Relatórios secretos para a elite do Partido Comunista Chinês encobrem as notícias de Pequim

Essa tradição remonta a 1948, quando o PCC estava prestes a tomar o poder na China continental

Por Frank Yue

O Partido Comunista Chinês (PCC) tem um antigo costume de coletar “referências internas” para altos funcionários, conhecido em chinês como “nei can”. Essas publicações variam de acordo com o grau de confidencialidade e estão disponíveis para diferentes níveis de liderança, desde os escalões superiores do Partido aos governos locais e só podem ser vistas por funcionários do Partido.

Essa tradição remonta a 1948, quando o PCC estava prestes a tomar o poder na China continental. Ele serve como uma fonte secreta de notícias para manter as autoridades informadas sobre os últimos grandes eventos no país e no exterior, que não estariam disponíveis para os cidadãos comuns devido às rígidas regras de censura de Pequim.

A mídia estatal Xinhua é a única fornecedora de documentos de “referências internas”, que contêm uma seção sobre como o mundo vê o regime chinês. O Epoch Times recentemente adquiriu alguns desses documentos, revelando que uma grande parte deles se referia a informações que apresentavam Pequim de uma maneira positiva, enquanto notícias negativas eram deliberadamente ignoradas.

Sanções globais

Em uma seção dos documentos, as últimas sanções globais foram listadas, classificadas por diferentes países, empresas e indivíduos visados. Na número 12 (correspondente à semana de 6 a 13 de maio de 2020), o “nei can” mencionou que a Europa e o Reino Unido impuseram sanções contra seis pessoas que violaram os direitos humanos na Nicarágua. No entanto, não incluiu informações sobre a extensão de uma ordem executiva do presidente dos EUA, Donald Trump, emitida no ano anterior que proibia as empresas norte-americanas de trabalhar ou comprar equipamentos de telecomunicações de empresas consideradas uma ameaça à segurança nacional. A ordem foi amplamente vista como dirigida à gigante chinesa de telecomunicações Huawei, que havia sido proibida de implantar 5G nos Estados Unidos por razões de segurança.

O Diretor de Comércio e Política Industrial dos EUA, Peter Navarro, chega antes que o presidente Donald Trump assine sanções comerciais contra a China na Sala Roosevelt da Casa Branca em 22 de março (MANDEL NGAN / AFP / Getty Images)
O Diretor de Comércio e Política Industrial dos EUA, Peter Navarro, chega antes que o presidente Donald Trump assine sanções comerciais contra a China na Sala Roosevelt da Casa Branca em 22 de março (MANDEL NGAN / AFP / Getty Images)

Filtrando opinião pública negativa sobre o vírus do PCC

Outro relatório “nei can” resume a opinião pública estrangeira sobre a pandemia do vírus do PCC, conforme refletido na mídia estrangeira. Ele destaca a gravidade da pandemia em países estrangeiros, mas não menciona as crescentes críticas da comunidade internacional sobre o encobrimento da pandemia pelo regime chinês.

Não foi mencionado no relatório que o Federal Bureau of Investigation (FBI) confirmou que estava investigando “agentes cibernéticos” ligados à China e monitorando suas tentativas de “identificar e obter ilicitamente propriedade intelectual valiosa e dados de saúde pública relacionados a vacinas, tratamentos e testes de redes e pessoal afiliado a investigações relacionadas `a COVID-19”.

Outra omissão notável foi uma entrevista à BBC com Chris Patten, o último governador britânico em Hong Kong, intitulada “Is China using coronavirus to ‘bully’ the world?” (A China está usando o coronavírus para ‘intimidar’ o mundo?) Patten atacou o regime chinês por se aproveitar da pandemia para pressionar Taiwan e Hong Kong. Seus comentários atraíram a atenção da mídia internacional.

Como esperado, os documentos internos apontaram positivamente para o manejo interno da pandemia por parte das autoridades, mencionando a reabertura de escolas e as medidas de estímulo ao mercado consumidor interno.

Problemas econômicos

Os relatórios também mencionaram as análises econômicas, que “falaram favoravelmente” da economia chinesa. De acordo com documentos internos, eles citaram declarações na mídia estrangeira explicando que a Índia não poderia substituir o papel da China como “a fábrica do mundo”, que a China pós-COVID-19 provavelmente lideraria o mundo na reabertura e que a China continuou sendo um destino popular para investimentos corporativos americanos.

Os relatórios mencionaram algumas notícias negativas. Um relatório do Financial Times em 18 de maio afirmou que quase 500 empresas de capital aberto na China sofreram perdas de investimento no primeiro trimestre de 2020. Analistas citados no Financial Times disseram que as empresas gastam muito esforço especulando sobre o ações, ignorando seu negócio principal. Os relatórios “nei can” também mencionaram um documento que afirmava que os mercados de capitais da China provavelmente enfrentariam a pior fuga em quatro anos e um relatório compilado por estrategistas cambiais do Goldman Sachs disse que as tensões com os Estados Unidos provavelmente estimularam o processo de saída de capital.

Opinião pública online sobre ‘Duas sessões’

As “Duas Sessões”, reuniões anuais da legislatura fantoche do PCC e seu corpo consultivo para promulgar políticas e agendas, foram realizadas este ano em maio. Durante este período, os documentos “nei can” mostraram que Pequim seguia a opinião pública nacional ao analisar mensagens nas redes sociais.

De acordo com um gráfico de tendência, em 25 de maio às 18h, a atenção nas duas sessões atingiu 40.000 pontos. Outra análise mostrou que a atenção ao tópico alcançou 72% na plataforma de mídia social Weibo e 20% no aplicativo de mensagens WeChat.

Tendência da opinião pública baseada na popularidade (Epoch Times)
Tendência da opinião pública baseada na popularidade (Epoch Times)

O comentarista político Li Linyi observou que essas chamadas “referências internas” são incompletas e censuram notícias negativas para agradar aos líderes do Partido. Elas desencorajam notícias negativas dentro de um estado de partido único para salvar a imagem do PCC e confortar seus oficiais, disse ele.

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