Publicado em - Atualizado em 15/12/2016 às 13:05

Reportagem investigativa: Um hospital construído para matar – Parte 2

O fígado é um órgão útil para calcular quantas execuções podem ter sido realizadas para a efetivação dos transplantes, pois requer a morte do doador

O Primeiro Hospital Central de Tianjin parece ter transplantado muito mais órgãos do que relatou, sem fornecimento conhecido. Os pesquisadores dizem que os órgãos provavelmente vieram de prisioneiros de consciência definhando nos campos de trabalho da China (Rob Counts / Epoch Times)

O Primeiro Hospital Central de Tianjin parece ter transplantado muito mais órgãos do que relatou, sem fornecimento conhecido. Os pesquisadores dizem que os órgãos provavelmente vieram de prisioneiros de consciência definhando nos campos de trabalho da China (Rob Counts / Epoch Times)

Dezenas de milhares de pessoas podem ter sido mortas para que o Primeiro Hospital Central de Tianjin, na China, fosse capaz de transplantar órgãos de forma lucrativa

O problema com números

É extremamente difícil obter uma margem precisa sobre o número real de transplantes de órgãos realizado ao longo dos anos na China, tanto em unidades de apoio, quanto em um único hospital. Em uma sociedade fechada, este tipo de informação é altamente sensível em termos políticos.

A China nem sequer tinha um sistema nacional de transplantes de órgãos até recentemente. O que havia era, na verdade, um ringue de hospitais competindo pelo negócio, fazendo acordos com corretores de órgãos  e colocando as mãos sobre o fornecimento humano de órgãos, da forma que podiam. Integridade estatística, ou qualquer tipo de estatística fiável​, era praticamente inexistente e o menor de todos os problemas.

Nos Estados Unidos, descobrir o número de transplantes de órgãos de determinado local é bastante simples. O Organ Procurement and Transplantation Network, afiliado ao U.S. Department of Health and Human Services, mantém um banco de dados que pode ser consultado através de dezenas de critérios. O número total de transplantes realizados nos Estados Unidos, de janeiro a setembro de 2015, por exemplo, foi de 23.134.

Outros bancos de dados hospitalares fornecem informações específicas. O Scientific Registry of Transplant Recipients é confiável ao emitir um relatório com informações detalhadas em qualquer centro de transplante. O mais ativo no estado de Nova York, por exemplo, é o NY Presbyterian Hospital/Columbia Univ. Medical Center. Um relatório com dados de abril de 2015 mostra que 110 transplantes de fígado foram realizados em 2013 e 142 em 2014. O relatório de 60 páginas fornece uma abundância de informações sobre a lista de espera, os tipos de doadores, as taxas de transplantes, e muito mais.

Não há nada parecido que esteja disponível em hospitais chineses, por uma razão crucial: estes dados são um segredo de estado.

Dr. Huang Jiefu, um oficial chinês que faz a conexão com o resto do mundo sobre a política de transplante de órgãos chinesa, foi notavelmente franco, em uma rara entrevista realizada por jornalistas chineses, sobre o porquê dos números serem tão difíceis de definir. A entrevista foi parte de uma intensa corrida de publicidade para fazer com que Huang expusesse a mensagem (depois desmentida) de que a China não estava mais usando órgãos de prisioneiros executados.

Huang Jiefu, em uma conferência em Taipei, Taiwan, em 2010. Estudantes da Universidade de Hong Kong criticaram a universidade por conceder um diploma honorário a Huang Jiefu, ex-vice-ministro chinês da saúde, por seu envolvimento na coleta de órgãos na China (Bi-Long Song / Epoch Times)

Huang Jiefu, em uma conferência em Taipei, Taiwan, em 2010. Estudantes da Universidade de Hong Kong criticaram a universidade por conceder um diploma honorário a Huang Jiefu, ex-vice-ministro chinês da saúde, por seu envolvimento na coleta de órgãos na China (Bi-Long Song / Epoch Times)

“A pena de morte é um segredo de estado”, disse Huang. “Os órgãos originavam-se de prisioneiros executados. Se você souber o número de transplantes realizados, você, então, terá tido acesso a um segredo de estado. ”

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O repórter pressionou mais  e Huang respondeu novamente: “O assunto que você está abordando é muito sensível. É por isso que eu não posso dizer-lhe abertamente o que se passa. Se você pensar sobre isso, você vai entender. Porque o país não tem transparência, você não sabe como os órgãos foram obtidos; o número de transplantes realizados também era um segredo. ”

Mas os números parecem surgir  inevitavelmente dos orifícios da tremenda máquina de publicidade do Partido Comunista Chinês.

