Resista à tentação de oferecer refrigerantes e sucos prontos às crianças

Existem bons estudos científicos que mostram que beber refrigerantes com açúcar aumenta o risco de obesidade? A resposta pode variar dependendo de quem está financiando o estudo.

“Vocês podem ficar pasmos (como eu também fiquei), mas os pesquisadores reexaminaram recentemente 18 grandes pesquisas sobre o tema e 6 delas haviam recebido recursos da indústria. Dentre os patrocinadores dos estudos estavam Coca-Cola, PepsiCo, a American Beverage Association, dentre outros. As outras 12 pesquisas alegaram ausência de conflitos de interesse. A análise final com todos esses resultados foi publicada na edição de dezembro da PLoS Medicine”, informa o pediatra Moises Chencinski (CRM-SP 36.349).

Dentre os estudos analisados, no grupo dos sem conflitos de interesse (é claro), 10 dos 12, ou seja, 83,3% informaram que as bebidas açucaradas estão diretamente associadas com o ganho de peso e com a obesidade. As conclusões dos estudos apoiados pela indústria foram uma imagem de espelho: 5 dos 6, ou seja,  os mesmos 83,3% relataram que não havia provas suficientes para tirar essa conclusão.

“Não só o suporte financeiro da indústria é suficiente para descartar todos os resultados dos estudos relativos às pesquisas em Nutrição, como o público em geral e a comunidade científica devem estar cientes de que a indústria alimentícia tem interesses próprios que podem influenciar a conclusão dessas pesquisas”, defende o médico.

Olha a onda doce…

Nos últimos 20 anos, uma onda líquida inundou as gôndolas dos supermercados com repercussão sobre as despensas e geladeiras das residências em todo o mundo.  “Incorporamos à nossa dieta calorias extras, provenientes de sucos de frutas, bebidas de soja, chás e refrigerantes. São centenas de produtos líquidos com rótulos pouco elucidativos, escritos em letra miúda, com ingredientes difíceis de serem compreendidos até pelos profissionais da área de Nutrição”, alerta Chencinski.

Expostas a essa carga de líquidos de sabor doce, pessoas de todas as idades passaram a mudar seus hábitos, incorporando calorias, açúcares e adoçantes, em volumes jamais pensados. Como resultado, sobrepeso e obesidade passaram a constar entre os maiores problemas de Saúde Pública em todo o mundo.

“Há muito tempo venho falando sobre esse assunto, venho batendo na mesma tecla, pois na minha área de atuação a obesidade infantil tem se tornado um desafio nos consultórios do mundo inteiro. Precisamos ser mais criativos tanto na prevenção quanto no tratamento dos pequenos pacientes obesos. Como diz Petter Attia, estamos perdendo esta guerra e penalizando os pacientes”, diz o pediatra.

Nesse contexto, a excessiva ingestão de alimentos líquidos industrializados e de sabor doce passou a figurar entre as principais causas de obesidade em todo o mundo, principalmente entre crianças e adolescentes, que agora se hidratam essencialmente por meio destas bebidas, abandonando definitivamente a água.

No ano passado, no Havaí, uma iniciativa popular que contou com a participação ativa da comunidade, principalmente dos adolescentes, chamou a atenção da primeira dama Michelle Obama e do mundo. A campanha Repense a sua bebida, que teve como objetivo combater o consumo das bebidas açucaradas como refrigerantes, bebidas esportivas e “falsos sucos” apresentou resultados reais junto ao seu público-alvo (adolescentes), após o seu período de veiculação (entre fevereiro e maio de 2013): mais da metade dos entrevistados disseram ter notado os anúncios e 54% dos estudantes que tinham visto os anúncios disseram que beberam menos bebidas açucaradas em função da campanha.

Para assistir aos filmes da campanha publicitária criada pelos jovens havaianos, acesse:

http://www.youtube.com/watch?v=WMmp872C4as

http://www.youtube.com/watch?v=c9n3Z-RgB8Q

Calor, hidratação, resistindo às tentações…

E por incrível que pareça, quanto mais calor, menos gente se lembra de oferecer água para as crianças. Parece uma ideia fixa: “Tá com calor? Toma um suquinho…”.  É a cultura de achar que o suco é sempre uma opção saudável. “E é mesmo, mas apenas quando é fresco e natural, nada de caixinha, não de polpa e nada de refrescos. E esqueça o apelo emocional do ‘suco que se parece com a frutinha também’…”, recomenda Moises Chencinski.

Dados da Academia Americana de Pediatria (AAP) mostram os riscos desse hábito já há algum tempo, tanto que a orientação é de não se oferecer sucos para crianças abaixo de 12 meses, porque eles não oferecem nenhum benefício nutricional.

“Há uma recomendação de preferir as frutas inteiras ao suco entre 6 meses e  um ano pelas vantagens para a saúde (fibras e outros nutrientes) e de se abster da oferta de sucos nessa faixa etária. Sugere-se a oferta de 120 a 180 ml (em média) ao dia de suco entre 1 e 6 anos de idade e 250 ml (em média) ao dia a partir do 7 anos”, diz o médico.

Há um consenso da AAP sobre a não necessidade da oferta de sucos para bebês abaixo de um ano de idade, dando-se preferência à instituição do hábito da água e ao estímulo ao consumo de frutas inteiras.

“Quer passar bem esse verão e os demais? Beba água, ou seja, dê o exemplo, e ofereça água para o seu filho”, sugere o médico.

 
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