Paquistão permite que a China use Karachi para experimentos nucleares

Como se Karachi não tivesse problemas suficientes. Sendo já “de longe a megacidade mais perigosa do mundo”, escreve Taimur Khan na Foreign Policy (FP). Devido, em grande parte, aos ataques sunitas sobre os xiitas, sua taxa de homicídios é “25% maior do que qualquer outra grande cidade”. Agora, com a inauguração de duas novas usinas de energia nuclear e todos esses elementos juntos, o que poderia dar errado?

Na verdade, mais do que se poderia pensar e por razoes além dos limites dos riscos inerentes da energia nuclear, em 16 de dezembro, os físicos A.H. Nayyar, Pervez Hoodbhoy e Zia Mann soaram um alarme na mídia Dawn do Paquistão. Parece que as usinas foram compradas e estão sendo projetadas e construídas pela Corporação Nacional Nuclear da China (CNNC). Considerando o quão disfuncional é o Paquistão, não deveríamos ficar felizes que não sejam eles a desenvolver as usinas, mas sim os hipereficientes chineses? Uh, não necessariamente. Os autores explicam.

“O que as pessoas podem não saber é que os reatores serão baseados num design… que ainda está em desenvolvimento pela empresa chinesa de energia nuclear. De fato, os paquistaneses estão comprando reatores para Karachi que até agora só existem no papel e em programas de computador – não há reatores operando na China com base neste projeto.”

Nem há na verdade um design. Nayyar et al continuam: “Foi noticiado em abril de 2013 que a CNNC… tinha completado um ‘relatório de análise preliminar de segurança’ e estava ‘trabalhando no projeto de construção’. Isso significa que até agora não há sequer um projeto completo.”

Em outras palavras: “Como os novos reatores de Karachi serão os primeiros do tipo, ninguém sabe o quão seguro eles serão ou quão bem funcionarão… As 20 milhões de pessoas de Karachi estão sendo usadas como objetos de estudo num gigante experimento de segurança nuclear.”

E se esse experimento falhar? “Um estudo preliminar de um dos autores descobriu que a nuvem de material radioativo que poderia ser emitida num acidente nuclear grave poderia ser carregada para leste pelos ventos sobre a cidade, envolvendo as áreas mais populosas de Karachi.”

Além disso: “Não há informação sobre as condições de fornecimento do combustível nuclear, como quanto tempo o combustível nuclear usado, que é altamente radioativo e muito quente, permanecerá no local e como será armazenado com segurança até que seja retornado à China, se é que será retornado.”

Os autores nos lembram de que não só foram gastos recursos monumentais no desastre de Fukushima, mas que o custo de sua “limpeza até agora foi estimado em cerca de US$ 100 bilhões e poderia eventualmente ser muito maior”. Talvez o pior de tudo:

“Uma análise realizada há dois anos, em 2011, pela revista científica Nature e pela Universidade de Colúmbia, em Nova York, mostrou que o local do reator nuclear em Karachi tem mais pessoas vivendo num raio de 30 quilômetros do que qualquer outro local no mundo. [Mas] não há informações sobre que planos de emergência, incluindo uma possível evacuação, foram elaborados como parte da preparação para estes grandes novos reatores ou se tais planos sequer existem.”

Uma consequência especialmente perniciosa da falta de um plano de evacuação: “Espera-se um pânico em massa, com as pessoas decidindo salvar a si mesmas e a suas famílias da melhor forma que puderem, obstruindo as estradas e atrasando a fuga de outros mais perto dos reatores.”

Em outras palavras, sem um plano de evacuação, como nos Estados Unidos, especialmente para os reatores como Indian Point, que fica fora da área metropolitana de Nova York (a 10 quilômetros de onde eu vivo), aqueles em maior perigo seriam os últimos a serem evacuados, se é que ainda poderiam ser resgatados.

É ruim o suficiente usar a população de Karachi como ratos de laboratório ou cobaias, mas, em caso de emergência, resta pouca escolha a qualquer um nesta situação senão se espalhar como baratas do que esperar qualquer auxílio estatal.

 
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