Orgulhando-se de extrair órgãos na China

Manifestantes do Falun Gong dramatizam um ato ilegal de pagar por órgãos humanos durante um protesto em 19 de abril de 2006, em Washington DC. (Jim Watson/AFP/Getty Images)

Quando eu falo a grupos sobre a colheita forçada de órgãos de pessoas vivas que ocorre na China, muitas vezes me perguntam, “Como isso é possível? Os médicos na China não são educados sobre o juramento de Hipócrates e o princípio da não fazer mal?”

Sim, eles são instruídos sobre como um médico não deve fazer mal, no entanto, as atrocidades continuam. Em junho, em Boston, conheci um médico chinês cujas palavras ajudam a tornar claro como isso pode acontecer.

Eu estava lá para as reuniões da Conferência Americana de Transplante (ATC) deste ano. Eu ajudava a organizar um estande informativo para a organização ‘Médicos contra a Colheita Forçada de Órgãos’ (DAFOH) no salão de exposições da ATC. Outros três médicos, originalmente da China continental como eu, ajudavam na organização.

Na tarde de 4 de junho, o Dr. Zhang Weihua e outro médico do Hospital Oriental de Transplante da cidade de Tianjin (afiliado com o Primeiro Hospital Central de Tianjin) pararam em nosso estande.

Após os dois médicos olharem nossos materiais, o Dr. Zhang disse aos quatro de nós dos DAFOH, “Vocês são médicos originalmente da China, então, vocês sabem que a China costumava estar classificada em 70º ou 80º lugar em medicina de transplante. Agora, a China avançou para o No. 1 do mundo. Durante este processo, algumas pessoas sacrificaram suas vidas, mas está tudo bem, isso não é uma grande questão.”

Meu coração e alma gritaram quando ouvi suas palavras, mas para alguém como eu, que cresceu sob o Partido Comunista Chinês (PCC), suas palavras, por mais que fossem desoladoras, não foram surpreendentes.

Cultura do Partido Comunista

O falecido premiê chinês Zhou Enlai disse uma vez, “Trate seu inimigo tão cruel e insensivelmente como o inverno rigoroso.” Do ponto de vista do PCC, para eliminar qualquer inimigo ou pessoa considerada como inimigo, não deveria haver qualquer restrição nos meios utilizados.

Na China, o PCC incute em todos que os ditames do PCC devem ser seguidos em todas as situações. Nada é maior do que o PCC, nem Deus, a consciência, o indivíduo ou qualquer ideia de direitos. Organizações jovens comunistas, a mídia do regime chinês, a propaganda que disseminam e as artes da China repetem a mensagem de que o PCC é “grande, glorioso e correto”.

Ao longo da história do PCC, ele periodicamente identificou diversos grupos como inimigos. Tudo pode ser feito a um inimigo. Cada vez que um grupo é visado, o povo chinês é ensinado a temer o PCC e a reconhecer que o único caminho seguro na vida é a obediência. Crescendo nesta cultura do PCC, as pessoas se torturam, humilham e até matam, como se fosse normal, desde que possam justificar suas ações do ponto de vista politico.

Falun Gong

Aqueles que praticam o Falun Gong, também conhecido como Falun Dafa, têm sido alvo do PCC recentemente. Esta antiga prática espiritual foi ensinada ao público em 1992, em Changchun, no nordeste da China. O Falun Gong envolve fazer cinco exercícios de meditação e viver de acordo com ensinamentos baseados nos princípios de verdade, compaixão e tolerância.

Praticantes relataram melhorias extraordinárias em sua saúde e bem-estar e a prática se difundiu muito rápido por toda a China. Em 1999, havia mais pessoas praticando o Falun Gong do que o total de membros do PCC. Isso amedrontou o então líder chinês Jiang Zemin e também despertou seu ciúme. Ele odiava o Falun Gong por sua popularidade e temia que o povo chinês preferisse os ensinamentos morais tradicionais à ideologia comunista.

Em 20 de julho de 1999, Jiang lançou uma campanha em grande escala para erradicar esta prática da China. Três meses depois, ele emitiu uma ordem para “destruí-los [os praticantes do Falun Gong] fisicamente, arruiná-los financeiramente e acabar com sua reputação”.

Em abril de 2006, o Epoch Times publicou a história de que praticantes do Falun Gong detidos estavam sendo usados como doadores vivos na colheita forçada de órgãos. Praticantes teriam sangue testado e tecido identificado e, depois, quando um paciente compatível com um praticante aparecesse, o praticante seria transportado para uma sala de operação, onde seus órgãos seriam removidos, matando o praticante.

“Conquistas”

Que o Dr. Zhang pratique no Hospital Oriental de Transplante não é estranho.

Depois que o Epoch Times começou a informar sobre a colheita forçada de órgãos, dois canadenses, David Kilgour, o ex-secretário de Estado canadense para a Ásia-Pacífico, e o advogado internacional de direitos humanos David Matas investigaram as alegações e descobriram que era verdade.

