Projeto “Made in China 2025” continua em ritmo acelerado

Plano da China de eliminar seus concorrentes tecnológicos é uma questão política, independentemente dos esforços de relações públicas dos líderes chineses para acabar com os temores ocidentais

Por James Gorrie

Apesar do que o líder comunista chinês, Xi Jinping, possa dizer publicamente ao mundo sobre sua decisão de suavizar o agressivo plano “Made in China 2025”, o programa na verdade segue a todo vapor.

O objetivo do programa, criado pelo primeiro-ministro Li Keqiang em 2015, é que a China se torne a nação industrial dominante no mundo em dez setores-chave de alta tecnologia, como o farmacêutico, de inteligência artificial e de robótica, entre outros.

Não se trata apenas de colocar a China no topo da pesquisa tecnológica e na industrialização de alimentos, mas também, quando implementados, destruir os concorrentes ocidentais. A principal tecnologia de todos os setores do “Made in China 2025” é o design e a fabricação de microchips semicondutores avançados, dos quais os Estados Unidos ainda mantêm a maior parte da vantagem tecnológica.

Em suma, o programa “Made in China 2025” é um processo destinado a transferir propriedade intelectual (PI), técnicas de fabricação e pesquisa do Ocidente para a China.

O grande tiro da China saiu pela culatra

Não é de surpreender que o programa “Made in China 2025” da China tenha desempenhado um papel importante na formação das perspectivas do presidente Donald Trump e que tenha ajudado a moldar suas políticas comerciais.

Trump fez campanha e ganhou a presidência dos Estados Unidos com a promessa de rejeitar as vantagens comerciais desleais da China e seu roubo tecnológico e de propriedade intelectual desenfreado contra empresas americanas. De fato, o objetivo das tarifas de Trump aponta para os mesmos setores tecnológicos do plano “Made in China 2025”.

Em resposta às políticas comerciais de Trump, que incluem não apenas tarifas, mas também outras medidas punitivas, a China transferiu suas compras de soja para o Brasil e transferiu a fabricação de alguns produtos de consumo para fábricas em outros países, como México, Vietnã e Sérvia. Outros fabricantes estrangeiros também estão deixando a China. Sem dúvida, isso pode representar problemas de longo prazo para a China.

Para combater as impressões que causaram suas próprias declarações sobre o “Made in China 2025”, a China lançou uma agressiva campanha de relações públicas. Xi prometeu publicamente que a China permitirá às empresas ocidentais maior acesso ao mercado chinês e que fará esforços para proteger a propriedade intelectual de empresas estrangeiras que operam na China, especialmente as norte-americanas. Ele também prometeu reduzir as tarifas sobre automóveis dos Estados Unidos de 40% para 10% e recomprar a soja americana.

Mas será que a China vai realmente abrir seu mercado para a concorrência dos Estados Unidos? Ela vai parar de praticar o roubo de propriedade intelectual e de tecnologia? Será Trump capaz de mudar fundamentalmente os planos “Made in China 2025” de uma maneira semelhante a quando os Estados Unidos conseguiram neutralizar o comércio adversário do Japão nos anos 80?

A resposta para todas estas perguntas é: “Não”. E há boas razões para isso.

A economia da China se baseia no roubo

Em sua essência, a economia chinesa se baseia em suborno, roubo e violência. De 1949 a 1979, a economia da China baseou-se no fato de o Estado roubar os frutos escassos do trabalho do povo chinês, matando dezenas de milhões de pessoas no processo. Uma vez que a China convidou empresas ocidentais para fabricar produtos lá, a economia chinesa continuou a roubar localmente, mas expandiu seu escopo para roubar capital, tecnologia, propriedade intelectual e até fábricas completas de manufatura de empresas ocidentais.

Aliás, essa é uma das principais razões pelas quais o sistema legal chinês é tão fraco, corrupto e irresponsável. Esse sistema legal é necessário para que o roubo e o suborno generalizados ocorram e prosperem. Estes são os aspectos essenciais da economia chinesa e suas políticas comerciais e monetárias, e resultaram no “milagre econômico” chinês desfrutado hoje por 20% da população chinesa.

A China deixou de ser um inferno comunista extremamente pobre para ser uma grande potência econômica mundial em menos de 40 anos, então por que mudar essas mesmas políticas que fizeram o país chegar lá, mesmo que pudesse?

