Publicado em - Atualizado em 03/10/2017 às 19:14

A origem ‘Frankenstein’ do BRICS e seu futuro obscuro — Parte II

De forte instabilidade molecular, o íon 'BRICS' não existe na natureza

Representantes dos países membros do BRICS chegam para uma sessão plenária em 4 de setembro de 2017 durante a Cúpula do grupo em Xiamen, na China (Tyrone Siu/AFP/Getty Images)

Representantes dos países membros do BRICS chegam para uma sessão plenária em 4 de setembro de 2017 durante a Cúpula do grupo em Xiamen, na China (Tyrone Siu/AFP/Getty Images)

O que o BRICS representa na política internacional? Então, estaria o BRICS personificando a derrocada do ‘centro’ e abrindo caminho para os demais emergentes? Não, longe disso. Certamente, o sucesso econômico de seus países membros em tempos de recessão deram esperança aos demais países subdesenvolvidos; porém, os cinco países do bloco não tinham pretensão de ser esse “porta-voz”, mas, em vez disso, de aproveitar o destaque dos demais membros para ganhar margem de barganha para os próprios interesses de inserção internacional.

Estaria o BRICS personificando a derrocada do ‘centro’ e abrindo caminho para os demais emergentes? Longe disso

Tinham a pretensão de aproveitar o destaque dos demais membros para ganhar margem de barganha para os próprios interesses de inserção internacional

Veja o caso peculiar da Rússia, que sempre teve poder de barganha em relação aos países desenvolvidos (muito em função do poderio militar e da influência na agenda de segurança internacional — o que será abordado a seguir), mas que nunca demonstrou solidez no aspecto econômico além do fato de ser a principal fornecedora de energia (petróleo e gás natural) para a Europa ocidental. A presença da Rússia tanto no G-8 quanto no BRICS demonstra suas pretensões em se firmar também como potência econômica, mas após o duro baque tomado na crise de 2008, a economia russa se enfraqueceu e o país recorreu então à onda dos emergentes para “retomar” o status de superpotência. Nota-se, daí, que a Rússia busca “voltar” ao “clube do centro”, e não “entrar”, condição que já a distingue dos demais emergentes e certamente a descredencia para ser “a voz” dos países subdesenvolvidos. Vale lembrar que a Rússia terminou expulsa do G-8, logo após ter anexado a Crimeia em 2014, e desde então o grupo é G-7, novamente.

Rússia sempre teve poder de barganha, mas nunca demonstrou solidez no aspecto econômico além de ser a principal fornecedora de energia para a Europa ocidental

A Rússia tanto no G-8 quanto no BRICS demonstra suas pretensões em se firmar como potência. Após a crise de 2008, recorreu aos emergentes para retomar o status, condição que a descredencia para ser “a voz” dos países subdesenvolvidos

Evidente que no discurso do BRICS também se confirma a persuasão dos demais países em desenvolvimento, o que é natural, considerando suas necessidades de exportar (em especial a China); porém, é precipitado assumir que há uma “causa maior”, que transcenda os limites dos interesses nacionais. Os demais países que “pegam carona” com o BRICS também estão cientes disso, e mantêm relação apenas no âmbito comercial, depositando suas aspirações políticas em outras instâncias.

A atuação política dos cinco membros do BRICS no G-20 difere muito entre si

Esse fato fica claro ao se analisar a composição do G-20, fórum internacional do tradicional “clube do centro” mais os principais emergentes (não confundir com o ‘G-20’ dos países subdesenvolvidos). Além de todos os países do então G-8 e do atual BRICS, o G-20 conta com Austrália, Coreia do Sul, Turquia, Arábia Saudita, México, Indonésia, Argentina e a União Europeia. A atuação política dos cinco membros do BRICS no G-20 difere muito entre si, e não reflete a “organicidade” frequentemente atribuída ao grupo. Isto se deve ao fato de que há claras diferenças entre os cinco países, em especial em relação às posturas individuais quanto à estratégia de se juntar ao ‘centro’: no tocante ao status no “tabuleiro” político internacional, China e Rússia destoam nitidamente de Brasil, Índia e África do Sul, e isso se deve à posição dos dois primeiros como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A briga por poder é particularmente intensa dentro do Conselho de Segurança, e não seria exagero dizer que a Guerra Fria nunca deixou de existir dentro de suas paredes

Essa “pequena diferença” é fonte de profunda clivagem entre os membros do BRICS. O Conselho de Segurança é uma das principais arenas de disputa do poder mundial, justamente por lidar diretamente com o chamado ‘hard power’ — o poder traduzido pelos meios “tradicionais” como poderio bélico e força militar. Mais que isso, cada um dos cinco membros permanentes — Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China — detém o direito de vetar qualquer resolução discutida pelo Conselho. A briga por poder é particularmente intensa dentro desta instância-chave, e não seria exagero dizer que a Guerra Fria nunca deixou de existir dentro de suas paredes.

