Regime comunista chinês pretende pôr mídia internacional de joelhos

Um revendedor de automóveis local publicou um anúncio no Epoch Times. Logo depois, a matriz da fábrica de automóveis nos Estados Unidos recebeu um telefonema do consulado chinês local. O incidente ocorreu há 10 anos, mas o efeito dura até hoje. Foi esse incidente, disse o representante de uma agência de publicidade, que convenceu a empresa que trabalhar com o Epoch Times traria pressão do consulado chinês.

O Partido Comunista Chinês (PCC) quer calar a mídia independente, especialmente a mídia em língua chinesa. Usar pressão política e econômica para cortar a receita publicitária é uma tática-chave usada pelo PCC, além de outros meios menos sutis.

O ponto de estrangulamento da receita publicitária são as agências de publicidade, que têm a capacidade de canalizar os anunciantes para os meios de comunicação. Há meia dúzia de agências de publicidade nos Estados Unidos que colocam anúncios em mídias de língua chinesa para a maioria das grandes empresas.

O Epoch Times se reuniu com representantes de várias dessas empresas. Numa reunião recente, o representante de uma resumiu o problema geral: “Ok, digamos que eu coloque os anúncios de meus clientes em suas mídias”, propôs o representante. “O que devo fazer quando eu receber telefonemas do governo chinês?”

Um representante de outra agência de publicidade foi ainda mais direto: “É muito difícil ser a primeira pessoa”, disse ele, quando convidado a trabalhar com o Epoch Times. “Todos os meus clientes têm empresas multinacionais. Negócios na China”, disse ele. “É difícil que eu os recomende.”

Anúncios cancelados em Hong Kong

O Epoch Times não é o único a ter sua receita publicitária estrangulada pela pressão do regime chinês. Numa semana em novembro de 2013, empresas estatais chinesas e outras grandes empresas cancelaram repentinamente a publicidade no jornal independente AM730 de Hong Kong. O jornal viu HK$ 17 milhões (c. US$ 2 milhões) em vendas anuais de anúncios desaparecerem, segundo o fundador do jornal, o sr. Shih Wing-ching.

“Acho que eles estão usando a mesma tática contra todas as outras mídias”, disse Shih Wing-ching em entrevista por telefone. Na mesma época que o AM730 viu seus anúncios sumirem de repente, dois grandes bancos de Hong Kong pararam a publicidade no Apple Daily, um jornal pró-democracia de Hong Kong.

Mark Simon, diretor comercial da Next Media, uma empresa associada ao Apple Daily, disse ao Wall Street Journal que o HSBC e o Standard Chartered retiraram seus anúncios devido à pressão de Pequim. Os anunciantes investiram US$ 3,6 milhões em anúncios no Apple Daily em 2013. Jimmy Lai, o proprietário da Next Media, não respondeu aos pedidos de comentário feitos por telefone e e-mail.

O custo da independência

O Apple Daily tem sido um defensor de ativistas democráticos em Hong Kong. De acordo com Simon, os anunciantes correram devido à cobertura da Next Media sobre os protestos contra o aumento da influência da China continental em Hong Kong.

Shih Wing-ching, do AM730, acredita que seu jornal ganhou a animosidade de Pequim porque “muitas de nossas colunas atacam as políticas da China continental, tanto em Hong Kong como no continente”.

“Não é difícil entender por que eles fazem isso”, disse Shih. “Eles querem influenciar as pessoas, e a mídia é extremamente poderosa. Eles tentam fazer as pessoas acreditarem que, se você não está fazendo algo que eles aprovam, eles podem arruinar sua publicidade.”

John Tang, o CEO do Epoch Times, sabe por que o regime chinês tenta pressionar empresas a não anunciarem no Epoch Times. “O Partido Comunista Chinês sabe que somos um jornal que dirá a verdade sobre o que está ocorrendo na China e isso os assusta”, disse Tang.

“Fomos fundados por pessoas que conheceram pessoalmente a repressão na China”, disse Tang. “Vivenciamos um ambiente de mídia em que o PCC controlava o que as pessoas podiam conhecer e decidimos reportar honestamente sobre a China para o povo chinês e o mundo.”

