Publicado em - Atualizado em 30/12/2013 às 15:55

O nascimento do terrorismo

Mikhail Kalashnikov, o desenvolvedor do popular rifle russo AK-47, a arma mais difundida entre os terroristas pelo mundo afora, exibe um rifle AK-103 numa conferência de imprensa em Moscou em 2006. Ele faleceu recentemente aos 94 anos (Maxim Marmur/AFP/Getty Images)

Mikhail Kalashnikov, o desenvolvedor do popular rifle russo AK-47, a arma mais difundida entre os terroristas pelo mundo afora, exibe um rifle AK-103 numa conferência de imprensa em Moscou em 2006. Ele faleceu recentemente aos 94 anos (Maxim Marmur/AFP/Getty Images)

Este artigo foi publicado no National Review em 24 de agosto de 2006. O autor Ion Mihai Pacepa é o oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista. Traduzido por Ricardo Hashimoto.

Pegadas Russas

O que Moscou tem a ver com a recente guerra no Líbano?

O principal vencedor na guerra do Líbano talvez seja o Kremlin. Israel tem sido atacado com Kalashinikovs e Katyushas russos, foguetes Fajr-1 e Fajr-3 russos, mísseis antitanques AT-5 Spandrel russos e foguetes antitanques Kornet russos. As obsoletas armas russas são o objeto de desejo de terroristas em todo o mundo, e os bad guys sabem exatamente onde obtê-las. Nas caixas das armas abandonadas pelo Hezbollah estava escrito: “Cliente: Ministério da Defesa da Síria. Fornecedor: KBP, Tula, Rússia”.

O terrorismo internacional atual foi concebido em Lubyanka, quartel general do KGB, no rastro da Guerra de Seis Dias, de 1967, no Oriente Médio. Eu testemunhei o seu nascimento na minha outra vida, como general comunista. Israel humilhou o Egito e a Síria, cujos belicosos governos eram dirigidos por conselheiros soviéticos da razvedka (‘inteligência externa’, em russo), e, a partir daí, o Kremlin decidiu armar os vizinhos inimigos de Israel, os palestinos, e persuadi-los a entrar numa guerra de terrorismo contra aquele país.

O general Aleksandr Sakharovsky, criador da estrutura de inteligência da Romênia comunista, depois elevado a chefe de toda a inteligência externa da Rússia soviética, uma vez me instruiu: “No mundo atual, as armas nucleares tornaram obsoleta a força militar, e por isso o terrorismo deve se tornar a nossa principal arma.”

Entre 1968 e 1978, ano em que rompi com o comunismo, apenas as forças de segurança da Romênia enviavam semanalmente dois aviões de carga repletos de bens militares para os terroristas palestinos no Líbano. Desde a queda do comunismo, os arquivos da alemã-oriental Stasi revelaram que, só em 1983, seu serviço de inteligência externo remeteu o correspondente a US$ 1.877.600 em munição de AK-47 para o Líbano. De acordo com Vaclav Havel, a Tchecoslováquia comunista entregou mil toneladas do explosivo inodoro Semtex-H (indetectável por cães farejadores) para terroristas islâmicos – o suficiente para 150 anos de ação.

A guerra terrorista foi iniciada no fim de 1968, quando o KGB transformou o sequestro de aviões – a arma escolhida para o 11 de setembro – em instrumento de terror. Apenas em 1969, houve 82 sequestros ao redor do mundo, feitos pela ‘Organização para a Libertação da Palestina’ (OLP), financiada pelo KGB. Em 1971, quando eu estava visitando Sakharovsky no seu escritório em Lubyanka, ele chamou a minha atenção para um mar de bandeiras vermelhas fincadas num mapa-múndi pendurado na parede. Cada bandeira representava um avião capturado. “O sequestro de aviões foi invenção minha”, declarou ele.

O “sucesso” político decorrente do sequestro de aviões israelenses impeliu o 13° Departamento do KGB, conhecido no nosso jargão de inteligência como Department for Wet Affairs (‘wet’ era um eufemismo para sangrento), a partir para a realização de “execuções públicas” de judeus em aeroportos, estações de trem e outros lugares públicos. Em 1969, o dr. George Habash, uma marionete russa, explicou: “Matar um judeu longe do campo de batalha é melhor do que matar cem judeus no campo de batalha, pois atrai mais atenção.”

