Por que devemos tratar a foice e o martelo da mesma maneira que tratamos a suástica

Duas ideologias igualmente sanguinárias não devem ser tratadas de maneiras radicalmente distintas

Por Richard Mason, Instituto Mises Brasil

Se você pedir a um cidadão comum para pensar nos dois extremos do espectro político, são grandes as chances de que ele irá imediatamente visualizar, de um lado, a suástica e, do outro, a foice e o martelo.

Independentemente de quais sejam suas visões acerca do paradigma esquerda-direita, ou mesmo se ele acredita na teoria da ferradura, este indivíduo (corretamente) irá pensar no fascismo e no comunismo como sendo as duas ideologias típicas dos extremos.

No entanto, e curiosamente, a rejeição a ambos os símbolos não é a mesma.

Ao verem a suástica, as pessoas imediatamente são remetidas aos horrores do regime nazista, com suas perseguições étnicas e seus homicídios sistematizados, e corretamente sentem uma total repulsa. Em vários países europeus, com efeito, ostentar publicamente uma suástica é crime. Dado que os nazistas foram responsáveis pela chacina de cerca de 20 milhões de pessoas, todos nós entendemos quão abominável é esta ideologia e corretamente a tratamos com desrespeito e repugnância.

Porém, como estas mesmas pessoas reagem ao símbolo da foice e do martelo? Em várias ocasiões, há aceitação. Na maioria das vezes, há apenas indiferença. O que leva à inevitável pergunta: por que a ideologia responsável diretamente por centenas de milhões de mortes não recebe o mesmo tratamento que a ideologia nazista?

Um histórico vermelho de sangue

Os atos inomináveis de Adolf Hitler empalidecem em comparação aos horrores cometidos pelos comunistas na antiga União Soviética, na República Popular da China e no Camboja, apenas para ficar entre os principais.

Entre 1917 e 1987, Vladimir Lênin, Josef Stálin e seus sucessores assassinaram 62 milhões de pessoas do seu próprio povo. O ponto de partida foi a Ucrânia, onde, de acordo com o historiador Robert Conquest, o regime comunista foi o responsável direto por 14,5 milhões de mortes.

Já entre 1949 e 1987, o comunismo da China, liderado por Mao Tsé-Tung e seus sucessores, assassinou ou de alguma maneira foi o responsável pela morte de 76 milhões de chineses (há historiadores que dizem que o número total pode ser de 100 milhões ou mais. Somente durante o Grande Salto para Frente, de 1959 a 1961, o número de mortos varia entre 20 milhões e 75 milhões. No período anterior foi de 20 milhões. No período posterior, dezenas de milhões a mais.)

O próprio Mao Tsé-Tung famosamente se gaba de ter “enterrado vivos 46 mil intelectuais“, o que significa que ele os enviou para campos de concentração, onde ficariam calados e morreriam de fome.

No Camboja, o Khmer Vermelho exterminou aproximadamente 3 milhões de cambojanos, em uma população de 8 milhões. Este radical movimento comunista comandado por Pol Pot chegou ao ponto de ter como alvo qualquer pessoa que usasse óculos. Crianças eram assassinadas a baionetas.

No total, os regimes marxistas assassinaram aproximadamente 110 milhões de pessoas de 1917 a 1987. Destes, quase 55 milhões de pessoas morreram em vários surtos de inanição e epidemias provocadas por marxistas — dentre estas, mais de 10 milhões foram intencionalmente esfaimadas até a morte, e o resto morreu como consequência não-premeditada da coletivização e das políticas agrícolas marxistas.

Para se ter uma perspectiva deste número de vidas humanas exterminadas, vale observar que as duas grandes guerras mundiais do século XX, mais as Guerras da Coreia e do Vietnã, mataram aproximadamente 85 milhões de civis. Ou seja, quando marxistas controlam Estados, o marxismo é mais letal que as principais guerras do século XX combinadas.

Os aliados

Ou seja, não é exatamente por falta de conhecimento. Afinal, assim como o Holocausto, os gulags da União Soviética, o Holodomor, os campos de extermínio do Camboja e a Revolução Cultural da China também são bastante conhecidos.

E, ainda assim, vários intelectuais, jornalistas e membros do meio acadêmico seguem orgulhosamente defendendo — e até mesmo fomentando abertamente — ideias comunistas. No Reino Unido, há jornalistas que abertamente apoiam o comunismo. Estátuas de Karl Marx foram erigidas por ocasião de seu 200º aniversário. Mesmo nos Estados Unidos, que sempre foi um dos países mais anti-comunistas da história, há hoje uma estátua de Vladimir Lênin na cidade de Seattle.

Tornou-se aceitável em quase todos os países do mundo (exceto na Polônia, na Geórgia, na Hungria, na Letônia, na Lituânia, na Moldávia e na Ucrânia) marchar sob a bandeira vermelha da ex-União Soviética, estampada com a foice e o martelo.

Para completar, Mao Tsé-Tung é amplamente admirado por acadêmicos e esquerdistas de vários países, os quais cantam louvores a Mao enquanto leem seu livrinho vermelho, “Citações do Presidente Mao Tsé-Tung“.

