Por que a China de repente quer reprimir as gangues

O regime chinês anunciou que está tomando medidas significantes para liquidar as gangues e organizações criminosas na China.

As ordens vieram de cima. Durante uma reunião política recente em 11 de janeiro, o líder chinês Xi Jinping deixou claro: “Precisamos combinar a anticorrupção com uma varredura das gangues e a eliminação das forças do mal. Precisamos capturar as organizações relacionadas com gangues e seus protetores por trás delas.”

Em 24 de janeiro, as autoridades centrais enviaram um aviso declarando o esforço para limpar as gangues e seus protetores como “uma das tarefas políticas mais importantes”, e instando a todos os governos e comitês locais do Partido Comunista Chinês a colocarem isso “numa posição proeminente em seus trabalhos”.

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Na semana passada, a mídia estatal chinesa publicou reportagens detalhando como funcionários do alto escalão conspiraram com gangues notórias, uma campanha publicitária para ganhar o apoio público para esta última mobilização do regime.

Mas por que o regime de repente está tão dedicado a essa causa?

‘Estabilidade social’

Por um longo tempo, as gangues têm servido como músculos ou intimidadores contratados quando as empresas se envolvem em disputas ou precisam perseguir alguém que lhes deve dinheiro.

Um exemplo recente capturou a atenção da mídia chinesa. Em 27 de janeiro, o chefe de um hospital na cidade de Langfang, província de Hebei, identificado como sr. Zhang, saltou da janela do seu escritório e morreu. Logo depois, uma nota de suicídio supostamente do sr. Zhang foi divulgada online. O texto detalhava como depois que o hospital, que foi fundado por Zhang, se associou com uma empresa imobiliária local para conduzir operações, os dois lados entraram em disputas sobre finanças e administração hospitalar.

China, Partido Comunista Chinês, crime organizado, repressão, campanha anticorrupção, Zhou Yongkang, Jiang Zemin, gangues - Membros da guarda de honra do Exército da Libertação Popular da China treinam no Palácio Cultural do Povo Trabalhador em Pequim em 1º de janeiro de 2018 (AFP/Getty Images)
Membros da guarda de honra do Exército da Libertação Popular da China treinam no Palácio Cultural do Povo Trabalhador em Pequim em 1º de janeiro de 2018 (AFP/Getty Images)

Zhang escreveu que em outubro de 2017, quanto ele estava a caminho de visitar seus pais, quatro homens mascarados emergiram de um carro e procederam a espancá-lo. No episódio, uma de suas pernas foi quebrada.

Em 31 de janeiro, a polícia local disse ter descoberto que quatro bandidos foram contratados por um sr. Zhao, que por sua vez foi instruído por Yang Yuzhong, o parceiro comercial de Zhang. Yang Yuzhong também é um representante local do Partido Comunista Chinês no Congresso Popular Nacional, o legislativo-carimbo da China.

Ao iniciar uma campanha para limpar as gangues e organizações criminosas, o regime chinês está “mantendo a estabilidade social“, disse Chen Kuide, um estudioso da China e diretor-executivo da Iniciativa China da Universidade de Princeton, durante uma entrevista com a Voz da América (VOA). A expressão é usada para descrever os esforços do regime para erradicar qualquer coisa que possa causar transtorno social ou dissidência contra as autoridades.

As gangues e organizações criminosas e suas atividades violentas podem causar distúrbios públicos, de modo que a suposta repressão do regime pode atuar como dissuasão, disse Chen Kuide.

Polícia corrupta

Gangues e policiais na China geralmente formam uma aliança para beneficiar uns aos outros: as gangues subornam a polícia para fazerem vista grossa sobre suas atividades, enquanto a polícia e as autoridades corruptas podem aliciar ou coagir os membros de gangues a servirem seus interesses.

O regime chinês deu Liu Han como um exemplo proeminente, um grande chefe da máfia na província de Sichuan que foi eventualmente derrubado e executado pelo Estado em fevereiro de 2015. Mas antes da sua queda, ele foi protegido por autoridades do alto e baixo escalão: a agência anticorrupção do Partido Comunista Chinês publicou uma matéria em seu jornal porta-voz em 28 de janeiro, detalhando como as autoridades das agências de segurança pública (essencialmente delegacias de polícia) das cidades de Deyang e Shifang eram frequentemente presenteadas com banquetes e bebidas alcoólicas pela gangue de Liu Han. As autoridades, por sua vez, forneciam armas e munição aos membros da gangue.

