Políticas extremas para a agricultura orgânica ignoram a ciência do solo: ex-cientista do solo do USDA

‘Não precisamos de mais regulamentação, precisamos de mais educação'

Por Ella Kietlinska & Joshua Philipp

Sob pressão de ambientalistas, alguns governos implementaram restrições extremas de fertilizantes nitrogenados que ignoram o tempo necessário para restaurar uma microbiologia do solo degradado, resultando em protestos de alguns cientistas e agricultores que estão vendo os impactos preocupantes de tais restrições.

Segundo o defensor da agricultura orgânica e ex-cientista do solo do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) Kelly Walker, para manter os bilhões de pessoas em todo o mundo alimentadas, é necessária uma mudança rápida para uma abordagem híbrida sobre quaisquer mudanças extremas com base em um número arbitrário. Assim o solo pode ter os muitos anos que ele necessita para fazer a transição dos fertilizantes químicos para um futuro mais orgânico.

Mas, infelizmente, tem havido contínuos conflitos entre alguns ambientalistas com proprietários de terras e produtores que ganham a vida com agricultura e pecuária, sobre a abordagem e extensão a serem adotadas para avançar em direção ao objetivo comum de se tornar orgânico, disse Walker ao programa americano “Crossroads” da EpochTV de Nova Iorque. 

Essa batalha vem acontecendo há muito tempo, disse Walker, que trabalhou com grupos de ambos os lados do conflito. Havia algumas pessoas que estavam dispostas a se encontrar no meio e se comprometer, que trabalharam em alguns problemas e encontraram soluções. Mas ultimamente, disse Walker, algumas visões mais extremistas tem aparecido, “uma espécie de tomada de poder nesta questão”.

“Não podemos alimentar o mundo estritamente com orgânicos”, alertou Walker, citando uma das primeiras coisas que aprendeu na pós-graduação. Alguns grupos ambientalistas estão retratando os fertilizantes químicos como toxinas ou venenos, mas esse não é o caso, disse o especialista.

“É uma questão de como você os gerencia, como você os usa”, então não há necessidade de mudar 100% para o orgânico, acrescentou. “Nitrogênio é nitrogênio. E as plantas o reconhecem como tal”.

É um desafio mudar as grandes fazendas industriais, que operam com pequenas margens de lucro e precisam ser muito eficientes, para a agricultura orgânica em um instante, disse Walker. Uma abordagem amplamente orgânica pode ser bem-sucedida em fazendas menores, acrescentou, mas deve ser gerenciada com cuidado.

Então, para alimentar bilhões de pessoas em regiões limitadas, é necessário alcançar a maior produtividade das áreas cultiváveis. Mudar de uma hora para outra para uma abordagem orgânica em solos pobres em carbono e quase viciados em produtos químicos, não trará sucesso, disse ele.

“Você tem que pensar em coisas como o valor do nitrogênio residual dos orgânicos. Você não pode simplesmente mudar para isso em um ano, você tem que calcular quanto nitrogênio você disponibilizará com produtos orgânicos que você incorpora no Ano 1 e Ano 2.”

“É preciso ter vários anos de valor residual dos orgânicos” para evitar a quebra de safra, explicou.

“Acho que consertar a microbiologia do solo é o primeiro passo”, disse ele, explicando que, para que as plantas em solo rico em orgânicos tenham nutrientes disponíveis, é necessário comunidades saudáveis ​​de micro-organismos.

“Então, mesmo que você queira se tornar orgânico nessas grandes fazendas, você não pode simplesmente cortar o fluxo de repente, você tem que fazer a transição.”

Mantendo a microbiologia do solo saudável

Existem muitos métodos para testar o solo, incluindo apenas medir o PH, ou testes mais detalhados para identificar problemas (kram-9/Shutterstock)

Para restaurar a saúde do solo, são necessárias comunidades microbianas saudáveis ​​de bactérias, fungos, algas e outros organismos, juntamente com programas de conservação. Estes, gerenciam a restauração, disse Walker.

A implementação desses programas exige um bom planejamento e profissionais com experiência, disse ele. Existem especialistas estaduais e federais como o USDA.

Walker também apontou para os esforços privados: “[Existem] muitas fazendas, que fizeram muito progresso nessa direção, que estão implementando programas de conservação, e isso faz parte do alcance do nosso governo para ter reservas de conservação”.

Os agricultores se preocupam muito com o solo, e aqueles que têm os meios, investem muito dinheiro na conservação, disse ele. “Eles não querem viver em uma região de seca. Eles não querem viver em uma área degradada.”

