A polêmica sobre o sal

Especialistas em saúde pública alertam para décadas de morte prematura devido à grande ingestão de sal. No entanto, o consumo de sal pelos norte-americanos permanece bem acima dos limites recomendados. Enquanto isso, um número crescente de pesquisas sugere que a restrição de sal pode realmente causar doenças.

Centenas de estudos têm sido feitos sobre o sal, mas pesquisas conflitantes podem, na realidade, gerar um cenário de dúvidas. O componente-chave deste debate salgado é o sódio – mineral que compõe 40% do sal de mesa (o resto é o cloreto).

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O sódio é vital para a saúde – nenhum cientista contesta isso. Mas a boa saúde é uma questão de equilíbrio e o argumento científico em relação ao sódio é uma questão de dosagem.

A maioria dos americanos consome cerca de 3,4g de sódio (cerca de 1,5 colher de chá de sal de cozinha) por dia. Organizações de saúde pública recomendam entre 1,5g e 2,3g por dia, dependendo dos fatores de risco geradores de doença.

Segundo o Salt Institute (Instituto do Sal) – organização sem fins lucrativos dedicada a tudo o que diz respeito ao sal -, o consumo de duas colheres de chá de sal por dia, de fato, é bastante seguro. Na verdade, eles alertam que as restrições de sódio com menos de 2,6g por dia podem realmente diminuir a expectativa de vida e a função cognitiva, aumentando os riscos de doenças, tais como diabetes, ataques cardíacos e derrames.

Apesar de um crescente apelo para se reconsiderar as restrições de sal, o Centers for Disease Control – CDC (Centros de Controle de Doenças) -, a American Heart Association e outras organizações de saúde mantiveram-se comprometidas com as suas orientações padrão e com a atual campanha da utilização de menos sal no fornecimento de alimentos.

A influência da Indústria do Sal

Em um esforço para ajudar nutricionistas a distinguirem a ciência, a consultora em nutrição e autora, Dra. Janet Brill, estará dando um webinar, no dia 3 de maio, intitulado “Salt: Shaking Out Fact from Fiction.” (“Sal: o que é fato e o que é ficção.”)

De acordo com Brill, o Salt Institute é a principal fonte de confusão. Ela diz que eles intencionalmente criam dúvidas no consenso científico para promoverem sua agenda pró-sal.

“O Salt Institute é, basicamente, o Tabaco Institute reencarnado”, disse ela. “É uma máquina de propaganda muito poderosa.”

Brill aponta um estudo publicado em abril de 2014 no American Journal of Hypertension (Jornal Americano de Hipertensão). O estudo chamou muito a atenção porque os pesquisadores identificaram uma nova margem segura de consumo de sódio que seria entre 2,645g e 4,945g por dia, mas Brill não está convencida.

“Ele foi escrito por Michael Alderman que é, por incrível que pareça, o editor da revista e, além disso, ele também é membro do conselho consultivo do Salt Institute desde 1996″, disse ela. “Fala sobre um conflito de interesses.”

Risco de doença cardíaca

De longe, o maior problema de saúde associado ao consumo de sódio é a alta pressão sanguínea – uma ligação que tem sido observada por mais de 100 anos. Como a pressão arterial elevada é um grande fator para a doença cardíaca, e uma vez que a doença cardíaca é de longe a doença número um do mundo na causa de morte prematura, a lógica conclui que a restrição de sal salva vidas.

No entanto, o quanto o consumo de sal realmente influencia a doença cardíaca é um grande ponto de discórdia.

Alguns dizem que a correlação é muito tênue, devido ao fato de alguns estudos revelarem que não há sinais de hipertensão relacionados com o consumo de sal. Na verdade, o álcool, a obesidade e a falta de frutas e vegetais frescos são as influências mais bem estabelecidas relacionadas à pressão arterial elevada.

Brill, no entanto, considera o sal “um veneno lento.”

