Procurando respostas para um mundo em conflito

Meninas esperam pacientemente sua vez para receber ajuda médica de uma equipe da Marinha em Rangabali, Bangladesh em 1° de dezembro de 2007 (Wikimedia Commons)
Meninas esperam pacientemente sua vez para receber ajuda médica de uma equipe da Marinha em Rangabali, Bangladesh em 1° de dezembro de 2007 (Wikimedia Commons)

A vivência de cada dia nos faz atravessar uma série de situações estressantes e até mesmo conflituosas, e tentamos chegar ao final do dia salvos, inteiros, com possibilidade de desfrutarmos de um lar aconchegante e de um alento, desfrutando de boas coisas e da companhia de pessoas que nos são agradáveis.

Mas, de onde vêm as situações conflituosas? Contra o que lutamos no dia a dia? Como surgem os conflitos? Quem são os nossos adversários?

No carro ou no transporte coletivo ficamos tensos. Nas filas em bancos, na escola, ao caminharmos por ruas apinhadas ou desertas, ao ouvirmos notícias que nos desagradam… Tudo pode envolver um certo tipo de tensão, devido ao medo que temos de situações ou pessoas, de termos a nossa segurança ameaçada ou nossos interesses violados.

Se prestarmos atenção, veremos que nos sentimos e nos colocamos, de certa forma, separados dos demais, com exceção dos amigos próximos e parentes. Não nos sentimos à vontade com a pessoa sentada ao nosso lado no transporte coletivo, nem na fila do caixa-eletrônico ou na calçada, andando no meio de outras pessoas. Mesmo a nossa relação com o vizinho, é, muitas vezes, apenas uma relação formal, insegura e distante.

Começamos pela separação, pelo medo do outro, e com a vontade de garantir nossa sobrevivência, segurança e interesses. Partindo daí, tudo pode virar um conflito, até mesmo importante, que, às vezes, leva à consequências sérias ou, em alguns casos, trágicas.

Mas, afinal, contra quem estamos lutando? Se pensarmos bem, a pessoa que está na nossa frente é a mesma da qual esperamos compartilhar o mundo enquanto coletividade de seres humanos. Quando todos comemoramos a passagem do ano ou quando ouvimos a notícia da provável descoberta da cura do câncer ou da Aids, ficamos excitados, alegres e com um sentimento de que compartilhamos do mesmo mundo, das mesmas expectativas, por sermos uma só família humana.

Então, por que surgem os desentendimentos, as agressões? Os conflitos no trânsito? A violência entre torcidas organizadas? Os assassinatos? As guerras?… Quem são os autores dessas pequenas ou grandes violências?

Como podemos odiar, agredir e até assassinar as pessoas que fazem parte do mundo em que vivemos? Pessoas que atuam, compondo o mundo, construindo, dividindo e participando do mesmo mundo que nós. Os mortos no trânsito, na violência entre torcidas, nas guerras no oriente médio, nos genocídios na África ou na China também eram pessoas como nós, procurando construir o mesmo mundo ideal que se espera. Por que tiramos suas vidas? Que tipo de realidade esperamos constituir dessa forma?

Quem são os culpados por isso? O que ocorre conosco, que nos leva a ações tão caóticas e destruidoras?

Culpados somos todos, e o que ocorre é que quando ou porque nos sentimos ameaçados – em nossos interesses, posturas ideológicas ou fisicamente -, nossos estados de consciência desumanos e caóticos (feitos do instinto egoísta de autopreservação, de conceitos confusos e conflitos psicológicos) afloram e sobrepõem-se ao nosso estado humano natural, submetendo a nossa consciência e as nossas atitudes a impulsos, emoções e conceitos contrários à nossa própria natureza humana: isso leva aos comportamentos conflituosos e à violência, que fazem mal às pessoas e destroem partes da sociedade humana.

Quando nos sentimos ameaçados, esses impulsos agressivos e caóticos, que estão associados ao nosso instinto de autopreservação, vêm à tona, cheios de energia e carga emocional, tomando lugar da nossa razão, da nossa consciência humana, provocando conflitos, dores e destruição.  Nesses momentos (e enquanto esses estados durarem – o que pode ocorrer por toda uma vida, como nos fortes ressentimentos e ódios que mantêm as guerras), perdemos o contato com a nossa natureza humana (empatia, confiança, bondade, paz, sinceridade, dignidade, altruísmo e comunhão com os demais), tomando atitudes que causam separação, ódio, rivalidade e ressentimentos entre as pessoas ou grupos de pessoas.

Por isso, não existe inimigo exterior ou alguém que seja culpado em especial. O que ocorre é que enquanto continuarem existindo, em cada um de nós, estados caóticos e desumanos (que são baseados no sentido egoísta de autoproteção e auto-interesse), todos os conflitos pessoais, sociais, as guerras, os genocídios e a crueldade continuarão existindo.

A paz e os conflitos

Não é possível existir a esperada paz exterior, o fim de guerras e conflitos através de acordos e pactos formais, porque é o nosso interior – nossa desumanidade e turbulência –  que continua perpetuando os conflitos e a violência no mundo.

Assim, é preciso constantemente reconhecer em nossos pensamentos, sentimentos e atitudes quais vêm de nossa natureza humana, para diferenciá-los dos estados caóticos e desumanos que podem estar tomando lugar da nossa consciência humana. Precisamos nos lembrar de recuperarmos a nossa consciência sempre que estivermos em conflito, seja ele interno ou externo. E, especialmente no calor dos conflitos interpessoais, ou até antes de entrarmos neles, se torna crucial lembrarmos dessa consciência humana, para não nos tornarmos violentos, não criarmos o caos e recuperarmos o nosso estado humano. E isso não significa nos tornarmos emotivos ou sentimentalistas com os outros; mas sim amorosos, pacientes e responsáveis por cada encontro, situação, troca ou relação que temos na vida real.

De fato, não há paz exterior enquanto não existir paz no interior das pessoas. E existe uma coisa fundamental – a qual estamos todos atados – que se interpõe entre cada um de nós e o estado de paz interior: as ambições pessoais, a expectativa infinita de encontrar satisfação nas coisas (nos prazeres, nos objetos, no dinheiro, no status, nas drogas, no sexo etc). Precisamos despertar e entender que não existe nada que preencherá nosso vazio pessoal, por que esse vazio vem da nossa vivência egoísta e autocentrada do mundo, que nos restringe, nos separa dos demais, impedindo o sentido de pertencer, de viver em comunidade, de sentir-se em comunhão com os outros como família humana. Nada – nenhum objeto, ideologia ou pessoa – nos preencherá se não vivermos uma vida profundamente humana.

Continua…

[divide]

 
Matérias Relacionadas