ARTIGO - Publicado em - Atualizado em 18/04/2017 às 23:42

Regime chinês promete limpar suas finanças com remoção de regulador de seguros

Xiang Junbo gerenciou a ascensão do setor de seguros chinês

Xiang Junbo, presidente da Comissão Reguladora de Seguros da China no Congresso Popular Nacional em Pequim em 12 de março de 2016. (Wang Zhao/AFP/Getty Images)

Xiang Junbo, presidente da Comissão Reguladora de Seguros da China no Congresso Popular Nacional em Pequim em 12 de março de 2016. (Wang Zhao/AFP/Getty Images)

O poderoso setor financeiro da China foi oficialmente notificado.

Xiang Junbo, presidente da Comissão Reguladora de Seguros da China (CRSC), foi colocado sob investigação por “severas violações disciplinares” na semana passada, segundo o principal órgão anticorrupção do Partido Comunista Chinês (PCC).

Até agora, Xiang Junbo é o quadro de mais alto escalão do setor financeiro capturado na campanha anticorrupção do líder chinês Xi Jinping.

O inquérito sobre Xiang Junbo pode ser apenas o início das investigações na indústria financeira chinesa. Fontes próximas a Zhongnanhai, o quartel-general do PCC e do Conselho de Estado, disseram ao Epoch Times que, em 2017, Xi Jinping está com sua atenção voltada para a corrupção no setor financeiro e Xiang Junbo é apenas o “primeiro tigre” a cair.

Fontes sugeriram que os crimes de Xiang Junbo são “muito sérios” e se relacionam com a compra frenética de ativos da indústria nos últimos anos que agravaram a volatilidade do mercado de ações. A investigação também poderia levar à corrupção envolvendo altos funcionários em outros órgãos reguladores financeiros, como a Comissão Reguladora dos Bancos da China e a Comissão Reguladora de Títulos da China.

Xiang Junbo, de 60 anos, tem extensas conexões e experiência no setor financeiro da China. Antes de sua nomeação para a CRSC, ele foi presidente do Banco Agrícola da China, um dos “quatro grandes” bancos comerciais estatais da China. Antes disso, Xiang foi vice-governador do Banco Popular da China, o banco central do país. Ele trabalhou na Comissão de Auditoria no início de sua carreira.

A remoção de Xiang Junbo surpreendeu muitos no setor financeiro chinês. Ele foi um dos principais funcionários de finanças da China e membro do Comitê Central do PCC. Sua comissão supervisionava uma indústria de seguros com uma influência crescente e propensão para aquisições de ativos no exterior.

O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, tem se empenhado em reformar o setor financeiro nos últimos meses. Num discurso em 21 de março, Li Keqiang instou as autoridades a tomarem medidas firmes para evitar a corrupção no setor financeiro, que é vulnerável ao advento de um sistema bancário paralelo, ativos improdutivos e financiamento ilegal pela internet, de acordo com a mídia estatal Xinhua.

Testemunho de um investidor milionário

A captura de Xiang Junbo provavelmente foi precipitada pelo recente desaparecimento de Xiao Jianhua, um membro do Partido Comunista e um investidor bilionário chinês residente em Hong Kong.

Xiao Jianhua desapareceu de sua residência no Four Seasons Hotel em Hong Kong no final de janeiro e foi conduzido a Pequim para interrogatório. Seu testemunho poderia ter levado à investigação de Xiang Junbo.

A fonte de Zhongnanhai disse ao Epoch Times que Xiao Jianhua forneceu informações sobre um número de funcionários de alto escalão aliados à “facção de Jiang Zemin”.

Jiang Zemin foi chefe do Partido Comunista por mais de uma dúzia de anos (1989-2002) e continuou tendo grande influência sobre o Partido por meio de uma rede de comparsas por mais dez anos (2002-2012). Desde que Xi Jinping assumiu o poder, ele tem travado uma batalha para erradicar a influência de Jiang Zemin.

Xiao Jianhua está entre os indivíduos mais ricos da China, com amplos investimentos em vários setores, incluindo bancos, imóveis, tecnologia da informação e minerais de terras raras. Até 2016, seu patrimônio valia 5,8 bilhões de dólares, de acordo com o Relatório Hurun.

Não está claro onde Xiao Jianhua se situa politicamente na divisão atual entre a facção de Jiang Zemin e a presidência de Xi Jinping, embora ele pareça ter estabelecido conexões com ambas. Em 2006, Xiao Jianhua ajudou Zeng Wei, filho de Zeng Qinghong, o ex-vice-presidente do Partido, a privatizar a Shandong Luneng por meio de uma série de empresas de fachada de propriedade de Xiao Jianhua. Zeng Qinghong era um oficial superior do Partido Comunista durante os regimes de Jiang Zemin e do sucessor Hu Jintao.

E em 2012, uma entidade de propriedade de Xiao Jianhua adquiriu ações no valor de pelo menos 2,4 milhões de dólares de Qi Qiaoqiao e Deng Jiagui, respectivamente irmã e cunhado de Xi Jinping.