[N. do E.: no Brasil, o PCdoB, que recentemente disputou a presidência da república como vice na chapa do PT, é historicamente maoísta].

Seja na comunidade acadêmica, na elite midiática, na elite cultural e artística, em militantes de partidos políticos, em agremiações estudantis, em movimentos ambientalistas etc., o fato é que há uma grande tolerância para com as ideias comunistas/socialistas — um sistema (de governo) que causou mais mortes e miséria humana do que todos os outros sistemas combinados.

Logo, por que exatamente duas ideologias igualmente odiosas e violentas são tratadas de maneiras tão explicitamente distintas?

“O comunismo real nunca foi tentado!”

A resposta pode estar no erro de percepção das virtudes.

Os nazistas, corretamente, são vistos como odiosos e malignos porque toda a sua ideologia é construída em torno da ideia de que um grupo é superior a todos os outros. Trata-se de uma ideologia inerentemente supremacista e anti-indivíduo, uma violenta crença que foi colocada em prática apenas uma vez por aqueles que a conceberam.

Sendo assim, simplesmente não há uma maneira justificável e aceitável para um fascista argumentar que “Ah, mas aquilo não era o nazismo verdadeiro…”.

Já o mesmo, aparentemente, não vale para o comunismo. Ao contrário, vemos esse argumento a todo o momento. Aqueles na extrema-esquerda possuem um enorme guarda-chuvas sob o qual se abrigam todos os tipos de estilos comunistas: do stalinismo ao anarco-sindicalismo, passando pelo maoísmo, trotskismo, marxismo clássico ou mesmo pelo socialismo light.

E, dado que Karl Marx nunca implantou ele próprio suas ideias, os líderes dos regimes comunistas sempre usufruíram uma espécie de indulto para praticar suas atrocidades: quaisquer tragédias, descalabros ou crises criadas por regimes comunistas sempre podem ser atribuídas a um “erro” nas aplicações das ideias de Marx, as quais continuam sendo vistas como um mapa infalível para a utopia.

Convenientemente, os defensores desta ideologia sempre têm um passe livre para se descolarem completamente dos horrores do passado. Eles, até hoje, continuam se apresentando como pioneiros e desbravadores de uma ideologia humanitária que simplesmente ainda não teve a oportunidade de desabrochar por completo. “O comunismo de verdade nunca foi tentado!”, gritam eles após cada novo fracasso do comunismo.

Agindo desta maneira, os defensores do comunismo podem, após cada novo fracasso, continuar impavidamente se apresentando como humanitários. Eles estão apenas lutando pela libertação da classe proletária e pela criação de um paraíso dos trabalhadores, arranjo este que nada tem a ver com os fracassos e falsos profetas anteriores. A atual geração de comunistas sempre será aquela que, agora sim, irá implantar o comunismo real, e não as deturpações que foram tentadas antes.

Na pior das hipóteses, tais pessoas são vistas apenas como seres ingênuos, mas ainda assim muito bem-intencionados.

Onde estabelecer os limites?

Este é o cerne da questão. Ao passo que o nazismo sempre esteve intrinsecamente ligado aos crimes de seus adeptos, o comunismo sempre conseguiu se distanciar de suas tragédias. Ninguém toleraria a presença de uma camiseta estampada com Adolf Hitler ou Benito Mussolini, mas a foto do maníaco homicida Che Guevara em camisetas e smartphones é amplamente vista como um símbolo de descolamento e de uma pueril ideia de rebeldia juvenil.

Logo, como estabelecer os limites? A ideologia comunista, em sua forma mais pura, sempre consegue se distanciar de suas efetivas implantações, mas a partir de que ponto seu tenebroso histórico irá conseguir desacreditar quaisquer novas tentativas de implantá-la?

Como disse o economista Murray Rothbard: “Não é nenhum crime ser ignorante em economia, a qual, afinal, é uma disciplina específica e considerada pela maioria das pessoas uma “ciência lúgubre”. Porém, é algo totalmente irresponsável vociferar opiniões estridentes sobre assuntos econômicos quando se está nesse estado de ignorância.”

Temos de dizer o mesmo sobre o comunismo. Continuar defendendo ideias e bandeiras comunistas não obstante o pavoroso histórico desta ideologia não é uma postura nem ingênua e nem muito menos bem-intencionada. A história do comunismo é tão sanguinolenta quanto a do nazismo; aliás, é muito mais sanguinolenta.

É hora de dispensarmos a seus símbolos e a seus defensores o mesmo trato que já dispensamos aos nazistas.

De resto, um lembrete aos esquerdistas, progressistas e socialistas de hoje que se arrepiam com a simples sugestão de que sua agenda pouco difere da dos maníacos nazistas, soviéticos e maoístas: não é necessário defender campos de concentração ou conquistas territoriais para ser um tirano. O único requisito necessário é acreditar na primazia do Estado sobre os direitos individuais.

Richard Mason é freelancer e editor-assistente do site SpeakFreely.today

O conteúdo desta matéria é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Epoch Times

 
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