Por que o livre-comércio não funciona para os trabalhadores, aponta Steve Keen

De acordo com a teoria econômica convencional, o livre-comércio é um vencedor para os países em desenvolvimento e desenvolvidos. Foi assim que os globalistas venderam o NAFTA e a ascensão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) aos norte-americanos e ao mundo, mas suas consequências foram bem diferentes.

Depois de milhões de postos de trabalho perdidos, os trabalhadores americanos frustrados, especialmente nos estados do “cinturão da ferrugem”, como Wisconsin, Ohio e Michigan, votaram por Donald Trump, o primeiro candidato em décadas a se opor à doutrina do livre-comércio.

Mas por que o livre-comércio não funciona? E o que o Presidente Trump pode fazer para reverter o quase completo deslocamento da fabricação americana para o estrangeiro?

A economia convencional não pode responder a estas perguntas. É por isso que o Epoch Times falou com Steve Keen, autor de “Debunking Economics” e professor na Universidade de Kingston em Londres, que foi capaz de oferecer uma explicação e sugestões sobre como Trump poderia reviver a fabricação americana.

Epoch Times: Por que o livre-comércio não funciona como anunciado?

Steve Keen: O ponto de partida da teoria convencional é que você pode aumentar a eficiência especializando-se. Por exemplo, a China é absolutamente melhor em produzir duas coisas, como aço e têxteis, do que os Estados Unidos, mas sua vantagem competitiva é relativamente maior na produção de aço do que nos têxteis.

Assim, de acordo com a teoria convencional, os Estados Unidos deveriam produzir mais têxteis e a China deveria produzir mais aço. Isto resulta num aumento relativo na eficiência e então ambos os países produziriam mais complementarmente se não houvesse livre-comércio.

Eles admitirão que haverá vencedores e perdedores, a indústria siderúrgica nos Estados Unidos sofrerá enquanto a indústria têxtil ganhará. A teoria é que os vencedores compensam os perdedores e há mais para todos.

O autor Steve Keen e seu livro “Debunking Economics” (Cortesia de Steve Keen)

Até mesmo o argumento do economista clássico David Ricardo (1772-1823) sobre vinho e roupas envolveu os trabalhadores de uma indústria perdendo seus empregos. O que os economistas neoclássicos dizem é que os trabalhadores da indústria perdedora podem conseguir um emprego na indústria vencedora.

Então, o que se assume aqui é o pleno emprego, todo mundo que quer um emprego tem um emprego, o que não é o que ocorre no mundo real. E eles também assumem que você pode mover recursos de uma indústria para outra. Os trabalhadores podem treinar, é possível treinar um trabalhador têxtil num trabalhador siderúrgico. Leva tempo, mas pode ser feito.

Além do fato de que a China agora produz mais de tudo, o que não é possível é transformar uma máquina de tecer num forno de aço. E é por isso que vemos o cinturão da ferrugem [outrora conhecido como o “cinturão da indústria” nos EUA]. No caso da China e dos Estados Unidos, as siderúrgicas dos Estados Unidos não se tornarão máquinas de tecer; elas apenas enferrujaram. Então o que vemos é a destruição absoluta dos recursos físicos num país.

Ou eles enviam a capital para o lugar onde os trabalhadores de baixos salários estão, como a China ou o México, e o que você tem é uma redistribuição de renda entre classes. Os trabalhadores no país desenvolvido perdem, os capitalistas naquele país ganham.

Os capitalistas do país desenvolvido ainda possuem a maquinaria e empregam pessoas, mas num país diferente e com salários mais baixos. Em seguida, eles vendem os produtos de volta para os mercados americanos pelos mesmos preços, mas a custos mais baixos. Então eles ganham e a classe trabalhadora tem que financiar seu consumo com maiores níveis de dívida porque eles não têm mais a renda.

Os trabalhadores no país em desenvolvimento também ganham, e isso também é uma transferência de riqueza do país desenvolvido para o em desenvolvimento.

Epoch Times: Como as sociedades ocidentais deixaram que isso ocorresse?

Sr. Keen: A motivação é o lucro, e a questão é se as empresas ou o governo restringirão sua ganância. Você não fará nada se você não se importa com o que os trabalhadores pensam.

Mas numa democracia você chega ao ponto em que os trabalhadores perderam tanto por causa da globalização que eles ficam cansados e irritados ​​de ouvir o conto de fadas que eles não sofrerão e que tudo é para o seu próprio bem. E eles olham para as suas ruas e fábricas decadentes, subempregos e menor participação de renda, e eles dizem: “Quer saber, eu vou votar contra isso.”

