Política chinesa do filho único deixa legado de problemas sociais

Envelhecer na China ficou mais difícil. A política do filho único deixou a China com muito menos jovens para cuidar do número crescente de idosos.

O distrito de Rudong, situado na província de Jiangsu, é um ótimo exemplo para analisar o impacto da política do filho único, pois a medida, que tinha como objetivo reduzir o crescimento da população, foi implementada neste distrito antes de qualquer outra região da China.

A forma como a política do filho único tem tornado a vida mais difícil para o crescente número de cidadãos idosos na China é cada vez mais evidente em Rudong, e foi demonstrada num artigo recentemente publicado sobre os idosos das regiões rurais.

Wang Yinyin, de 28 anos, é casada e mãe de um filho em Rudong. Segundo um artigo publicado no jornal Southern Weekly, há 18 familiares de cinco gerações diferentes vivendo debaixo do seu teto.

Dos 18 familiares, 13 deles têm mais de 50 anos, e apenas quatro são jovens adultos. A distribuição de idades assimétrica originou-se devido à atual política do governo que permite aos casais ter somente um filho. Esta política tem sido implementada na China através de medidas draconianas, incluindo multas pesadas, esterilização forçada e abortos forçados.

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Zhu Xuezhen, de 92 anos, é a mais velha na casa de Wang. Ela está acamada desde o ano passada, e as suas filhas, ambas com mais de 70 anos, revezam-se para cuidar da mãe.

Os oito membros da terceira geração são responsáveis por ganhar o sustento da família. Eles irão se tornar o maior fardo para seus descendentes daqui a uma ou duas décadas.

A quarta geração é a que nasceu durante a década de 1980. Como consequência da política do filho único, eles estão no auge de suas vidas e trabalham duramente. Wang Yinyin é uma delas. A quinta geração é a filha de Wang. Tem somente 4 anos.

Wang diz que é responsável por cuidar de oito membros mais velhos da família, incluindo os parentes de seu marido. Por enquanto, este trabalho é partilhado. Pertencente a uma família numerosa onde mais de doze pessoas vivem e comem sob um telhado, os mais novos contam com os idosos para tomar conta deles para que os jovens possam trabalhar e ganhar a vida.

Condado de Rudong

O professor de Demografia e Ciências Sociais da Universidade de Nanjing, Chen Youhua, declarou ao Southern Weekly que “O planejamento familiar na China começou na década de 1970, e a política do filho único começou na década de 1980. O planejamento familiar em Rudong iniciou-se da década de 1960. Na década de 1970 os seus habitantes já tinham uma baixa taxa de fertilidade, e na década de 1980 estritas normas de planejamento familiar foram aplicadas”.

De acordo com as autoridades do condado, a população de Rudong envelheceu 20 anos à frente do resto da China.

O crescimento negativo da população iniciou-se em 1997 e durou por 18 anos. Os números mostram que ao final de 2013, a população registrada residindo em Rudong era de mais de 1 milhão, um decréscimo de 2.200 pessoas em relação ao ano anterior. O crescimento de população natural da região foi de 3.62% negativos.

Muitos idosos que ficam em casa são encarregados de tomar conta dos netos, enquanto os membros da família que são trabalhadores migrantes têm de partir para trabalhar.

O vice diretor da agência dos assuntos civis do condado de Rudong, Cui Hongxia, afirmou no fim de 2014 que 29% da população de Rudong tinha mais de 60 anos de idade, significando uma população com mais de 280 mil idosos. De acordo com a convenção internacional, quando mais de 10% da população tem 60 anos de idade ou mais, a população é classificada como sendo “velha”.

Atualmente existem 8.400 idosos em Rudong que se qualificam para ser admitidos em casas de repouso. Contudo, a maioria das mais de 4 mil camas das 14 vilas de Rudong está vazia. A maior parte dos idosos não consegue arcar com os custos.

Tendência nacional

Ainda que Rudong tenha envelhecido mais rapidamente do que qualquer outra parte da China, a tendência em Rudong dificilmente é caso único.

Zhang Xiong, reitor do Departamento de Humanas da Universidade de Finança e Economia de Xangai, realizou uma investigação em larga escala sobre as condições de vida dos idoso na área rural na China, de forma a melhor compreender o crescente fardo social imposto pelos cidadãos mais idosos. Um relatório com as conclusões da investigação foi publicado no dia 21 de abril durante um seminário na universidade.

Uma equipa visitou 731 aldeias em 31 províncias, e coletaram dados baseados nos mais de 10 mil questionários que realizaram.  Os idosos foram questionados sobre assuntos relacionados à saúde, às finanças, à vida social e ao acesso a serviços.

O relatório demonstra que a vasta maioria dos idosos da China são cuidados pelas suas crianças, mas a incidência dos idosos que se encontram sozinhos, sem outros adultos, tem aumentado.

A nível nacional, só cerca de 19% dos lares rurais são mantidos por idosos.

Muitos idosos que vivem em casa não estão aposentados, e ao invés disso, são responsáveis por tomar conta dos netos, pois os pais das crianças são trabalhadores migrantes e precisam morar em outros locais da China. Doze por cento dos domicílios são mantidos por uma criança e um familiar ou familiares idosos.

O rendimento limitado, a necessidade de serviços médicos e cuidados de saúde acessíveis, e a falta de apoio emocional dos membros familiar estão entre os principais e mais proeminentes problemas relatados pelos cidadãos idosos das regiões rurais.

O professor Lu Feiyun organizou e orientou equipes de estudantes para realizar pesquisas na zona suburbana de Xangai, no distrito de Qingpu.

“Os problemas são bastante semelhantes, independentemente das províncias”, disse Lu ao Shangai Daily. “Nós esperávamos que a vida dos idosos das regiões rurais fosse muito melhor do que nas cidades como Xangai, mas os resultados foram exatamente o oposto. Tirando o valor mais alto de suas pensões, as pessoas das zonas rurais que moram em algumas aldeias de Shangai não vivem melhor do que as de outras províncias.”

Cerca de 68% do apoio financeiro dos idosos vem dos seus filhos, de acordo com o relatório. O sistema rural de pensões, o rendimento da terra e a poupança são as outras três mais importantes fontes de recursos financeiros.

Enquanto muitos obtiveram apoio financeiro de diversas fontes, para a maior parte, a quantidade de dinheiro obtida de cada fonte foi relativamente baixa. Somente 9.9% dos entrevistados disseram receber mais de 300 yuans (U$ 48) por mês dos seus filhos. Muitos declararam receber apoio financeiro irregularmente.

O relatório menciona que enquanto o sistema de pensões rurais está se deparando com problemas de sustentabilidade, a terra é o bem mais precioso da população rural envelhecida.

A terra agrícola na China não é propriedade dos indivíduos, mas do Estado. Os investigadores recomendam que o direito de possuir terra e de transferir a propriedade dos terrenos aos agricultores deve ser desenvolvido. A terra pode assim contribuir para que a pensão dos agricultores das zonas rurais seja sustentável.

 
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