O financiamento influencia os resultados da ciência?

As palavras “estudos mostram” e “cientistas dizem” são usadas para explicar o raciocínio por trás de todos os tipos de decisões. Os formuladores de políticas usam-nos. Ativistas os adotam. Eles estão presentes nas mentes dos consumidores quando escolhem produtos orgânicos e quando mães decidem se a água da torneira é segura para seus filhos beberem.

Mas alguns estudos são financiados por organizações que se beneficiam de um determinado resultado. E há muitas maneiras de fazer com que as conclusões de um estudo sejam inclinadas da forma mais rentável. As escolhas dos pesquisadores na interpretação e na apresentação de dados podem, de forma intencional ou involuntária, distorcer os resultados.

Um público verdadeiramente informado precisa estar ciente de que há mais envolvido na ciência do que apenas a conclusão apresentada numa manchete.

Em 1862, o governo federal criou universidades de concessão de terras como uma maneira de investir na pesquisa agrícola. Este sistema produziu novas variedades de plantas, práticas agrícolas, métodos de conservação e técnicas de processamento de alimentos. Na década de 1980, a política federal começou a encorajar as escolas de concessão de terras a se associarem com o setor privado, de modo que em 2010 o financiamento corporativo já representava quase um quarto da pesquisa agrícola nessas universidades.

Conflitos de interesse

Reconhecer um potencial conflito de interesses (CDI) é importante para determinar se um estudo pode ser parcial, disse Tim Schwab, um pesquisador da Food and Water Watch. No entanto, nem sempre é fácil.

Embora as revistas científicas normalmente exijam que os autores dos estudos revelem potenciais CDIs, essa exigência muitas vezes não é rigorosamente aplicada.

A não divulgação é uma ocorrência comum, de acordo com um estudo conduzido por Johan Diels, da Faculdade de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, que comparou estudos financiados e não financiados pela indústria sobre organismos geneticamente modificados (OGMs).

Dos 94 estudos examinados, o financiamento não foi declarado em 49. Em 41 dos estudos, pelo menos um dos autores tinha vínculos com a indústria.

Dos 44 estudos identificados com CDIs financeiros ou profissionais, 43 produziram resultados favoráveis ​​ao patrocinador.

Zero de 24 estudos nutricionais financiados pela indústria encontraram resultados desfavoráveis aos interesses da indústria, segundo o Plos Medicine Journal 2007.

Em 15 de dezembro, pesquisadores do Institut Sophia Agrobiotech, na França, publicaram um estudo de acompanhamento que analisou 672 artigos sobre OGMs: “Descobrimos que, em comparação com a ausência de CDI, a presença de um CDI estava associada a uma frequência 50% maior de resultados favoráveis ​​aos interesses da empresa de culturas de GM.”

Os pesquisadores observaram que o único outro estudo sobre CDI em estudos de OGM que existe além dos dois mencionados anteriormente é um em que o próprio tinha CDI. Seu autor, Miguel Angel Sànchez, trabalha para a ChileBio, que é financiada por empresas que desenvolvem OGMs. Esse estudo concluiu que os CDIs não eram uma questão importante nos estudos de OGM.

“Não é dinheiro sujo”

O financiamento da indústria não necessariamente distorce o trabalho e tem muitos benefícios para o avanço da ciência, disse o professor Donald Siegel da Universidade Syracuse.

Siegel fez uma grande quantidade de pesquisas financiadas pela Fundação de Ciência Nacional (NSF) do governo americano e pela organização ambiental Sierra Club. Mas seu nome fez manchetes em 2010 devido a um estudo financiado pela Chesapeake Energy Corp.

O estudo declarou que os processos naturais, e não o método de fraturamento hidráulico (ou fracking), foram os principais responsáveis ​​pela contaminação dos poços de água domésticos no nordeste da Pensilvânia. A revista Environmental Science & Technology publicou posteriormente uma correção por não ter divulgado que a Chesapeake pagou Siegel.

Siegel admitiu que sua falha em revelar esse financiamento era uma negligência. Mas ele disse que o financiamento foi tão mínimo que ele não considerou relevante. A Chesapeake só lhe pagou o equivalente a um mês de salário de verão para um professor.

Ele acrescentou que nunca foi pressionado pela Chesapeake para mostrar resultados favoráveis. “Não é dinheiro sujo, é dinheiro limpo para fazer pesquisa básica”, disse Siegel.

