O interminável pranto argentino

Por Alex Pipkin – Instituto Liberal

Na Argentina parece não existir política, só há mesmo espaço para o sempre saudoso e tristonho peronismo.

Como me disse um experiente e culto senhor taxista em Buenos Aires, quando perguntei sobre sobre Cristina Kirchner, o peronismo e o atual governo, entonou: “o peronismo não é nada!”. Corretíssimo, mas para os hermanos tende sempre a ser tudo!

O dissimulado peronismo é adaptável e pode ser qualquer coisa a fim de ludibriar o povo e ajustar os mecanismos de corrupção ao gosto do freguês: Menem era direitista, arremedo de capitalista. Cristina o oposto: esquerdista corporativista.

O páreo é duro, mas acho que o sistema político argentino está estruturado para ser ainda mais corrupto que o brasileiro. Em nível de impunidade estamos pau a pau.

Evidente que os reforços compensatórios para a volta do corrupto peronismo foram generosos. Macri foi populista, incompetente e fraco. Procrastinou em todas as reformas liberalizastes que deveriam ter sido urgentemente implementadas.

A história também conta. Desde a independência argentina, a elite projetava ser europeia, focada numa cultura “superior”, na literatura, no teatro, no cinema, nas artes em geral. Desse modo, mas com maior respaldo, a exemplo do Brasil pós-moderno, a classe artística e os intelectuais argentinos, por meio de carta aberta, apoiaram a candidatura de Alberto Fernández-Cristina Kirchner ao governo.

Na verdade, o apoio parece vir dos céus! O papa Bergoglio é argentino e peronista (creio eu marxista) desde criancinha. Obviamente que a intelectualidade argentina não-peronista foi cooptada e seduzida pelo populismo, pelo ufanismo e pelas retóricas kirchneristas ligadas ao ainda desfazimento da impunidade dos regimes militares até 1983 e ao aumento da pobreza, justamente pelo efeito de políticas econômicas populistas e ineficazes.

Nesse sentido, aterroriza, embora seja natural para eles, constatar que o “peronismo cultural” seja tão esmagador.
Todos sabemos que as grandes livrarias são polos turísticos em Buenos Aires. Entrar na El Ateneo, por exemplo, é contemplar uma livraria que está dentro de um daqueles que foi um dos maiores teatros de Buenos Aires.

Embora os sinais da decadência portenha estejam por todos os lados, a aura cultural ainda persiste e os argentinos, de fato, comparativamente, continuam lendo bem mais que nós brasileiros. No entanto, tal qual o debate das “ideias de mundo”, na Argentina e no fundo, tudo acaba onde começou: no inesquecível peronismo!

Gosto muito de procurar títulos nas livrarias de Buenos Aires e sempre me defronto com uma batalha hercúlea para encontrar algo interessante, afora a infinita quantidade de literatura vermelha, inclusive com várias publicações vinculadas aos grandes “intelectuais” brasileiros, Lula – e seu português irreparável – e Dilma – a estocadora de vento. Inacreditável, mas acredite em mim.

Claro que, folheando com calma alguns exemplares, também encontraremos brilhantes escritores esquerdistas, fazendo uso do tradicional efeito kitsch das citações cultas e/ou da invenção de novos significados para palavras corriqueiras.

Pois é. Como disse o famoso escritor argentino Jorge Luis Borges, o tango só poderia ter nascido em Montevidéu ou Buenos Aires. Para mim, lembrando meu saudoso pai, adorador de tango, acho que é o sentimento de melancolia para se sentir e bailar… Melancolia imortal para os argentinos.

A Argentina vive mergulhada na lama da corrupção, tendo um setor estatal bastante inflado, além de sindicatos fortes e atrasados.

O país não é industrialmente competitivo e é extremamente dependente das exportações de commodities agrícolas.
Uma vez que não aparenta que esse governo populista vá encarar com seriedade a privatização de estatais, creio que nem um aumento significativo dos preços das commodities agrícolas nos mercados mundiais salvará o país vizinho.
Com a cultura peronista revigorada em sua volta ao poder, a probabilidade de reformas liberalizantes parece ser próxima de zero.

Como o problema argentino é nitidamente estrutural, só me resta afirmar “mi tristeza hacia mis amigos argentinos”!
Faz mais de cem anos do nascimento de Evita Perón. Ela tinha razão: “Não chores por mim Argentina…”

 

As opiniões expressas neste artigo são de opinião do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times.

 
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