No caso do Primeiro Hospital Central de Tianjin, existem várias formas de serem obtidos. Devido ao fato do procedimento apresentar uma certa monotonia ao ser abordado, serão considerados um de cada vez.

O Gráfico Oficial

O primeiro ponto de dados é simplesmente um gráfico de uma página já extinta que ficou arquivada. Ele é pertencente ao Centro de Transplantes de Órgãos Oriente e mostra os transplantes de fígado feitos entre 1998 e 2004. Os números anuais crescem gradualmente: 9, 24, 78, 129, 272, 289 e 800. Esses números, no entanto, são desmentidos pelos dados oficiais em outras fontes.

A mesma página anuncia um tempo de espera de duas semanas para um transplante de fígado, algo inexistente em países com sistemas de doação voluntária.

O fígado é um órgão útil para calcular quantas execuções podem ter sido realizadas para a efetivação dos transplantes, pois este é um órgão vital, e o transplante completo de um fígado requer a morte do doador. Devido ao fato das execuções ocorridas na China terem sido, tradicionalmente, a única fonte de transplante de órgãos – não sabemos se isto mudou; esta é uma outra incógnita – a questão dos números torna-se significativa.

O problema com o gráfico é que ele pára em 2004.

Gráfico do site do Centro de Transplante de Órgãos de Oriente, a ala de transplante do Primeiro Hospital Central de Tianjin (Centro de Transplante de Órgãos de Oriente)

Gráfico do site do Centro de Transplante de Órgãos de Oriente, a ala de transplante do Primeiro Hospital Central de Tianjin (Centro de Transplante de Órgãos de Oriente)

 

O Pastiche

Outro método é simplesmente a consulta de relatórios de mídia que fornecem os números. Neste caso, a partir de 2000, o número é de 78 transplantes – o mesmo do gráfico oficial. A fonte é uma mera página de um diário de Shen Zhongyang, publicado no Science and Technology Daily, intitulado “He brought liver transplant technique to the pinnacle of world medicine (Ele levou a técnica do transplante de fígado ao ápice da medicina mundial)”. Uma outra fonte, em 2000, expõe um número acumulado de 100 transplantes.

Em 2001, não há nenhuma figura cumulativa, porém o total anual é de 109 transplantes de fígado e de 80 transplantes de rins, as fontes são de relatórios de uma enciclopédia médica chinesa e de um relatório de notícias.

Em 2002, não há nenhuma figura anual, mas o acumulado é de 300, de acordo com um perfil de Shen Zhongyang.

Em 2003, o total acumulado no Tianjin foi de 645 (embora  400 outros transplantes tenham sido realizados pela primeira equipe do Tianjin em outros hospitais ao redor da China, de acordo com um relatório oficial de notícias) e o anual foi de 253.

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Isto aconteceu quando um orçamento para a construção de 17 andares do Centro de Transplantes de Órgãos Oriente foi aprovado, no final de 2013.

Em 2004, nenhum relatório global anual específico foi publicado, mas o total acumulado foi de 1.000, de acordo com um relatório da Rede Médica de Educação, uma grande enciclopédia médica chinesa online.

Em 2005, o total acumulado não foi publicado, mas o total anual foi de 647 (de acordo com um perfil oficial reputável de Shen, publicado em 2014).

Em 2006, 655 transplantes foram registrados, de acordo com um perfil oficial de Shen e um artigo de sua autoria. Nesse documento, ele afirmou que seu centro superou o recorde mundial de transplantes de fígado mantido pela Universidade de Pittsburgh por 10 anos.

E então … silêncio no rádio.

O Centro de Transplantes de Órgãos Oriente de Tianjin foi inaugurado oficialmente em primeiro de setembro de 2006. Ainda não está claro por que os dados anuais minguaram quando se esperava que os números se multiplicassem.