A Chesapeake deu a Siegel acesso sem precedentes a amostras de poços de água perto de suas operações. Essa cooperação é um dos benefícios de trabalhar com a indústria, disse ele.

“Demorou algum tempo para ganhar a confiança da Chesapeake”, disse ele. Siegel explicou que a empresa tinha razão para temer os pesquisadores que podem querer desenterrar problemas contra ela.

Por exemplo, a Universidade Duke pediu a Siegel as amostras que ele recebeu da Chesapeake. Siegel e outros acusaram os cientistas da Duke de terem um viés contra o fracking.

“Não há a menor chance de eu lhes dar as amostras”, disse Siegel. “Eu apoio a filosofia geral daqueles que se opõem ao petróleo e ao gás, mas eu não apoio seus métodos.”

Ele também vê as relações da indústria com a academia como uma boa maneira de alunos estabelecerem conexões e obterem empregos quando se graduarem.

Indústria e academia

Caminhando pela Ala Monsanto de Serviços Estudantis da Universidade Estadual de Iowa ou pelo Auditório Monsanto da Universidade do Missouri, fica óbvio que a indústria deixou sua marca na academia.

Tim Schwab da Food and Water Watch obteve informações de financiamento de muitos dos departamentos agrícolas das instituições de ensino dos Estados Unidos, e descobriu que, em 2009, a indústria forneceu um total de 800 milhões de dólares em financiamento, em comparação com os 650 milhões de dólares providos pelo Departamento de Agricultura do governo americano.

Deni Elliott, professor de ética da Universidade do Sul da Flórida, acha que o financiamento da indústria em faculdades compromete a ética científica.

“É interessante para mim que as escolas ‘ensinem ética’ em diversos pontos do currículo, mas não parem para pensar (a nível institucional) sobre como as escolhas éticas da faculdade ou universidade implicitamente também educam os alunos”, escreveu ela num e-mail.

Outras formas de viés tendencioso

A indústria não é sempre o culpado. Há também todos os tipos de influência, como o chamado “viés do chapéu branco”, que pode ocorrer quando um cientista é movido por justa indignação. Há também viés de publicação, quando resultados nulos (resultados que não mostram nada de novo ou aparentemente significativo) não são publicados, distorcendo assim o quadro maior.

Anastasia Thanukos, bióloga e editora da plataforma educacional online “Entendendo a Ciência” da Universidade da Califórnia-Berkeley, descreve como um pesquisador pode influenciar sutilmente a seleção dos dados usados num estudo. “Você pode basicamente encontrar desculpas para descartar dados específicos”, disse ela.

Também é relevante saber como um estudo é construído, explicou Mickey Rubin, vice-presidente de pesquisa de nutrição do Conselho Nacional de Lacticínios, por e-mail: “Dois estudos sobre a pegada ambiental de um alimento podem ter resultados drasticamente diferentes dependendo de como cada pesquisador define a pegada ambiental e as variáveis ​​associadas a uma pegada.”

A política também pode desempenhar um papel, e a influência pode ocorrer em ambos os sentidos. A política pode influenciar a ciência e a ciência pode influenciar a política.

Por exemplo, Robert Galbraith, analista sênior da organização sem fins lucrativos Iniciativa de Prestação de Contas Públicas, revisou uma lista de estudos apresentados numa reunião no condado de Allegheny, na Pensilvânia, para considerar a concessão de direitos minerais num parque municipal. “Títulos de estudos foram colocados numa lista e jogados na frente do governo do condado”, disse ele. Os estudos foram “despreocupa e confusamente postos juntos. Muito poucos estudos foram revisados ​​por pares; alguns nem sequer eram estudos, mas meras apresentações em PowerPoint reunidas por lobistas.”

Thanukos diz que muitos políticos podem diferençar entre estudos bons ou tendenciosos. “O problema surge quando há formuladores de políticas e líderes … que selecionam os resultados que eles gostam e que apoiam a agenda em que estão interessados.”

Apesar das muitas maneiras que a ciência pode dar errado, pode haver contrapesos também.

“A ciência tem mecanismos para corrigir isso [os vieses tendenciosos], mas leva tempo para corrigir”, disse Thanukos. “Quando um estudo tendencioso é introduzido na literatura e na esfera pública, leva um tempo para outros cientistas chegarem junto e desembaraçá-lo.”

 
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