Em seu relatório, publicado mais tarde como o livro ‘Colheita Sangrenta’, Kilgour e Matas mostram imagens do website do Hospital Oriental de Transplante. Numa das páginas, o website postou um gráfico com uma linha claramente ascendente que mostra o número de transplantes de fígado realizados pelo centro. No fundo, aparecem as palavras “nossas conquistas”.

O gráfico mostra que em 1998, o ano anterior ao início da perseguição ao Falun Gong, o hospital fez nove transplantes de fígado, com os números aumentando drasticamente a cada ano, até que 1.647 transplantes hepáticos fossem feitos somente em 2005. O website se gabou em 2005 que o tempo médio de espera para um transplante de fígado era de duas semanas. As páginas relevantes estão agora off-line, embora tenham sido documentadas por Kilgour e Matas.

Entre 1971 a 2001, apenas 0,6% dos órgãos vieram de doadores familiares. Doações representavam uma quantidade insignificante do total de órgãos doados. Kilgour e Matas citam o vice-ministro da Saúde chinês Huang Jiefu que admitiu em 2005 que 95% dos órgãos utilizados em transplantes provinham de prisioneiros executados.

No entanto, um olhar no número de execuções realizadas na China a cada ano mostra que não havia execuções suficientes anualmente para fornecer órgãos para o número de transplantes que são feitos. Kilgour e Matas descobriram que entre 2000-2005, 41.500 transplantes de órgãos foram feitos na China sem fonte doadora determinada. Eles concluíram que a fonte mais provável dos órgãos eram praticantes do Falun Gong.

Eles também apontam o que é imediatamente óbvio para qualquer médico de transplante, que um tempo de espera de duas semanas só é possível se correspondência inversa de tecido for feita, isto é, se doadores vivos estiverem disponíveis para combinar com o paciente. Os tempos de espera em países fora da China, os quais usam doações convencionais, levam anos.

Uma alternativa

O Hospital Oriental de Transplantes é notório, mas não é o único. Há 500 hospitais na China fazendo transplantes de rim e 200 fazendo transplantes de fígado.

Quando o Dr. Zhang parou em nosso estande em Boston, ele refletiu as atitudes de muitos médicos que trabalham nesses hospitais: O assassinato de dezenas de milhares de praticantes do Falun Gong não é uma “grande questão” diante da oportunidade de dar ao regime chinês a glória de ser o No. 1 em transplantes.

É claro, o Dr. Zhang não mencionou outra consideração importante: Tomar uma vida também é fácil de fazer porque é muito rentável. Um transplante de coração gera ao Hospital Oriental 180 mil dólares (a renda urbana média per capita na China é de cerca de 3.500 dólares por ano) e todos os funcionários envolvidos, incluindo cirurgiões, se beneficiam.

A cultura do PCC ajuda a explicar por que os médicos podem se beneficiar desta forma. Alguém como o Dr. Zhang é capaz de transformar um ser humano em produto porque sua alma foi endurecida e distorcida pela lavagem cerebral comunista.

A civilização tradicional chinesa opõe-se diretamente à cultura do PCC, pois enfatiza a harmonia do ser humano com o universo e o respeito mútuo. Ao praticarem a verdade, compaixão e tolerância, praticantes do Falun Gong reforçam sua bondade e aprendem a suprimir o egoísmo, a ganância e o desejo de fama e poder.

Buscando erradicar o Falun Gong, o PCC ataca o melhor da cultura tradicional chinesa, que também é a alternativa fundamental da cultura do PCC. Uma cultura política que incentiva o roubo de órgãos viola nossa natureza humana e a vontade de Deus. Ela não pode ser sustentada.

Wenyi Wang concluiu seu mestrado na Universidade de Medicina de Jilin, na China, e seu doutorado em farmacologia na Universidade de Chicago. Ela serviu como médica residente de patologia na Universidade da Califórnia em San Diego e no Hospital Mount Sinai em Nova York. Ela recebeu o prêmio ‘Guerreira dos Direitos Humanos da Ásia-Pacífico’ da Human Rights Watch em 2006 e é membra dos ‘Médicos contra a Colheita Forçada de Órgãos’.

Nota do Editor: Quando o ex-chefe de polícia de Chongqing, Wang Lijun, fugiu para o consulado dos EUA em Chengdu em 6 de fevereiro, ele colocou em movimento uma tempestade política que não tem amenizado. A batalha nos bastidores gira em torno da postura tomada pelos oficiais em relação à perseguição ao Falun Gong. A facção das mãos ensanguentadas, composta pelos oficiais que o ex-líder chinês Jiang Zemin promoveu para realizarem a perseguição ao Falun Gong, tenta evitar ser responsabilizada por seus crimes e continuar a campanha genocida. Outros oficiais têm se recusado a continuar a participar da perseguição. Esses eventos apresentam uma escolha clara para os oficiais e cidadãos chineses, bem como para as pessoas em todo o mundo: apoiar ou opor-se à perseguição ao Falun Gong. A história registrará a escolha de cada pessoa.

 
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