Quarto estudo revela que poluição do ar pode causar autismo

Quanto mais poluição advinda do tráfego de carros uma mulher grávida é exposta – especialmente durante seu terceiro trimestre – maior é a chance de seu filho desenvolver autismo. Esta é a conclusão de mais um estudo, desta vez publicado online na edição de outubro de 2014 da revista Epidemiology.

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Há cerca de uma década, cientistas começaram a investigar a possibilidade da poluição do ar afetar o desenvolvimento infantil. Hoje, quatro estudos correlacionam a exposição à poluição e o autismo, um transtorno de desenvolvimento caracterizado por problemas sociais, dificuldades de comunicação e comportamento repetitivo.

De acordo com a principal autora do estudo mais recente, a epidemiologista ambiental Dr. Amy Kalkbrenner, a literatura tem sido muito consistente.

“Poder analisar o impacto na saúde da população humana, e não em uma experiência controlada com animais, e conseguir este nível de consistência é, na minha avaliação, notável”, disse ela.

Os distúrbios do autismo aumentaram dramaticamente nos últimos 20 anos. Embora haja algum debate questionando se este aumento é devido a um verdadeiro crescimento da sintomatologia, ou apenas a um melhor conhecimento e avaliação, está claro que o distúrbio tem um alcance amplo. Hoje, uma em cada 68 crianças nascidas nos EUA se encaixam em algum lugar no espectro do autismo.

A maioria dos pesquisadores concorda que os fatores ambientais desempenham algum papel no desenvolvimento do autismo, mas não há um consenso para uma única causa. Ainda que Kalkbrenner esteja confiante sobre suas descobertas, ela diz que isso não significa que a poluição do tráfego seja o gatilho para todos.

“Para cada estado de saúde, há uma constelação de influências causais. Este não é um mundo onde há apenas uma causa para uma doença”, disse ela. “O que isto significa é que, para algumas crianças, a poluição do ar pode ser parte dessa constelação causal, composta por diversas peças que se uniram para desequilibrar a balança.”

Química do ar

Examinar a química do ar pode ser algo bastante complexo, e grande parte do trabalho de um cientista, que envolve isolar um risco ambiental à saúde, implica descartar explicações alternativas. Estudos anteriores que ligam o autismo à poluição focaram sua atenção em indicadores claros relativos à emissão de automóveis, especialmente o dióxido de nitrogênio. Já Kalkbrenner, focou nas partículas do ar.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos regula dois tamanhos de partículas contaminantes. As partículas grossas: menos de 10 micrômetros de diâmetro ou MP10. E as partículas finas: menos de 2.5 micrômetros ou MP2.5. Para seu estudo, Kalkbrenner analisou registros de monitoradores de poluição em todo o país, que testam o ar para verificar estas partículas. Os monitoradores fazem leituras em uma base diária, ou até mesmo de hora em hora, para demonstrar o cumprimento da Lei do Ar Limpo dos EUA, e deram a Kalkbrenner um histórico dos níveis de poluição em locais específicos.

Estes dados forneceram aos pesquisadores informações muito mais precisas sobre as mudanças da poluição do ar em locais específicos do que os estudos anteriores, mas ainda tinham algumas limitações. Não somente é mais provável que o MP2.5 seja proveniente da emissão dos automóveis, como os estudos em animais sugerem que as partículas MP2.5 são biologicamente mais influentes em problemas de desenvolvimento cerebral. No entanto, os monitoradores de poluição, durante os anos de estudo de Kalkbrenner, não mediram separadamente as partículas finas e grossas.

Outra característica importante para o modelo do estudo foi um segundo local. As pesquisas anteriores analisaram apenas a Califórnia, mas Kalkbrenner também examinou dados semelhantes na Carolina do Norte, para ver se o padrão tráfego-autismo mantinha-se mesmo diante de diferentes misturas de poluição do ar e diferentes condições sazonais.

Mistérios remanescentes

Quando os registros de 164.500 crianças, analisados desde o pré-natal até o primeiro aniversário, foram comparados com dados de poluição, os dois estados norte americanos revelaram um número significativamente maior de casos autistas cujas mães foram expostas a níveis de poluição mais elevados. Os cientistas também descobriram que durante as semanas 31 a 36 da gravidez, o feto era mais suscetível aos impactos das partículas poluentes do ar.

Outros estudos notaram um maior impacto no neurodesenvolvimento durante o terceiro trimestre, mas o porquê de isto acontecer ainda não está claro. Algumas evidências sugerem que é nesse momento que o cérebro do feto é submetido ao delicado processo de conectividade sináptica, e que o autismo se desenvolve quando a conectividade arremata-se incorretamente.

Outra incógnita restante é a de qual químico (ou químicos) relacionado ao tráfego realmente está causando o transtorno. Os carros liberam dezenas de químicos tóxicos no ar. À medida que estes produtos químicos misturam-se ao sol, ao ar, e um ao outro, novos compostos se formam e a situação se torna mais complicada.

“De fato, poderiam ser duas ou várias substâncias químicas agindo em sinergia”, disse Kalkbrenner. “No meu mundo, este é considerado o problema das misturas: no qual um grupo de produtos químicos poderia atuar em conjunto de forma muito diferente de um único produto químico isoladamente.”

Enquanto não encontramos evidências conclusivas do problema químico, Kalkbrenner é frequentemente questionada sobre o que uma mulher deve fazer para evitar possíveis problemas em sua gravidez.

“Infelizmente, eu não acho que há muito o que um indivíduo possa fazer”, disse ela. “Este é um clássico problema de saúde pública. É necessário que pessoas trabalhem em conjunto para resolver este problema”.

* Imagem de “boy” via Shutterstock
 
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