome da erva em inglês (Mugwort) vem de sua reputação anti-parasita.

“Também tem sido sugerido que o nome mugwort pode não ter sido derivado de “mug “, ou seja xícara, mas de moughte (moth ou maggot – mariposa ou larva), pois desde os dias de Dioscorides, a planta tem sido considerada, assim como a Artemísia, útil para conter os ataques destes animais”, escreveu Grieve

Herbalistas modernos ainda mantêm a artemísia como uma erva de grande valor. Em um post em seu blog, a fitoterapeuta e autora Susun Weed observa que, se a artemísia é encontrada crescendo perto de uma casa ou tem sua pintura na porta, muitas vezes, significa que “a casa é de um fitoterapeuta ou de uma parteira, e é uma casa vigiada por Artemis”.

Weed chama esta planta de “cronewort”, porque é tudo o que uma mulher idosa quer. “Eu consolo os que choram; eu trago vida para aqueles que estão deprimidos. Eu removo a irritabilidade e facilito o movimento das articulações sobrecarregadas. Eu trago paz e sono, descanso e tranquilidade “, escreveu ela.

A erva é uma das favoritas de longa data para as mulheres de todas as idades, devido, em grande parte, à sua afinidade com o útero, aliviando cólicas menstruais e sangramento intenso.

A artemísia pode ser usada por homens e mulheres. Weed diz que beneficia muitos sistemas: urinário, digestivo, nervoso, hormonal e circulatório.

Os médicos chineses antigos descobriram que a queima de um pacote firmemente consolidado de artemísia sobre determinados pontos de acupuntura pode dirigir energia fria para fora do corpo. Acupunturistas ainda usam esta técnica chamada moxabustão para aquecer as articulações rígidas, aliviar cólicas menstruais, e virar um feto dentro do útero.

Estragão

Mais doce do que amargo, o estragão faz um ótimo condimento para molhos de tomate ou cremes (*Shutterstock)
Mais doce do que amargo, o estragão faz um ótimo condimento para molhos de tomate ou cremes (*Shutterstock)

Na outra extremidade do espectro está o estragão. A forma mais branda das Artemisias, cujo nome botânico de Estragão (dracunculus) significa “pequeno dragão”.

O estragão é muito mais delicado do que as artemisas medicinais. Mais doce do que amargo, o sabor do estragão serve bem para as aplicações culinárias, tais como aromatizantes de molhos de tomate ou de cremes.

Em geral, as artemisias são conhecidas por sua qualidade aromática devido a altas concentrações de óleos essenciais, e com o seu perfume único de alcaçuz-anis, o estragão é uma das quatro principais ervas da cozinha francesa.

Doce Artemisia

Um produto químico extraído da erva doce artemisia, chamado artemisinina, é usado para produzir uma droga anti-malária eficaz (Wikimedia Commons)
Um produto químico extraído da erva doce artemisia, chamado artemisinina, é usado para produzir uma droga anti-malária eficaz (Wikimedia Commons)

A doce artemisia (Artemisia annua) é a Artemisia que chamou mais a atenção da medicina moderna. Um produto químico extraído de doce artemisia chamado artemisinina é usado para produzir uma droga anti-malária eficaz. Às vezes chamada artemísia chinesa, tem sido pesquisada mais do que qualquer outra erva chinesa.

Artemisia: Fatos e Origens

• Artemisias pertencem ao grupo da família Asteraceae, que inclui girassóis, gérberas e margaridas.
• Muitas Artemisias crescem selvagens e são frequentemente encontradas em lugares remotos em todo o mundo. No entanto, algumas variedades são cultivadas em jardins ornamentais, tais como Silver King (Artemisia ludoviciana) e Dusty Miller (Artemisia stelleriana) – com um toque distinto de prata.
• Artemisias são abundantes em óleos, incluindo cânfora e tujona. Estes óleos servem como repelentes de pragas naturais, e  proporcionam às plantas um aroma refrescante.
• A Artemisia comum colocada sob o travesseiro é boa para atrair bons sonhos.

* Imagem de “wormwood” via Shutterstock
 
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