Por que as preocupações com a economia chinesa não terminaram

Moeda chinesa caiu frente ao dólar, ocultando os problemas subjacentes da economia

Por Daniel Lacalle, economista-chefe da Tressis Management

Uma tarifa de 10% é prejudicial a uma pequena parte da economia. Por outro lado, uma desvalorização de 10% prejudica todos os cidadãos chineses por igual.

A desvalorização do iuane não é uma ferramenta para exportações. Desvalorizações são uma forma de controle de preços e uma redução camuflada de salários. Como tal, eles danificam mais do que pretendem proteger.

Entretanto, com o aumento da dívida de famílias e empresas, a desvalorização do iuane é um tiro no pé da economia, porque o poder de compra está declinando e a capacidade de pagar empréstimos está caindo. É um erro acreditar que uma desvalorização não representa um problema para a dívida contraída em iuanes. As margens caem porque o iuane está desvalorizado, mas os custos não estão diminuindo na mesma proporção.

A maior parte dos custos corporativos — energia, custos fixos, bens importados e serviços — não caem com o iuane, mas aumentam, e a necessidade de capital circulante também aumentou, como vimos nos resultados publicados pela maioria das empresas no Índice Composto de Xangai. Aproximadamente 65% do índice gera rendimentos abaixo do custo do capital, e a maioria das companhias pagam investimentos com dívida adicional, de acordo com a Moody’s, e também torna-se evidente nos resultados publicados no segundo trimestre.

O colapso da dívida

As receitas das famílias também estão em declínio, e a inflação parece subestimada pelas estatísticas oficiais. A maioria das análises independentes situam a inflação real mais perto de 2 pontos percentuais, acima do que os dados oficiais mostram. O custo de vida aumentou muito mais rápido do que a inflação geral sugere, e a desvalorização recente se soma a esse problema, fazendo com que a capacidade de pagar a dívida sofra com uma moeda mais fraca.

Existem muitas razões pelas quais deveríamos nos preocupar com a decisão da China de pôr fim ao seu controle sobre a expansão do crédito. O regime chinês tem incentivado empréstimos de alto risco, reduzindo as taxas de juros para depósitos e injetando liquidez no sistema.

O resgate silencioso que levou o Banco Popular da China a injetar centenas de bilhões de dólares no sistema financeiro não está reduzindo o risco, mas incentivando-o.

A produção industrial também mostra sinais evidentes de desaceleração do investimento fixo.

A bolha imobiliária é claramente uma ameaça, e o crescimento do crédito está perdendo ímpeto.

O aumento da oferta monetária da China excede o crescimento da oferta monetária dos Estados Unidos, enquanto uma parcela significativa de investimento fixo e crédito é atribuída a setores de baixa produtividade, ou gera rendimentos abaixo do custo de capital.

Outra ideia estranha dos analistas externos é que o iuane está “lastreado pelo ouro”, que desaparece rapidamente quando você olha para o total de reservas de ouro em comparação com a oferta monetária. As reservas de ouro representam menos de 0,25% da oferta monetária da China.

Infelizmente, a desvalorização furtiva na China não está tornando o país mais competitivo, mas está fazendo com que a dívida das famílias e das empresas sejam mais arriscadas à medida que o poder aquisitivo do iuane diminui. No entanto, as autoridades parecem considerar isso necessário como forma de impedir que o castelo de cartas da dívida entre em colapso.

As reservas cambiais, por outro lado, permanecem quase 20% abaixo do nível máximo, e o Banco Popular da China abandonou seu objetivo de combater o endividamento excessivo.

Em suma, a desvalorização do iuane não está resolvendo os problemas da economia. Ao manter controles de capital equivocados e evitar as reformas estruturais necessárias, a desvalorização está acelerando os problemas da economia chinesa enquanto prejudica os poupadores, trabalhadores e aposentados do país.

Daniel Lacalle é economista-chefe da empresa Hedge Fund Tressis e autor de “Escape from the Central Bank Trap”, publicado pela editora BEP

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