Incidentalmente – ou não –, em março de 2006, começaram a surgir acusações de que praticantes de Falun  Gong presos pelo governo seriam a principal fonte do comércio de órgãos em expansão da China. Funcionários chineses rejeitaram os relatórios como sendo uma propaganda nefasta, embora nunca tenham refutado seriamente o argumento ou a inferência.

Em todas as fontes disponíveis, apenas dois números aparecem pós-2006: o primeiro, em um discurso de Shen Zhongyang para seus companheiros do Departamento de Trabalho da Frente Unida, uma unidade tática política contemporânea à Guerra Civil, e o segundo, a partir de um brilhante perfil de Shen Zhongyang, aclamado pelas autoridades de publicidade em Tianjin.

O Perfil Oficial

O perfil oficial de Shen Zhongyang está publicado no ttwj.gov.cn. O site é gerido pelo Gabinete do Pequeno Grupo de Liderança do Governo Municipal de Tianjin, e serve como porta-voz para a liderança da cidade. “O Comitê do Governo Municipal de Tianjin presta muita atenção no trabalho de recursos humanos”, especialmente na seção chamada Quem Somos no menu do site.

O perfil discute o incrível sucesso de Shen Zhongyang, seu espírito empreendedor ao ajudar na construção da indústria do transplante chinês, e fornece alguns números de transplantes.

Os valores iniciais são praticamente os mesmos que os acima, e embora após 2006 nenhum número preciso tenha sido disponibilizado, o perfil declara que “nos dois   anos seguintes, ele tornou-se o centro de transplante de fígado mais importante em volume, fazendo com que o Centro de Transplantes de Órgãos Oriente de Tianjin se tornasse o maior centro de transplante em larga escala da Ásia.” Ele acrescenta que a partir do final de 2013, o centro tinha realizado a maioria das cirurgias da China por 16 anos consecutivos. Além disso, algumas de suas técnicas encontraram-se entre as “mais avançadas” no mundo.

E, fundamentalmente, ele fornece outro número: um total cumulativo de “cerca de 10.000 transplantes de fígado” até o final de 2014, supostamente um quarto do total nacional.

Em seguida, há um acumulado de 5.000 transplantes de fígado, a partir do final de 2010, que vem de um discurso de Shen Zhongyang publicado no site da Frente Unida.

Graficamente, a série atualmente se parece com isso:

 

Esses números já são altamente perturbadores e extremamente difíceis de encaixar na narrativa oficial de prisioneiros executados como fonte de órgãos.

Ainda não está claro por que os números anuais cessaram após um novo grande centro de transplantes ter sido construído, fato que levanta a questão de até que ponto os números fornecidos poderiam ser confiáveis.

O número real de transplantes, de acordo com outros registros, pode ter sido, de fato, muitíssimo maior.

Existem três indicadores desta probabilidade: histórias sobre um negócio de fornecimento de órgãos em expansão para turistas coreanos; dados significativos sobre transplantes fornecidos por colegas de Shen Zhongyang; e uma análise de informações derivada dos próprios registros de renovação do Primeiro Hospital Central de Tianjin, obtidos de um obscuro banco de dados chinês.

Conexão coreana

Pacientes coreanos começaram a inundar a China em 2002, Tianjin em particular, de acordo com Li Lianjin, enfermeira-chefe do Primeiro Hospital Central de Tianjin – o vôo de Seul para a China dura apenas 90 minutos. O hospital teria transplantado órgãos em mais de 500 pacientes coreanos, entre 2002 e 2006, disse Li.

Li falou ao Phoenix Weekly, uma revista pró-Pequim gerida pela estação de TV de Hong Kong chamada Phoenix. O artigo foi intitulado “Uma investigação de dezenas de milhares de estrangeiros que vêm para a China para transplantes de órgãos “.

Tudo isto aconteceu antes do Centro de Transplantes de Órgãos Oriente iniciar suas atividades on-line em setembro de 2006.

Desta forma, os médicos improvisaram. Um terço do prédio original de 12 andares foi transformado em salas de transplantes de pacientes; o 8º andar de outro hospital (o Hospital Internacional Cardiovascular) foi também usado para os destinatários coreanos; e os andares 24º e 25º de um hotel nas proximidades foram também reservados para aqueles que estavam à espera. Duas enfermeiras foram enviadas para o local. “Mesmo assim, ainda estávamos com falta de leitos,” disse Li.

