ARTIGO - Publicado em - Atualizado em 16/03/2017 às 15:59

A nova guerra industrial da China

Nova campanha de roubo econômico da China detalhada por fonte interna

Trabalhadores chineses montam componentes eletrônicos numa fábrica da gigante de tecnologia Foxconn em Shenzhen, província de Guangzhou, em 2010. (AFP/Getty Images)

Trabalhadores chineses montam componentes eletrônicos numa fábrica da gigante de tecnologia Foxconn em Shenzhen, província de Guangzhou, em 2010. (AFP/Getty Images)

O Partido Comunista Chinês tem um novo programa para a guerra econômica, que segue um caminho bastante percorrido na história da competição industrial.

De acordo com uma fonte na China que conduz negócios nos mais altos escalões do regime chinês, o novo programa foi lançado entre meados de 2015 e o início de 2016 para substituir o antigo modelo do regime de usar ciberataques para roubar informações e com isso obter ganhos econômicos.

Em 25 de setembro de 2015, o então presidente Barack Obama se reuniu com o líder chinês Xi Jinping na Casa Branca, onde anunciaram um novo acordo bilateral que dizia que nenhum deles usaria ciberataques para roubar propriedade intelectual, segredos comerciais ou outras informações confidenciais visando obter “vantagem comercial”.

O pano de fundo do encontro era que os ciberataques da China estavam roubando da economia dos EUA, e Obama começou a ameaçar sancionar as empresas chinesas que lucravam com os ciberataques. O acordo preveniu as sanções.

No entanto, líderes empresariais e funcionários de alto escalão do regime na China estão trabalhando num plano alternativo, conforme explicado por um programa do regime chinês para o roubo econômico, o Projeto 863, para “alcançar rapidamente e superar” o Ocidente.

“O que eles estão fazendo é enviar equipes de indivíduos para os Estados Unidos – eles se conectarão com seus parceiros atuais e farão novos parceiros – para tocarem e dançarem a mesma música de antes”, disse a fonte, que solicitou permanecer anônimo por questões de segurança pessoal.

“A outra parte é que eles estão indo para os EUA para se estabelecer e firmar negócios”, disse ele. As equipes buscam aprender mais diretamente como as empresas ocidentais funcionam e são operadas “e roubá-las para levar para seu país o que obtiverem”.

Ele deu um exemplo disso em ação, observando como uma empresa chinesa que fabrica veículos aéreos industriais não tripulados começa por criar consórcios (joint ventures) com empresas americanas.

“Eles querem ter sua empresa nos Estados Unidos e serem capazes de estabelecer conexão com outra empresa, trabalhar com essa empresa, então ser capaz de levar pessoas ou tecnologia para a China”, disse ele. “Esse é o foco principal do que eles querem fazer.”

O regime chinês tem se mobilizado rapidamente para adquirir negócios no estrangeiro e formar joint ventures, e até o segundo trimestre de 2016 seus efeitos já se tornavam visíveis.

De acordo com dados da empresa de consultoria Grupo Rhodium, com sede em Nova York, o investimento anual chinês nos Estados Unidos quase triplicou em 2016 em relação ao ano anterior, passando de 15,3 bilhões de dólares para 45,6 bilhões.

A mudança causou agitação nos círculos empresariais e políticos, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

Em fevereiro de 2016, o New York Times reportou uma reação política crescente em Washington às empresas chinesas que tentavam comprar empresas de tecnologia dos EUA.

A Bloomberg informou em agosto de 2016 que as aquisições chinesas desencadearam uma reação global antes do encontro do G-20 e a mídia The Trumpet relatou que na Austrália o tesoureiro federal rejeitou dois acordos da China para aquisição de companhias de energia avaliadas em mais de 7,6 bilhões de dólares.

Em agosto de 2016, a mídia israelense Haaretz publicou uma análise intitulada “Por que a China está numa farra de compras em Israel”, observando a tendência de aquisições, mas ignorando a motivação por trás disso. O repórter disse que Israel, com uma sólida economia e reputação de inovação, era meramente um estacionamento atraente e temporário para a fuga de capital da China.

Uma estratégia clássica

O novo impulso do regime chinês para ganho econômico não é uma abordagem inovadora, de acordo com Amar Manzoor, autor de “A Arte da Guerra Industrial”.

“Eles essencialmente copiaram o Japão”, disse Manzoor, referindo-se ao novo programa do regime chinês.

Uma situação semelhante ocorreu na década de 1950. Manzoor observou que muitos carros Toyota costumavam parecer-se com Ford Mustangs, mas eram vendidos a um preço mais barato. Depois que eles invadiram o mercado americano, a Toyota fez parceria com a fabricante americana General Motors para criar a fábrica New United Motor Manufacturing (NUMMI).

Ao fazer parceria com uma importante empresa dos Estados Unidos para construir uma fábrica em solo estadunidense, a Toyota pôde testar a receptividade dos americanos a terem fábricas da própria Toyota em seu quintal. Isso também permitiu a Toyota começar a desenvolver cadeias de abastecimento nos EUA.

Manzoor disse que muitos países passaram pelo processo de copiar um concorrente estrangeiro e, em seguida, fazer parceria com empresas no mercado-alvo.

Ele observou que o fabricante de automóveis indiano Tata Motors comprou ações majoritárias da empresa Jaguar Land Rover, o que também os está ajudando a transferir as habilidades do fabricante de automóveis para a Índia.

“Tudo o que a Índia está fazendo é baseado na guerra industrial. Ela quer acesso à tecnologia, ela quer as fábricas”, disse Manzoor. “É a mesma coisa com a China.”

“O que costuma ocorrer nesse processo é a aquisição desses centros industriais”, disse ele, observando que não são apenas países em ascensão que tentam construir polos industriais, mas também países desenvolvidos, incluindo o Reino Unido e os Estados Unidos.