Os primeiros passos que os agricultores usam para aumentar o conteúdo orgânico em seus solos empobrecidos, é adicionar compostos orgânicos ou cultivar alfafa, que Walker chamou de “adubo verde”. Eles então determinam quanto nitrogênio extra qualquer planta precisaria, dada sua saúde microbiana atual.

“A parte orgânica está sendo decomposta e mineralizada pelos micro-organismos do solo para então, torná-la disponível para as plantas. E então, se isso não for suficiente para as plantas, podemos colocar mais nitrogênio, e as plantas ficam felizes, mas não matamos o solo”, disse ele.

Políticas agrícolas precisam de descentralização

Walker disse que o progresso está sendo feito na conservação do solo. Mas alguns grupos agora decidiram ir “ao extremo – simplesmente não podemos fazer essa transição tão rapidamente”.

Se essa tendência continuar em mais fazendas, “podemos ter quebras de safra, podemos ter tempestades de poeira, como vimos nos anos 30, na minha opinião”, disse ele.

“Você não pode simplesmente dar uma cura geral para o mundo ou para uma nação ou mesmo para uma região porque os solos variam em suas propriedades. Variam nas porcentagens de matéria orgânica, nos tipos de solos, lodo, argila”, ele alertou. “Não precisamos de mais regulamentação, precisamos de mais educação.”

Políticas baseadas em ideologia em vez de ciência são problemáticas, acrescentou. “Queremos evitar a contaminação de nossos sistemas hídricos, queremos ter solos saudáveis, mas você não sai apenas com uma ideologia sem saber com o que está lidando.”

Walker aconselha os formuladores de políticas a consultarem primeiro as “pessoas muito talentosas e conhecedoras” das universidades e faculdades americanas.

“Precisamos de menos centralização … e precisamos trabalhar com as faculdades locais de agronomia, USDA,  profissionais que sabem o que estão fazendo.

“Quanto mais centralizamos, quanto mais entramos na burocracia, menos realistas seremos na área. Você não pode necessariamente definir valores ou referências arbitrárias.”

“Muitos de nossos agricultores estão sufocados agora. Eles estão enfrentando os custos da gasolina e tudo mais e estão pendurados por um fio. Então eu acho isso muito preocupante”, disse.

Walker disse que é bastante óbvio que “há um plano se desenrolando. Não é coincidência. Todas essas coisas estão ligadas entre si. E se seguirmos esse caminho, acho que poderá levar à fome. Acho que tem gente que quer isso; há pessoas que gostariam de reduzir significativamente a população do planeta. E eu acho que é uma maneira muito fria de ver isso.

“Isso deixa muito progresso por fazer e oferece uma abordagem de ‘tamanho único’ que nem mesmo será boa para o planeta.”

A abordagem do Sri Lanka

Um agricultor prepara um arrozal para semear em Biyagama, nos arredores de Colombo, Sri Lanka, em 21 de outubro de 2020 (Ishara S. Kodikara/AFP via Getty Images)

A ​​agricultura no Sri Lanka tem sido basicamente um grande estudo de caso para o que pode acontecer se os agricultores forem forçados a mudar para a agricultura orgânica imediatamente, disse Walker, que passou um ano ensinando no Sri Lanka. “Este é um canário na mina de carvão”, disse ele sobre o país que baniu subitamente o uso de fertilizantes químicos em abril de 2021.

“Fazer uma mudança tão rápida – há enormes problemas com isso”, disse ele. “Todos nós queremos ajudar o planeta. Mas se você vai tomar decisões políticas com base no idealismo, ou algum tipo de utopia que você está tentando criar, você vai criar grandes problemas.”

Walker disse que os especialistas em solo podem trabalhar com os agricultores para tentar ajudá-los a desmamar seus solos dos fertilizantes sintéticos. “Mas, novamente, eu realmente questionaria se podemos alimentar uma população tão grande apenas com orgânicos”, disse ele sobre o plano do governo.

“Se você tivesse a maioria das pessoas no Sri Lanka possuindo de cinco a dez acres, sim, talvez pudéssemos fazer isso. Mas, na maioria das vezes, isso seria apenas para se alimentar, não teriam o suficiente para exportar para outros países por causa do orçamento nacional, você provavelmente precisa de algum fertilizante suplementar  [além] dos orgânicos.”

Ele acrescentou: “Se tivéssemos que cortar isso nos EUA, acho que seria desastroso. Acho que veríamos fome. Acho que veríamos escassez de alimentos”.

Leva um tempo para recuperar a matéria orgânica e os micro-organismos necessários nos solos, disse ele.

 

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