Independentemente da situação econômica, China e Rússia mantinham este poder em mãos há muito tempo (desde o fim da Segunda Guerra Mundial), enquanto que Brasil, Índia e África do Sul estavam longe de possuir esse prestígio. Desta forma, com o status de ‘economias emergentes’ consolidado, a ambição destes três países passou rapidamente para a esfera política, em que uma vaga no Conselho de Segurança era o “crème de la crème”. Este objetivo não estava propriamente ao alcance, mas o momento era tido como a “chance de ouro”, e portanto, entenderam que valia a pena tentar.

A criação do BRICS não substituiu o IBSA. Tal paralelismo claramente delimita uma fronteira desta coalizão em relação à China e à Rússia

Movidos pelo desejo de conseguir uma inserção política mais contundente em agendas globais — não apenas de segurança, mas também comércio, meio ambiente, direitos humanos, entre outros — Brasil, Índia e África do Sul criaram entre si, ainda em 2003, o chamado ‘Fórum de Diálogo IBSA’ (India, Brazil and South Africa). Evento que, por si só, já soa um tanto quanto “estranho”, pois a criação do BRICS não substituiu o IBSA. Pelo contrário, são duas instâncias distintas, e as ações conjuntas dos membros do IBSA são bem mais dinâmicas em comparação com às do BRICS. Tal paralelismo claramente delimita uma fronteira da coalizão IBSA em relação à China e à Rússia. Da perspectiva da distribuição do poder político entre os países do BRICS, porém, não é difícil compreender a emersão desta pequena “ilha” de dentro do BRICS.

O fato de integrarem o BRICS não pesa em nada para que China ou Rússia faça concessões políticas, restando evidente que a “união” do BRICS fora da dimensão econômica é um tanto artificial

O desenvolvimento do IBSA demonstra que as diferenças entre os BRICS são grandes o suficiente para que os interesses de inserção conjunta enquanto economias emergentes possam ser conflitantes, ou até mesmo contraditórios, às pretensões de fortalecimento político. No exemplo do Conselho de Segurança, para que Brasil, Índia ou África do Sul ganhe poder de veto, China e Rússia deveriam partilhar uma porção de sua fonte mais sólida de poder político, o que certamente não lhes agrada. Nesse momento, o fato de integrarem o BRICS não pesa em nada para que China ou Rússia faça concessões políticas, restando evidente que a “união” do BRICS fora da dimensão econômica é um tanto artificial e que, praticamente, não há ações estratégicas conjuntas fora desta.

Isto, decerto, expõe o mito do BRICS como uma unidade homogênea que busca interesses comuns, e dá provas cabais de que o bloco está longe de representar as demandas dos países em desenvolvimento

Mesmo dentro do IBSA, os perfis também diferem bastante. Ainda tomando como exemplo as aspirações ao Conselho de Segurança: o Brasil possui um perfil tradicionalmente não intervencionista, o que difere substancialmente do estilo “chefão” dos Estados Unidos, que certamente não quer conceder poder de veto a uma potencial “pedra no sapato”. Já a Índia é vista com bons olhos pelos Estados Unidos, como um mecanismo de limitar o poder de China e Rússia e constituir uma rivalidade direta e imediata à China via liderança geopolítica no continente asiático.

Tal patente e complicado emaranhado de interesses, decerto, expõe o mito do BRICS como uma unidade homogênea que busca interesses comuns, e dá provas cabais de que o bloco está longe de representar as demandas dos países em desenvolvimento.

A transformação e revisão substancial da ordem mundial definitivamente está nos planos de cada um dos países do BRICS, mas não do grupo como um todo

A transformação e revisão substancial da ordem mundial mediante a mudança do “elenco” do “clube do centro” definitivamente está nos planos de cada um dos países do BRICS, mas não do grupo como um todo, visto que o “mundo ideal” sonhado por cada integrante difere radicalmente, inviabilizando uma ação estratégica em conjunto. Em muitas situações, parceiros comerciais dentro do BRICS acabam se convertendo em rivais, ou mesmo adversários, devido a objetivos antagônicos ou incompatíveis de política externa de cada país. Alianças e acordos paralelos se proliferaram mais do que nunca, e as fronteiras entre ‘aliados’ e ‘inimigos’ nunca estiveram tão nebulosas.

Se politicamente os países do BRICS são bastante divergentes, será mesmo que no aspecto econômico a sigla existe? Podem seus cinco membros ser uma unidade coesa capaz de promover o desenvolvimento econômico mútuo? Vamos analisar isso a partir do desempenho econômico recente destes países, que nos reserva detalhes instigantes que permitem compreender melhor a relação entre eles.

Leia também:
A origem ‘Frankenstein’ do BRICS e seu futuro obscuro — Parte I

Todo conteúdo deste site está publicado sob a Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada. Para reproduzir a matéria, é necessário apenas dar crédito ao Epoch Times em Português e para o repórter da matéria.
Leia a diferença. Epoch Times Todos os direitos reservados © 2000-2016