O valor de controlar as fábricas vai muito além do lucro.

As pessoas envolvidas na fabricação – as pessoas que constroem os produtos – são frequentemente as que pensam em maneiras de melhorar os produtos existentes.

A inovação industrial nos Estados Unidos vem caindo devido à concorrência das importações chinesas, de acordo com um relatório recente do Departamento Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA, que aponta que menos patentes estão sendo registradas nos Estados Unidos.

O país que controla as fábricas também controla o mercado de trabalho, e qualquer nação bem versada em estratégias de guerra industrial da mesma forma tentará obter o controle das matérias-primas e de toda a cadeia de suprimentos.

Com a China em particular, Manzoor disse: “Eles querem controlar a oferta e a demanda, e a melhor maneira de fazer isso é controlar o próprio mercado. É aí que a guerra industrial está ocorrendo agora.”

Quando a guerra industrial atinge este nível, também começa a afetar a segurança nacional.

De acordo com um relatório do Exército dos EUA, “O acesso das empresas chinesas a recursos, tecnologias, mercados e elites se traduz em meios de influência e poder que podem ser aproveitados para uma série de objetivos que não são necessariamente focados somente em metas comerciais.”

Para mostrar como isso se daria, Manzoor dá o exemplo de como, durante a 2ª Guerra Mundial, as fábricas foram reformuladas para atender à indústria de defesa, e as empresas que antes fabricavam carros foram redirecionadas para produzir tanques e aviões de combate.

Se um país é envolvido numa guerra de forma inesperada, enquanto não possui capacidade manufatureira doméstica, então é preciso construir fábricas, desenvolver habilidades e estabelecer linhas de fornecimento a partir do zero.

Um deslocamento interno

O regime chinês reduziu seus ciberataques contra os Estados Unidos, embora algumas de suas unidades de hackers permaneçam ativas. A empresa de segurança cibernética FireEye informou em junho de 2016 que, desde meados de 2014, “temos visto um notável declínio na atividade de intrusão geral dos grupos baseados na China contra entidades nos EUA e em outros 25 países”. E disse que as ações dos EUA respondendo aos ataques “levaram Pequim a reconsiderar a execução de suas operações de rede”.

O novo programa do regime chinês sobre ciberataques patrocinados pelo Estado tem dois pontos de foco: um, para expandir o alcance das fábricas chinesas, e dois, para roubar a propriedade intelectual diretamente dos concorrentes.

De acordo com a fonte na China, “A única maneira que eles podem inovar é fazendo uma coisa: roubar.”

Isso incrementa os programas já existentes do regime chinês para o roubo econômico, que funcionam em paralelo a suas operações de ciber-roubo. Isto inclui o seu programa Tocha, direcionado às indústrias comerciais de alta tecnologia; seu Programa 973, voltado para pesquisa e desenvolvimento; e seu Programa 211, que se foca em universidades.

De acordo com o livro “Espionagem Industrial Chinesa”, todos esses programas alavancam a “colaboração e tecnologias estrangeiras para cobrir lacunas importantes” e usam métodos que incluem encorajar peritos qualificados a irem ou voltarem para a China ou fazerem com que “sirvam no local”, fornecendo informações que eles adquiriram de empregadores ocidentais.

A situação econômica na China não é tão vistosa quanto o regime quer que o mundo acredite. A fonte na China disse que “o ambiente de negócios mudou completamente”, disse ele. “Mudou para pior.”

“Há problemas significativos. Há muitas pessoas desempregadas. Elas querem respostas, mas o governo não parece tê-las”, disse ele. “Há também um monte de protestos ocorrendo na China, o que não havia antes. … Estamos falando de milhares de pessoas. Essas pessoas carregam cartazes e também têm coisas pintadas com spray em suas camisas, e elas começam a brigar muito rapidamente.”

“Essas pessoas perderam dinheiro. Elas perderam suas economias de vida e o governo não está respondendo às suas necessidades, e as empresas estão tentando conseguir novas vendas.”

Enquanto isso, disse ele, “Os inovadores estão saindo em massa. Ou eles estão sendo perseguidos pelo governo ou estão percebendo que o governo está roubando suas coisas.”

“Eles não estão ganhando dinheiro suficiente e não estão recebendo pedidos suficientes de seus clientes”, disse ele. As empresas estão percebendo que, devido aos níveis de pobreza e à ausência de uma classe média, o mercado chinês real é composto apenas de cerca de 200 milhões de uma população total de 1,3 bilhão.

Enquanto isso, muitas empresas costumavam fabricar seus produtos na China, mas à medida que os salários aumentam – e outros países como a Índia e Indonésia crescem suas próprias bases de fabricação – o custo/benefício da manufatura na China está desaparecendo.

O regime chinês está agora tentando construir uma economia de classe média e fazendo tremendo esforço para promover os produtos chineses – como os computadores Lenovo e os smartphones Xiaomi – na concorrência global. Além de buscar intensamente adquirir matérias-primas e negociar acordos comerciais.

Afastar-se da dependência dos produtos e da tecnologia ocidentais é agora uma prioridade para o regime chinês.

O regime também está repelindo algumas empresas diretamente. A estratégia, disse a fonte, é que eles estão repelindo seletivamente as empresas estrangeiras para fora da China se seus produtos nacionais já atingiram um nível competitivo nos mercados globais ou no terceiro mundo. As empresas que eles estão mantendo na China são as que eles ainda podem extrair algo.

“Este é um novo impulso [para comprar ou fazer parcerias com empresas fora da China] que está acontecendo”, disse a fonte, “porque à medida que eles repelem algumas pessoas [e empresas], eles precisam de algo para substituir a inovação perdida.”

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