Primeiro Hospital Central de Tianjin (Epoch Times)

Primeiro Hospital Central de Tianjin (Epoch Times)

Tianjin era um destino atrativo para os turistas coreanos à procura de órgãos, pois normalmente eles só poderiam recebem transplantes parciais de fígado provindos de doadores vivos. Mas, na China, eles poderiam obter fígados inteiros “e os fígados de doadores são de excelente qualidade”, informava o relatório.

Os procedimentos também se aceleraram: os pacientes estrangeiros simplesmente passavam fax de seus registros médicos e, em seguida, voavam para Tianjin. Os tempos de espera eram extremamente curtos para os padrões internacionais. “Originalmente, pacientes têm que esperar uma semana. Mas agora, com a vinda de mais e mais pessoas para a fila do transplante, os tempos de espera são mais longos. O tempo mais longo agora é de pouco mais de três meses “, diz o relatório.

Três meses ainda é um período de tempo de espera extremamente curto para se garantir um fígado.

O Chosun Ilbo, um grande jornal diário da Coreia, informou que o Primeiro Hospital Central de Tianjin realizou 44 transplantes de fígado em apenas uma das semanas de dezembro de 2004; um membro da família de um receptor disse à Phoenix que o hospital realizou 24 transplantes renais e de fígado em um único dia.

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Pacientes de outros países também participaram da compra de órgãos: Japão, Malásia, Egito, Paquistão, Índia, Arábia Saudita, Omã, Hong Kong, Macau e Taiwan. O café da enfermaria do quarto andar tornou-se um “clube internacional”, onde pacientes de diferentes etnias reuniam-se para trocar experiências,  de acordo com Chosun Ilbo.

O relatório inclui esta anedota: “Os cirurgiões do hospital estão todos os dias ocupados, viajando entre enfermarias e salas de cirurgia. Eles não têm tempo nem mesmo para cumprimentar uns aos outros. Todos os dias eles dizem a mesma coisa: ‘Hoje eu estou tão ocupado; tenho feito dez cirurgias por dia’. Alguns médicos passam a noite inteira realizando cirurgias”.

Os números apresentados não estão no relatório, mas pelo menos confirmam que a equipe do Primeiro Hospital Central de Tianjin tinha estado extremamente ocupada no periodo antecedente à conclusão do novo edifício de transplante.

Recursos Humanos

O Centro de Transplantes de Órgãos Oriente tem 110 médicos que participam de transplantes de fígado e rim, entre os quais 46 são cirurgiões-chefes e médicos, e 13 médicos assistentes, de acordo com a Organização Mundial de Investigação sobre a Perseguição ao Falun Gong, uma rede de pesquisadores que realizou a monumental tarefa de catalogar cerca de centenas de  funcionários nos hospitais da China.

Relatos na mídia, discursos feitos por um seleto número de colegas de Shen Zhongyang, bem como informações do próprio site e de outros registros do hospital, indicaram que muitos deles tinham completado um grande número de transplantes por eles mesmos.

Por exemplo, em 2011, o vice-presidente do hospital, Zhu Zhijun, tinha completado, no mínimo, 1.400 transplantes de fígado, 100 dos quais foram doações de fígado parciais de parentes que vivem, segundo seu perfil no site “Nosso Grupo de Médicos“, um diretório para médicos chineses.

Em julho de 2006 Pan Cheng, cirurgião-chefe adjunto, tinha realizado pessoalmente mais de 1.000 transplantes de fígado e 1.600 aquisições de enxerto de fígado.

O cirurgião-chefe, Gao Wei, completou mais de 800 transplantes de fígado, ao longo de dez anos de prática, segundo seu perfil não datado no site “Bons médicos on-line,” outro banco de dados de renomados  médicos chineses.