Eles não podem e não vão.

O que funcionou com o Japão, não vai funcionar com a China

Do ponto de vista da política estrutural e econômica, há algumas semelhanças surpreendentes entre as duas nações asiáticas. Por exemplo, a China tirou uma página do livro de política comercial adversária do Japão da década de 1980. Naqueles anos, o Japão vendia a preços agressivamente mais baixos que os das empresas automobilísticas e eletrônicas americanas, ao mesmo tempo em que os alcançava ou superava em termos de qualidade.

Ao fazer isso, as políticas comerciais adversárias do Japão foram fundamentais para a eliminação de milhares de empregos na indústria automotiva e eletrônica nos Estados Unidos, o que contribuiu para o Cinturão da Ferrugem que ainda existe hoje.

Tanto o Japão durante a década de 1980 quanto a China dependiam desde então de relações comerciais tendenciosas com os Estados Unidos, que incluíam tarifas elevadas e mercados fechados para produtos americanos com o objetivo de aumentar suas respectivas economias. E ambos os países têm uma desvantagem comparativa em recursos naturais. Ambas as economias são mais impulsionadas pelo Estado em comparação com a economia de mercado dos Estados Unidos, embora a China seja muito mais do que o Japão.

Mas também há diferenças críticas entre o Japão e a China, o que torna menos provável que a aplicação mesmas pressões que funcionaram com o Japão funcionem com a China. Uma grande diferença é que a China não depende dos Estados Unidos para sua segurança. Pelo contrário, é um adversário geopolítico, econômico e militar dos Estados Unidos. O aspecto da segurança foi um fator muito importante na decisão do Japão de aceitar as políticas comerciais dos Estados Unidos. A China não está ligada a essas questões.

Além disso, a China depende menos das exportações para os Estados Unidos para impulsionar a sua própria economia, uma vez que tem profundas relações comerciais com a União Europeia e outras economias em toda a Ásia. E a China controla sua moeda em um grau muito maior do que o Japão, protegendo-a das forças do mercado.

Mas nem todos os fatores da China estão a seu favor. Ao contrário da homogeneidade do Japão, a China é um império sobre grandes populações com culturas, sistemas de valores, histórias, características e aspirações muito diferentes. A constante repressão de centenas de milhões de pessoas é dispendiosa, bem como uma atividade politicamente perigosa. Mesmo sua própria população sofre sob o jugo do domínio do Partido Comunista Chinês.

Por acaso, assim como os japoneses, a população da China está envelhecendo, pressagiando uma demanda crescente por serviços sociais, enquanto sua dívida em relação ao PIB aumentou até atingir uma proporção de 2,5 para 1. No início de sua recessão de duas décadas em 1992, a relação dívida/PIB do Japão era de cerca de 0,50 para 1, e desde 2012 permanece em uma proporção de cerca de 2 para 1. Portanto, a China em algum momento enfrentará sua própria crise da dívida.

O desejo da China de alcançar a supremacia enquanto tem a oportunidade de fazê-lo é alimentado por todos esses fatores e muitos mais.

Não há uma solução real à vista

Ninguém realmente espera que os chineses abandonem seu modelo de desenvolvimento de “capitalismo de Estado”. Afinal, esse modelo transformou a economia chinesa e arrancou milhões de empregos dos Estados Unidos e da Europa. O representante comercial dos Estados Unidos, Robert Lighthizer, concluiu o mesmo em um artigo recente. Em outras palavras, independentemente do que a China diga, ela está realizando seu programa “Made in China 2025” com a mesma agressividade de antes.

Se for bem sucedida, a China fará com que muitas empresas de tecnologia desapareçam, baixando os preços de seus produtos em relação aos fabricantes americanos, europeus e japoneses. Isso resultaria em desemprego crônico e potencialmente uma vantagem tecnológica insuperável que alimentaria sua expansão global, às custas do poder e da influência dos Estados Unidos. Em todos os aspectos que importam, o plano “Made in China 2025” é efetivamente uma declaração de guerra contra as economias ocidentais, especialmente contra os Estados Unidos.

Em outras palavras, é um ato de guerra sem disparar armas, pelo menos não ainda.

James Gorrie é escritor radicado no Texas. Ele é autor de “A Crise da China”

O conteúdo desta matéria é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Epoch Times

 
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