Regime chinês expõe membros da facção de Jiang Zemin que tramavam golpe

Pela primeira vez o regime chinês, sob a atual liderança de Xi Jinping, citou explicitamente os nomes de membros de uma facção do partido por tentarem realizar um golpe contra seus líderes.

O anúncio foi feito no 19º Congresso Nacional, evento mais importante do ponto de vista político e altamente sensível do Partido Comunista Chinês (PCC), quando os principais líderes do Partido marcam o início de uma nova geração da elite governante que irá liderar o país nos próximos cinco anos.

Desde que Xi assumiu a posição no último congresso do Partido em 2012, vem enfrentando uma luta de poder contra uma facção opositora ao Partido. Conhecidos como a Facção Jiang, eles permanecem leais ao ex-líder do PCC Jiang Zemin. Muitos deles foram demitidos desde então pela campanha anticorrupção de Xi.

Na quinta-feira (19), em uma reunião realizada no 19º Congresso Nacional, o presidente da Comissão Reguladora de Valores da China, Liu Shiyu, sem mencionar o próprio Jiang, declarou abertamente que ex-funcionários de alto escalão da Facção Jiang conspiraram para realizar um golpe de Estado. Esta é a primeira vez que o regime os acusa abertamente de um crime tão grave.

Presidente da Comissão Reguladora de Valores, Liu Shiyu, participa de uma conferência de imprensa durante o 19º Congresso Nacional, em 19 de outubro de 2017 (Etienne Oliveau/Getty Images)
Presidente da Comissão Reguladora de Valores, Liu Shiyu, participa de uma conferência de imprensa durante o 19º Congresso Nacional, em 19 de outubro de 2017 (Etienne Oliveau/Getty Images)

Foram citados os ex-líderes do Partido de Chongqing Bo Xilai e Sun Zhengcai, o ex-chefe da Segurança Nacional Zhou Yongkang, os ex-vice-presidentes da Comissão Militar Central Guo Boxiong e Xu Caihou, e o ex-assessor político Ling Jihua. Anteriormente, Xi os havia expulso sob as acusações de violar a disciplina do Partido e por suborno.

No entanto, desta vez eles estão sendo condenados diretamente por tentar usurpar o poder.

“Eles tinham altos cargos e grande poder no Partido, mas eram extremamente corruptos e planejavam usurpar a liderança do Partido e tomar o poder”, disse Liu aos participantes na reunião, de acordo com matéria publicada no jornal chinês Morning Post.

Embora seja esperado que Xi continue seu papel como líder do PCC por mais cinco anos, os comentários de Liu — que quase certamente receberam a aprovação de Xi — são um reconhecimento tácito de que a luta pelo poder ainda está em vigor entre as duas facções, e que Jiang é a principal força da oposição.

Ainda que o Partido se esforce por transmitir uma imagem de unidade — como por exemplo no gesto de Xi apertando a mão de Jiang e de outros anciãos do Partido na cerimônia de abertura do congresso —, a liderança está tentando mandar um aviso à facção de Jiang.

Xi usou o termo golpe de Estado em vários discursos no passado. Em 2015 acusou oficiais de elite expurgados de formar “divisões e organizações” para “destruir e dividir” o Partido.

O especialista em assuntos da China, Ji Da, observou que a mídia chinesa ainda não publicou nada sobre o anúncio de Liu, sugerindo que Xi Jinping pode ter enfrentado resistência das forças do Partido que permanecem leais a Jiang.

Outro analista de assuntos da China, Chen Simin, observou que fazer com que Liu transmitisse a mensagem foi uma opção interessante. No mesmo dia, a Comissão Central de Inspeção Disciplinar realizou uma conferência de imprensa, mas o órgão disciplinar do PCC anunciar isso teria sido muito previsível. Escolher Liu para levantar essa bandeira adiciona significado à mensagem, acrescentou Chen.

Durante uma sessão de trabalho para os delegados da cidade de Chongqing, o atual chefe do partido de Chongqing, Chen Min’er, que substituiu Sun Zhengcai depois de ele ter sido recentemente expulso do cargo, também disse à sua audiência que estava decidido a limpar a área de qualquer influência remanescente de Sun e Bo Xilai, ex-chefe do Partido.

Em 2012, havia rumores de que Bo Xilai e Zhou Yongkang estavam envolvidos em um complô para impedir que Xi chegasse ao poder no 18º Congresso Nacional, seguindo instruções de Jiang.

Mas quando o vice-prefeito de Chongqing, Wang Lijun, tentou fugir para os Estados Unidos, desencadeando investigações da mídia e uma crise política, o plano foi frustrado.

Bo e Zhou foram expurgados e levados a julgamento logo após o incidente.

Enquanto isso, Sun foi amplamente considerado como o sucessor de Xi. Mas ele tinha estreita ligação com o braço direito de Jiang, Zeng Qinghong.

Xi o expurgou várias semanas antes do 19º Congresso Nacional, liberando ainda mais o Partido da influência de Jiang.

Ling Jihua foi um dos principais colaboradores do então líder do Partido Comunista Chinês, Hu Jintao, e foi investigado por se apropriar de bilhões de dólares enquanto esteve no poder.

Enquanto isso, Guo Boxiong e Xu Caihou ocuparam posições de destaque nas forças armadas devido ao apadrinhamento político de Jiang e permitiram que ele permanecesse como presidente da Comissão Militar, mesmo depois de Jiang ter saído da presidência do Partido.

Colaborou: Luo Ya

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