“O povo chinês confia em nós”, disse Tang. “Quando o surto de SARS [síndrome respiratória aguda severa] ocorreu na China, os chineses sabiam que o Epoch Times lhes diria o que realmente estava ocorrendo.”

Em 2004, o Epoch Times publicou uma série editorial, intitulada “Nove Comentários sobre o Partido Comunista“, que apresenta a história sem censura do PCC. Essa publicação deu origem ao movimento de renúncia ao Partido Comunista e a suas organizações afiliadas. Até o momento, cerca de 175 milhões de pessoas já renunciaram.

Bandidos à solta

Pressionar anunciantes para cancelarem seus anúncios é apenas uma forma do regime chinês tenta calar a mídia independente. Táticas mais violentas também são empregadas.

Em julho de 2013, Shih do AM730 foi atacado em seu carro. Um mês antes, um carro se chocou contra o portão da casa de Jimmy Lai do Apple Daily. No que poderia ter sido uma cena de um filme de máfia, um machado e uma faca foram deixados no local como aviso. Três semanas antes, dois homens espancaram Chen Ping, o editor do iSun Affairs, quando ele saia de seu escritório.

Em fevereiro de 2014, Kevin Lau, o editor do jornal liberal chinês Ming Pao, foi atacado por homens com facões que o deixaram em estado crítico. Alguns observadores de Hong Kong disseram que isso foi um ataque típico da máfia, destinado a enviar uma mensagem que mutilasse a vítima mas não a matasse.

No final de julho, o Home News, um dos maiores websites pró-democracia de Hong Kong, retirou todo seu acervo de artigos da internet. Tudo que restou foi uma única mensagem de um de seus fundadores, Tony Tsai, que vagamente se referiu ao ambiente de crescente “pressão política” e “medo” em Hong Kong.

John Tang, o CEO do Epoch Times, disse que testemunhou em primeira mão como o PCC tenta intimidar os jornalistas. Tang ressaltou que poucos meses após o lançamento do Epoch Times em 2000, dúzias de membros da equipe foram presos na China. Alguns foram condenados a mais de 10 anos de prisão. Alguns foram severamente torturados.

“Bandidos tentaram várias vezes entrar em nossa casa de impressão em Hong Kong”, disse Tang. “Em 2006, bandidos invadiram a casa de nosso diretor de TI, apontaram-lhe uma arma, amarraram-no e o espancaram severamente. Tudo o que levaram foram seus computadores e documentos de trabalho.”

“Os websites de nosso jornal têm sido frequentemente atacados e nossos jornalistas já receberam várias ameaças de morte”, disse Tang.

Mídia internacional pratica autocensura

Por décadas, o Partido Comunista Chinês tem tentado dominar a mídia internacional em língua chinesa. Recentemente, mídias em língua inglesa começaram a enfrentar algumas das duras escolhas enfrentadas pelo Epoch Times, AM730 e Apple Daily.

É claro que jornalistas internacionais já sabem há muito tempo que há regras estritas sobre como alguém pode informar sobre a China. O Partido Comunista recompensa as mídias cuja cobertura os agrada e pune as que não se submetem. Mas isso ocorria principalmente nos bastidores. No final de 2013, os esforços de intimidação do Partido Comunista se tornaram públicos.

Em novembro de 2013, o regime chinês ameaçou cortar os terminais financeiros da Bloomberg na China devido a uma reportagem investigativa, e a Bloomberg retirou a matéria do ar, segundo o New York Times (NYT). Em dezembro de 2013, repórteres da Bloomberg e do NYT tiveram seus vistos negados temporariamente devido a reportagens críticas ao regime chinês.

Estes esforços do PCC para censurar a cobertura do regime chinês desencadearam longos debates fora da China sobre se uma mídia deve sacrificar seus princípios a fim de poder operar na China.

Para Shih do AM730, esta é uma pergunta que tem apenas uma resposta. Ele disse que manter a independência de seu jornal não é uma questão de se realizar isso é difícil ou fácil. É uma questão de princípios. “Eu prefiro fechar minha empresa do que ser usado por outros”, disse Shih.

John Tang do Epoch Times acrescentou: “Ao reportarmos honestamente sobre a China, estamos ajudando a China a rumar para um futuro melhor. Todos deveriam pôr de lado seus medos e apoiar isso.”

 
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