Da esquerda para a direita: Dr Pan Cheng e o Cirurgião Chefe Gao Wei (WOIPFG)

Da esquerda para a direita: Dr Pan Cheng e o Cirurgião Chefe Gao Wei (WOIPFG)

O cirurgião-chefe adjunto, Song Wenli, do departamento de transplante renal, realizou cerca de 2.000 transplantes de rins, e o cirurgião-chefe adjunto, Mo Chunbo, realizou mais de 1.500, ambos de acordo com perfis sem data no mesmo site.

Algumas dessas cirurgias não resultaram na morte de um doador – centenas de doações, por exemplo, foram feitas através de parentes ainda vivos (supondo-se que fossem de fato de parentes) – mas muitas delas podem sim ter resultado na morte de pessoas.

Se o volume total médio dessas cirurgias de transplantes tivesse simplesmente sido extrapolado  para o resto da equipe – ainda que esta não seja necessariamente uma metodologia de confiança -, a partir de 2014, o volume total de transplantes seria muito maior do que o número oficial de 10.000. No entanto, é evidente que, somente a partir do perfil de  alguns médicos, os números estão começando a se aproximar dos totais anunciados pelo hospital.

Obviamente, os perfis médicos que estão disponíveis podem simplesmente ser discrepantes. Ou podem estar inflando seus registros, ou terem participado de operações conjuntas –  todas são possibilidades distintas. De qualquer forma, ainda que fizessemos drásticos descontos, os números dos próprios cirurgiões parecem ultrapassar, e muito, os dados oficiais.

No entanto, registros acumulados indicam que o volume poderia ser mesmo muito maior do que isso.

Reformando a Central de Transplantes

Devido ao fato do governo municipal ter gasto cerca de US $ 20 milhões (130 milhões de yuans) na construção do Centro de Transplantes de Órgãos Oriente, o senso comum dita que houve intenção em utilizá-lo.

Mas esta é a China. Enormes quantidades de gastos em infra-estrutura  poderiam ser desperdiçadas, e, muitas vezes, usadas para sustentar valores econômicos locais, em vez de criarem negócios produtivos. Assim, o simples fato ter havido a construção e a reforma não significa nada.

Há provas convincentes, entretanto, de que o novo edifício foi colocado em uso imediato e extensivo. Este dado vem dos próprios registros de construção e renovação do hospital, encontrados na Construção e Remodelação do Banco de Dados da China, um recurso público mantido por uma variedade de agências oficialmente filiadas, fornecendo detalhes sobre serviços de construção e reforma em toda a China.

Estes documentos mostram o que parece ter sido deliberadamente escondido em cada uma das fontes disponíveis em chinês: que o Primeiro Hospital Central de Tianjin já operava a todo o vapor após o novo centro de transplantes ter iniciado suas atividades on-line em 2006.

Vista aérea do Primeiro Hospital Central de Tianjin (Epoch Times)

Vista aérea do Primeiro Hospital Central de Tianjin (Epoch Times)

A evidência-chave é um arquivo PDF de 22 páginas, disponível para download depois do usuário se inscrever no site, que discute as reformas posteriores no hospital, concluídas em 2008. O arquivo foi publicado na base de dados em outubro de 2009, e parece ter sido concluído no final de 2008, de acordo com a data indicada em uma fotografia na página 13. Ele foi preparado pelo Instituto de Arquitetura e Design de Tianjin, e seu conteúdo se refere ao período após a construção do Centro de Transplantes de Órgãos Oriente.

A reforma descrita no documento refere-se principalmente ao edifício principal, ao edifício de regime ambulatorial e à enfermaria de emergência (o edifício para transplante é deixado intocado), contando com a adição de isolamento para a fachada, “a fim de economizar energia e aumentar o conforto dos pacientes”. Outro piso seria adicionado ao edifício de regime ambulatorial, reduzindo-o de quatro para três andares.

A informação-chave, porém, é esta: “Há uma média diária de 2.000 serviços ambulatoriais conduzidos por dia; a taxa de utilização de leitos é de 86 por cento; transplantes renais e hepáticos utilizam 90 por cento dos leitos. ”

O número total de leitos dedicados a transplantes no Primeiro Hospital Central de Tianjin, durante o período, foi de 500; no Centro de Transplantes de Órgãos Oriente a contagem total de leitos no hospital consolidou-se em 1226, com 726 inicialmente disponíveis. O espaço total que o Centro Oriente estava construindo era de 46.558 metros quadrados, afirma o documento. Plantas de Tianjin aparecem pela primeira vez no intuito de verificar a repartição de transplantes versus todas as outras atividades.