“Manter um alto consumo de sal por um longo período, algo que a maioria dos americanos faz, irá afetar o seu corpo mais do que somente uma pressão arterial elevada. É prejudicial para os seus órgãos “, disse ela.

Cultura do sal

O Epoch Times entrou em contato com um representante do Salt Institute, no intuito de realizar uma entrevista, mas não recebeu nenhum retorno até o momento da publicação deste artigo. A idéia deles de que o sal é um tempero saudável e benéfico é atraente porque apela tanto para o nosso sentido do paladar, como para a cultura.

Em grande parte da história humana, o sal sempre foi considerado uma substância preciosa. O sal não apenas confere um sabor salgado à comida, como também impede a produção de bactérias. Até a chegada da refrigeração moderna, o sal foi considerado o principal método mundial de conservação de alimentos.

Alguns especialistas em saúde sugerem que é a qualidade do sal a grande responsável por desencadear problemas de saúde. O entendimento é que culturas antigas consumiam sal com um espectro de minerais além de sódio e cloreto. Enquanto isso, o sal moderno – que tem sido desprovido de seu complexo de mineralidade, branqueado e misturado com agentes antiaglomerantes que o deixam livre de cristais – é a verdadeira causa da doença.

Brill não compra esta idéia.

“Sal é sal. É o sódio que é o vilão. Qualquer tipo de sal – sal do mar, sal do Himalaia -, não é um alimento saudável”, disse ela. “Você pode conseguir os seus minerais de alimentos saudáveis e não de sal, pelo amor de Deus.”

Diminuindo o sal

Pode-se nunca tocar no saleiro, mas ainda assim ingerir muito sal; isso acontece porque cerca de 80% do consumo americano de sal vem de restaurantes e alimentos processados.

Este ano, o Food and Drug Administration (FDA) dos EUA vai dispor orientações para os fabricantes de alimentos, para voluntariamente diminuirem o conteúdo de sal, mas algumas organizações de saúde pública sentem que uma ação mais drástica é necessária. De acordo com o Center for Science in the Public Interest – CSPI (Centro de Ciência do Interesse Público), as empresas teriam que reduzir o sódio pela metade para que as pessoas possam alcançar a recomendação de 2,3g por dia e em 70% para que outros produtos possam atingir a ingestão diária de 1,5g.

Essas reduções enormes não são susceptíveis de acontecer sem a intervenção do governo. Mas alguns profissionais de saúde temem que, se eles não podem usar o sal, as empresas de alimentos dos EUA poderão simplesmente recorrer à produtos químicos de bioengenharia para atender às expectativas dos consumidores.

A melhor estratégia pessoal para reduzir o consumo de sal envolve fazer sua própria comida com ingredientes frescos. No entanto, se você está acostumado a um alto nível de sal, qualquer quantidade inferior vai parecer sem graça e nada convidativa.

Brill diz que temos de treinar nossas línguas a aceitarem menos sal. Ela defende cozinhar com temperos fortes para compensar a falta de salinidade.

“Molho de tomate comercial é basicamente água do mar. Eu faço um molho de tomate incrível em casa, e eu uso um monte de ervas, cebola e alho “, disse Brill. “Isso lhe dá sabor sem sal”.

Fatos salgados

De acordo com o CDC, quase a metade do sódio que se come a cada dia vem de apenas 10 tipos de alimentos.

O sal era tão valorizado nos tempos antigos que ele até foi usado no comércio como moeda. Em alguns casos, o sal era bastante restrito, para proteger monopólios de sal lucrativos. Leis opressivas com relação ao sal provocaram a Revolução Francesa e o fim do domínio britânico na Índia.

Enquanto o sódio aumenta a pressão arterial, o potássio diminui. Especialistas dizem que uma dieta rica em potássio pode ajudar a equilibrar alguns dos efeitos nocivos do excesso de sódio. Feijão branco, espinafre e abacate são excelentes fontes.

 

Conan Milner, Epoch Times

 
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