E isso é o que estamos vendo globalmente agora com a eleição de Trump e o voto pelo Brexit [a saída do Reino Unido da União Europeia], esta revolta contra a globalização e a concentração desmedida de recursos e poder em poucas instituições financeiras, mercados, etc. Os perdedores absolutos de tudo isso são a classe trabalhadora do primeiro mundo. Os vencedores são as corporações multinacionais.

Exportação Mundial de Mercadorias em trilhões de dólares. (Banco Mundial)

Epoch Times: A maioria dos governos no Ocidente tentou maquilar as perdas de emprego expandindo o estado de bem-estar social. Com a eleição de Trump, no entanto, os trabalhadores não parecem estar satisfeitos com mais beneficência.

Sr. Keen: Sim, os seres humanos obtêm seu senso de autoestima ao contribuir para uma comunidade. Se você é humano e está sendo pago para ficar vivo, você não está particularmente feliz com isso, seu senso de autoestima é muito baixo. Mas se você tem um trabalho e pode contribuir para uma comunidade, é daí que seu sentido de autoestima virá.

Todo este bem-estar social está substituindo o trabalho, o que é o caso nas áreas do cinturão da ferrugem onde as pessoas estão irritadas e ressentidas. O seu senso de valor próprio está sendo ameaçado e eles não se mostrarão satisfeitos com o estabelecimento.

É por isso que Trump tem esse apelo, e eles não se preocupam com ele ser politicamente incorreto. Eles gostam do fato de que ele é como uma granada de mão humana. Eles jogaram a granada de mão humana em Washington.

Epoch Times: Então o que pode Trump fazer para reverter o processo?

Sr. Keen: Depois de ter transferido toda a sua capacidade para o estrangeiro, é muito difícil reverter o processo. Você não apenas perdeu a capacidade industrial, você perdeu a mão-de-obra capacitada também, você não tem mais os engenheiros e designers. Eles costumavam produzir novas versões a cada ano; agora eles se foram.

O que ele pode fazer na frente fiscal é o seu plano para investir em infraestrutura.

Se ele avançar com este programa maciço como ele falou e insistir numa política made-in-America, o que ele fará, então isso fornecerá o financiamento para a reindustrialização ocorrer. Eu não estou preocupado com um déficit potencial, porque ele tem moeda de reserva mundial nas mãos e o Federal Reserve [o banco central dos EUA] pode imprimir tanto quanto for necessário.

Então, se você produzir todos os componentes de infraestrutura nacionalmente, você nem precisa de tarifas comerciais. Em minha opinião, isso não seria um obstáculo ao comércio sob as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), mas isso poderia ser a primeira disputa que ele teria com a OMC.

Porque há demanda do governo e os componentes têm que ser manufaturados nacionalmente, o capital precisa ser investido e trabalhadores treinados para o trabalho. Além disso, você tem o aumento da produtividade por meio da infraestrutura, outro ponto positivo.

Emprego na indústria de manufaturas nos EUA desde que o NAFTA entrou em vigor em 1994. (Federal Reserve de St. Louis)

Epoch Times: E quanto a tarifas?

Sr. Keen: Não será pacífico, e haverá repercussões para as empresas americanas. Trump está acostumado a jogar duro, e agora ele terá que negociar com burocratas e seus patrocinadores corporativos.

Haverá tentativas de controlar o que o Trump faz por meio da OMC e será interessante ver o resultado dessas tentativas.

Epoch Times: E quanto à automação, isso não faz todo o processo de produção nacional ser sem sentido?

Sr. Keen: Parte da motivação para deslocar a produção para o exterior era a mão-de-obra barata. Mas como temos robôs cada vez melhores, você pode ter máquinas que podem ser treinadas para diferentes processos de montagem.

E há a impressão em 3-D, que se popularizou e está crescendo. Então, isso significa que você pode produzir nacionalmente sem mão-de-obra barata. Mas também significa que você pode produzir sem qualquer mão-de-obra.

Numa sociedade humana que funcione bem, isso não seria um problema. O problema num sistema capitalista neoclássico é que os trabalhadores perdem porque sua única fonte de renda é o salário. Se não há mais necessidade de salários, você não tem mais uma renda.

Portanto, temos de pensar num sistema de renda pós-capitalista. Trump se alinha com a direita, mas ele não é um ideólogo do governo pequeno.

A teoria econômica convencional faz você pensar dessa maneira, reduzir o governo tanto quanto possível. Trump não parece pensar assim. Ele parece ser muito mais pragmático em suas atitudes.

 
Matérias Relacionadas