Assim, de acordo com estes documentos, 450 leitos foram utilizados para transplantes, sejam eles de fígado, rim ou outros órgãos.

De acordo com materiais de publicidade externa de Tianjin para os pacientes, o período total de permanência de um turista de transplante no hospital era de um a dois meses, dependendo do tempo de espera por um órgão, e de quanto tempo levaria para convalescer.

Mas a permanência real poderia, potencialmente, ter sido muito inferior ao período máximo. Por exemplo, as experiências dos turistas de transplantes coletadas por dois pesquisadores canadenses em 2007 evidenciam que o período de estadia era de meros sete dias no hospital. Um médico-chefe adjunto do Hospital Popular da Universidade de Pequim informou que o periodo de hospitalização se resume tipicamente entre duas a três semanas, e uma amostragem de outras fontes do continente chinês evidenciam que a espera, muitas vezes, não passa de apenas duas semanas. É bem provável que com a melhora da técnica de transplantes a estadia no hospital tenha diminuído proporcionalmente.

O tempo médio de permanência estipulado faz uma diferença significativa nas estimativas do total de transplantes que poderiam ter sido realizados. Por exemplo, se uma estadia média dos pacientes foi de 30 dias por transplante, logo 5.400 transplantes por ano podem ter ocorrido no Centro de Transplantes de Órgãos Oriente, desde o final de 2006 até o final de 2008. Se cada estadia tiver sido de duas semanas, logo, o montante poderia ser de 10.800. Se cada estadia tiver sido de dois meses, a quantidade total seria de apenas 2.700.

É impossível saber agora a duração média da estadia no Primeiro Hospital Central de Tianjin, porém cirurgiões de transplante que revisaram este relatório consideraram uma gama de cenários como plausíveis.

Porém, teria o alto nível de utilização sido um mero pico nos dois anos seguintes à abertura do novo centro? Não. De acordo com outros relatórios de reforma, isto logo tornou-se a norma.

O próximo ponto de dados relevante e disponível sobre as taxas de uso de leitos para transplantes no Primeiro Hospital Central de Tianjin se origina a partir de um perfil do hospital no Enorth Netnews, o porta-voz oficial do governo de Tianjin, em 25 de Junho de 2014.

Ele informa que o hospital tinha “feito progressos” em vários departamentos em 2013, e alcançado uma taxa de utilização de leitos de 131,1 por cento, mostrando um aumento de 5,7 por cento a partir de 2012. (O relatório não deixa claro como uma taxa de utilização de mais de 100 por cento é possível, embora seja comum presenciar em hospitais chineses leitos adicionais encaixados entre leitos já estabelecidos).

Até 2013, ele havia acrescentado 300 leitos, elevando o número total para os atuais 1.500 leitos. O hospital também havia ajustado o número de leitos destinados a diferentes departamentos, incluindo o centro de transplante de órgãos, apesar de não especificar quantos leitos foram atribuídos para  cada área.

É difícil saber quantos dos 1.500 leitos totais, ou 500 leitos do Centro de Transplantes de Órgãos Oriente, foram utilizados para os transplantes de órgãos em 2012 e 2013.

Mas há uma consistência nas taxas de utilização relatadas: quase 90 por cento de utilização relatada em 2009, e 130 por cento em 2013.

Se esta taxa decresceu durante quatro anos, antes de se elevar – ou cresceu lentamente, conforme indica a tendência dos números oficiais de transplantes (embora estejam claramente manipulados)-, é impossível dizer, apesar do constante aumento parecer mais intuitivo e internamente consistente.

Ainda outras construções foram realizadas em 2015, em um local recém-inaugurado, incluindo um serviço ambulatorial   com capacidade de atender entre 6.000 a 7.000 pessoas por dia, um centro de emergência com capacidade diária para 1.200 pacientes, um estacionamento subterrâneo de com 2.000 vagas, e um heliporto.

A nova construção, que começou em julho de 2015 e foi programada para ser concluída no final de 2017, terá um total de 2.000 leitos. Não está claro quantos deles serão dedicados a transplantes.

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