Seguradoras saem da linha

A indústria de seguros da China tem acumulado imenso poder, e controvérsia, sob a supervisão de Xiang Junbo nos últimos seis anos.

De 2012 a 2016, o setor de seguros da China cresceu 14,3% no geral, e os seguros de propriedade e acidentes cresceram 16,5% em volume de prêmios, de acordo com dados da Munich Re. No ano passado, a China ultrapassou o Japão para se tornar o segundo maior mercado de seguros do mundo por prêmios.

Com Xiang Junbo na chefia da CRSC, o setor de seguros se transformou num covil de oportunistas corporativos.

Seguradoras tradicionais são bastiões de conservadorismo, mantendo ativos estáveis, como títulos públicos e títulos corporativos. As seguradoras por natureza devem considerar a preservação do capital de seus clientes como primordial.

Mas não na China. Percebendo a oportunidade num ambiente de baixas taxas de juros, nos últimos anos as seguradoras chinesas se expandiram para além das atividades tradicionais de seguros, principalmente pela emissão de produtos de gestão de riqueza, chamados políticas de vida universal. Estes produtos, que oferecem altas taxas de juros e são um híbrido entre um título e uma apólice de seguro de vida, têm sido populares entre os consumidores insatisfeitos com as taxas de depósito bancário de cerca de 1%.

Nadando em dinheiro, mas sobrecarregados por promessas de pagar rendimentos elevados, as companhias de seguros chinesas derramaram dinheiro em ativos arriscados e voláteis normalmente não associados com a política tradicional de empresas seguradoras. Essas empresas assumiram grandes posições em empresas chinesas cotadas em bolsas de valores e adquiriram grandes ativos no exterior, incluindo empresas estrangeiras e imóveis.

Evergrande Life, uma unidade do desenvolvedor imobiliário chinês Grupo Evergrande, viu seus prêmios aumentarem mais de 40 vezes em 2016.

Evergrande e Foresea Life, uma unidade do Grupo Baoneng, usaram seus recursos das políticas de vida universal para acumular uma grande participação no desenvolvedor imobiliário chinês Vanke no ano passado. Uma disputa pública e prolongada para tomar o controle da Vanke do fundador e CEO Wang Shi se seguiu, criando uma tempestade no mercado, que foi finalmente dissipada depois que Pequim interveio no final do ano passado.

O ataque a Vanke estava longe de ser o único caso de acumulação agressiva de ativos pelas seguradoras, mas sua natureza virulenta – Baoneng e Vanke se envolveram numa guerra verbal pública – criou a maior parte das dores de cabeça de Pequim.

Como uma indústria, o seguro também tem sido um importante veículo para canalizar dinheiro para o exterior sob a forma de aquisições estrangeiras, num momento em que a postura oficial de Pequim tem sido restringir ao máximo a saída do yuan e assim evitar a fuga de capital.

A Anbang Life estava na vanguarda dessas compras e fez manchetes em 2015 ao comprar o hotel Waldorf-Astoria em Nova York por quase 2 bilhões de dólares. Em 2016, a Anbang comprou o Strategic Hotels & Resorts do Grupo Blackstone por 6,5 bilhões de dólares. A maior jogada da empresa foi uma oferta fracassada de 14 bilhões de dólares para adquirir a Starwood Hotels & Resorts Worldwide.

Durante anos, as estratégias tradicionais de investimento das seguradoras tiveram a bênção implícita da CRSC. Após assumir as rédeas do órgão regulador, Xiang Junbo aprovou o uso mais flexível dos prêmios de seguros e insistiu em “dar maior liberdade à inovação” na indústria, de acordo com um artigo do Diário da Manhã do Sul da China.

A contribuição da indústria de seguros para as oscilações recentes do mercado de ações (por meio da compra de ações) e a maior pressão sobre a moeda chinesa (por meio de compras de ativos estrangeiros) podem ser fatores na queda de Xiang Junbo. Mas as alegações contra Xiang Junbo podem ir além da indústria de seguros, devido a seus cargos anteriores no Banco Agrícola da China e no Banco Popular da China.

Xiang Junbo não tinha sido visto em público por várias semanas até fevereiro, gerando rumores sobre sua possível prisão. Ele reapareceu em 22 de fevereiro numa coletiva de imprensa e criticou a indústria de seguros por suas atividades recentes. Xiang Junbo afirmou que a CRSC “punirá os altos executivos e revogará suas licenças, e definitivamente não permitirá que a indústria de seguros seja transformada num clube régio”.

A CRSC intensificou os esforços para controlar as atividades das seguradoras nos últimos meses. Um anúncio de meados de dezembro reduziu os índices de capital próprio a ser mantido nas seguradoras e proibiu-as de usar depósitos de seguros para financiar compras de ações. Até o final de fevereiro de 2017, a CRSC já havia rejeitado quatro pedidos de licença, correspondendo ao total de requisições para todo o ano de 2016.

Mas para Xiang Junbo, talvez seja um tanto tarde demais.

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