China, Partido Comunista Chinês, crime organizado, repressão, campanha anticorrupção, Zhou Yongkang, Jiang Zemin, gangues - Cidadãos observam enquanto policiais permanecem de guarda diante do Tribunal Popular Intermediário de Xianning, onde Liu Han foi julgado na cidade de Xianning, na província de Hubei, centro da China, em 31 de março de 2014 (STR/AFP/Getty Images)
Cidadãos observam enquanto policiais permanecem de guarda diante do Tribunal Popular Intermediário de Xianning, onde Liu Han foi julgado na cidade de Xianning, na província de Hubei, centro da China, em 31 de março de 2014 (STR/AFP/Getty Images)

O maior protetor da gangue foi Zhou Yongkang, o desgraçado ex-chefe de segurança pública chinesa que foi condenado à prisão perpétua por acusações de suborno. Duas outras mídias estatais, o Beijing Daily e a CCTV, publicaram reportagens que explicavam os laços de Zhou Yongkang com Liu Han.

Em 2001, Liu Han primeiramente ganhou o favor de Zhou Bin, o então secretário do Partido Comunista em Sichuan e filho de Zhou Yongkang, comprando o projeto de turismo de Zhou Bin que enfrentava dificuldade por milhões a mais do que ele valia.

Em troca, quando Liu Han quis comprar uma mina em Yunnan, Zhou Yongkang telefonou para o secretário do Partido Comunista em Yunnan em seu favor. Liu Han acabou comprando ações controladoras da mina por um bilhão de yuanes (cerca de US$ 158 milhões).

Liu Han fez a maior parte do seu dinheiro por meio da mineração. Sua empresa de frente, o Grupo Hanlong, era a maior empresa privada da Sichuan. Quando Liu Han desejou remover seu rival comercial, Yuan Baojing, Zhou Yongkang e seu filho Zhou Bin providenciaram as prisões de Yuan Baojing e de seus irmãos. Todos foram condenados à morte em 2006.

Resquícios de um inimigo político

A menção de Zhou Yongkang, o funcionário mais poderoso do regime purgado pela campanha anticorrupção de Xi Jinping, também sugere razões políticas mais profundas para a limpeza das gangues.

Zhou Yongkang era o chefe do Comitê Central dos Assuntos Político-Legislativos (CCAPL), que na época controlava todos os aspectos da aplicação da lei, desde as forças policiais, prisões, centros de detenção até os tribunais, e tinha um contingente e orçamento maiores do que o das forças armadas da China. A limpeza das gangues implica que o regime de Xi Jinping quer eliminar os funcionários corruptos restantes que estavam sob a influência de Zhou Yongkang, de acordo com Xia Xiaoqiang, um comentarista sobre a China. Zhou Yongkang e seu círculo eram particularmente perigosos para Xi Jinping porque planejaram um golpe que permitiria a facção da oposição controlar o Partido Comunista.

China, Partido Comunista Chinês, crime organizado, repressão, campanha anticorrupção, Zhou Yongkang, Jiang Zemin, gangues - Antes de sua sentença de prisão perpétua por corrupção, Zhou Yongkang participa da sessão de abertura do Congresso Popular Nacional do Partido Comunista Chinês em 5 de março de 2012 (Liu Jin/AFP/Getty Images)
Antes de sua sentença de prisão perpétua por corrupção, Zhou Yongkang participa da sessão de abertura do Congresso Popular Nacional do Partido Comunista Chinês em 5 de março de 2012 (Liu Jin/AFP/Getty Images)

A limpeza das gangues será um teste de lealdade dentro da aplicação da lei na China para ver quem ouvirá Xi Jinping. “Em termos institucionais, [a campanha de limpeza das gangues] é como inspecionar e treinar suas tropas”, disse Chen Kuide em sua entrevista com a VOA.

Ele também apresentou a teoria de que as autoridades centrais podem usar a campanha para quebrar as gangues, pois muitas autoridades locais estão enfrentando dificuldades financeiras.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou que a dívida da China totalizaria 2,55 vezes o PIB do país. O economista chinês Dr. Cheng Xiaonong, radicado nos Estados Unidos, estimou que, das 31 províncias e municípios diretamente governados na China, 25 estão submersos em dívida.

Colaborou: Wen Pu, Li Wenhui & Fang Xiao

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