Plano chinês para conter queda das ações é gatilho para depressão econômica

Em julho, o mercado de ações chinês sofreu seu pior desempenho mensal em quase seis anos, devido a pesada intervenção de Pequim para conter as perdas da bolsa, o que gerou nos investidores mais dúvidas dos que respostas.

O ‘Shanghai Composite Index’ caiu 10% na semana passada e 14% no mês de Julho, a pior perda mensal desde agosto de 2009.

Mas isso não conta toda história, pois o mercado tem sido assolado por uma maciça volatilidade.

A queda de 32% entre 12 de Junho e 08 de Julho precedeu medidas desesperadas do Partido Comunista Chinês para conter perdas, incluindo amparo financeiro a empresas, proibição da venda de curto prazo e instrução aos fundos estatais para adquirir blocos de ações. Com isso, o ‘Shanghai Composite’ subiu 18% em 23 de julho. Entretanto, a falta de confiança na capacidade de Pequim em gerir os mercados e a incerteza sobre futuras políticas econômicas resultaram em elevada volatilidade.

Apesar da onda de vendas, as ações chinesas ainda estão sobrevalorizadas. A proporção mediana preço-lucro das ações na ‘Shanghai Composite’ é de cerca de 40, mais que o dobro da mesma taxa no Índice S&P 500.

Fuga dos bancos

Existem tópicos sobre as recentes oscilações da bolsa chinesa que os investidores devem levar em consideração.

Primeiro é que o setor financeiro chinês deve ser evitado, especialmente os grandes bancos. Segundo é que o sistema bancário como um todo enfrenta dois obstáculos enormes: os bancos chineses estão absorvendo os riscos financeiros da bolha do mercado de ações, estando ao mesmo tempo sendo espremido por um ambiente de baixa taxa de juros.

A Comissão Regulatória de Valores Mobiliários Chinesa disse na semana passada que os recentes esforços para reforçar o mercado de ações foi em parte para combater o “risco sistêmico” da queda dos preços das ações. Mas não foi mencionado que essas ações criaram um gigantesco risco sistêmico no sector bancário da China.

A Reuters relatou em 28 de julho que os bancos chineses estavam tentando “se familiarizar com a exposição financeira ao mercado de ações.” Isso significa que estão tentando avaliar a quantidade de empréstimos dados a empresas do mercado cinza, tais como bancos menores, sociedades gestoras de patrimónios e empresas de financiamento e auditoria.

O volume de empréstimos interbancários chineses saltou no primeiro semestre de 2015, apontam dados da ‘J.Capital Research Ltd.’. Em junho, os acordos repo total (acordo de revenda) e acordos de repo reverso atingiram 41 trilhões de yuans (cerca de U$ 6.600 bilhões), um aumento de 19 milhões de yuans, ou 86%, a partir de janeiro. Repos são essencialmente empréstimos de curto prazo entre empresas garantidos por títulos.

Há uma falta de transparência sobre o ponto onde os fundos se esgotaram, mas a provável resposta foi através do custo marginal de financiamento do mercado de ações.

O Banco Popular da China vai pressionar ainda mais o setor bancário com cortes de juros este ano, o que vai diminuir a margem líquida de juros, ou a diferença entre a taxa de empréstimo de um banco e os juros auferidos sobre os empréstimos.

Oportunidades no deslocamento de curto prazo

Por enquanto, Pequim garante que manterá o apoio ao mercado e inibirá vendedores de curto prazo e outros envolvidos em “atividades comerciais suspeitas.” As autoridades também recebeu garantias de corretoras e gestoras de ativos controlados pelo Estado que manterão a compra de ações até que o ‘Shanghai Composite’ atinja 4.500, que é 18% maior do que a avaliação de 31 de julho.

As autoridades chinesas equiparam mercado em alta a estabilidade social, o qual no momento é um dos pontos de maior insegurança do regime comunista. Portanto, é provável que Pequim sacrifique qualquer reforma de longo prazo, prezando a estabilidade de curto prazo do mercado.

Ainda fica a questão de como o mercado – especialmente os investidores de varejo – reagirão a esses eventos. Para comerciantes experientes, a volatilidade e o deslocamentos do mercado às vezes pode ser de grande valor.

Durante a queda do mercado de ações em julho, uma grande quantidade de transações na Bolsa de Shangai foram interrompidas durante dias, se não semanas. Isso criou grandes deslocamentos de valor relativo entre as empresas e os setores, o que pode ser lucrativo no curto prazo.

As recentes oscilações do mercado “criaram dispersão significativa das lacunas entre os fundamentos subjacentes e as valorizações em todos os mercados”, disse Robert McConnaughey, chefe global de pesquisa da ‘Columbia Threadneedle Investments’.

“Para investidores pacientes com recursos e destreza para pesquisar e investigar esta situação, existem oportunidades interessantes neste período ‘de confusão’”

Sombras de 1929

No longo prazo, existem muito poucas opções de investimento no mercado de ações, a menos que o regime comunista chinês mude sua política. O mercado financeiro têm perdido toda credibilidade mesmo com as iniciativas dos últimos anos do líder, Xi Jinping, em tentar diversificar e reformar o mercado financeiro da China.

O modus operandi habitual de Pequim é sustentar e socorrer qualquer setor importante a economia. Este gigante incentivo para jogar no risco é alimentado pela alavancagem excessiva e dívidas de corporações e governos.

Para dar uma chance da bolsa chinesa sobreviver no longo prazo, Pequim deve mudar completamente suas políticas econômicas.

“O papel do Estado como regulador para manter padrões e mitigar riscos não deve por pressão para aumentar os preços de ações campeãs”, escreveu Yukon Huang do ‘Carnegie Endowment’ e ex-diretor do Banco Mundial para região China.

“Para que isso aconteça, o papel e a responsabilidade dos altos funcionários das Agências Reguladoras, como a CSRC precisa ser claramente independente do domínio do partido, para assim fornecer garantias de que seu mercado de ações são realmente concretos.”

Os mercados da China não são mercados impulsionados pela oferta, demanda e economia de base… e é aí que mora o problema. Ao invés de deixar o mercado se autocorrigir e promover padrões de crescimento saudáveis, o regime considera que sua economia – desde o mercado imobiliário até empresas estatais, de bancos ao mercado de ações – é uma estrutura “grande demais para falir”.

O diretor de investimentos Scott Minerd, do ‘Guggenheim Partner’s escreveu na semana passada: “Se as autoridades chinesas não alterarem rapidamente o curso das coisas, o mercado de ações pode ser mergulhado em uma situação semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos em 1929.”

 
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