No fim dos anos 1960, o KGB estava profundamente envolvido em terrorismo em massa contra judeus, levado a cabo por diversas organizações palestinas. Eis algumas ações terroristas pelas quais o KGB levou o crédito enquanto eu ainda estava na Romênia: novembro de 1969: ataque armado a um escritório da companhia aérea israelense El Al em Atenas, com 1 morto e 14 feridos; 30 de maio de 1972: ataque no Aeroporto Ben Gurion, com 22 mortos e 76 feridos; dezembro de 1974: atentado a bomba no cinema de Tel Aviv, com 2 mortos e 66 feridos; março de 1975: ataque a um hotel em Tel Aviv, com 25 mortos e 6 feridos; maio de 1975: atentado a bomba em Jerusalém, com 1 morto e 3 feridos; 4 de julho de 1975: atentado a bomba no Praça Zion, em Jerusalém, com 15 mortos e 62 feridos; abril de 1978: ataque ao aeroporto de Bruxelas, com 12 feridos; maio de 1978: ataque a um avião da El Al em Paris, com 12 feridos.

Em 1971, o KGB lançou a operação Tayfun (‘tufão’, em russo), destinada a desestabilizar a Europa Ocidental. O Baader-Meinhof-Gruppe, ou Facção do Exército Vermelho (RAF) e outras organizações financiadas pelo KGB lançaram uma onda de terrorismo antiamericano que chocou a Europa Ocidental. Richard Welsh, o chefe da CIA em Atenas, foi morto a tiros na Grécia em 23 de dezembro de 1975. O general Alexander Haig, comandante da OTAN em Bruxelas, foi ferido num atentado a bomba que estraçalhou sua Mercedes blindada em junho de 1979. O general Frederick J. Kroesen, comandante das forças americanas na Europa, escapou da morte por pouco num ataque com foguete em setembro de 1981. Alfred Herrhausen, o presidente pró-americano do Deutsche Bank, foi morto num ataque com granada em novembro de 1989. Hans Neusel, secretário de Estado pró-americano do Ministério do Interior da Alemanha Ocidental, foi ferido numa tentativa de assassinato em julho de 1990.

Em 1972, o Kremlin decidiu jogar todo o mundo islâmico contra Israel e contra os EUA. Como me disse o chefe do KGB, Yury Andropov, um bilhão de inimigos podia infligir um dano maior aos Estados Unidos do que apenas alguns milhões. Precisávamos instilar um ódio estilo nazista contra os judeus em todo o mundo islâmico e fazer esta arma emocional gerar um banho de sangue terrorista contra Israel e seu principal parceiro, os Estados Unidos. Ninguém mais na esfera de influência americana-sionista podia se sentir seguro.

De acordo com Andropov, o mundo islâmico era uma placa de Petri esperando ser cultivada, na qual poderíamos criar uma virulenta cultura de ódio antiamericano a partir da bactéria do pensamento marxista-leninista. O antissemitismo islâmico lançou raízes profundas. Os muçulmanos têm uma queda pelo nacionalismo, pelo jacobinismo e pela vitimologia. Suas multidões iletradas e oprimidas podiam ser insufladas até um estado de agitação extrema.

O terrorismo e a violência contra Israel e o seu amo, o sionismo americano, fluiria naturalmente a partir do fervor religioso muçulmano, apregoou Andropov. Bastava apenas continuar repetindo os nossos lemas – os Estados Unidos e Israel eram “países fascistas e imperialistas-sionistas” financiados pelos judeus ricos. O Islã estava obcecado em evitar a ocupação do seu território pelos infiéis e seria altamente receptivo a nossa caracterização do Congresso dos Estados Unidos como uma voraz instituição sionista desejosa de converter o mundo todo num feudo judeu.

O codinome desta operação foi “SIG” (Sionistskiye Gosudarstva, ou ‘Governos Sionistas’), e estava dentro da “esfera de influência” do meu serviço romeno, pois englobava a Líbia, o Líbano e a Síria. SIG era uma operação envolvendo muitos países e parceiros. Criamos joint ventures para construir hospitais, casas e estradas nestes países, e para lá enviamos milhares de médicos, engenheiros, técnicos, professores e até instrutores de dança. Todos tinham como tarefa retratar os Estados Unidos como um feudo judeu arrogante e orgulhoso financiado pelo dinheiro judeu e governado por políticos judeus, cujo objetivo era subjugar todo o mundo islâmico.

Em meados dos anos 1970, o KGB ordenou ao meu serviço, o DIE – juntamente com outros serviços irmãos da Europa Oriental – que percorresse o país procurando ativistas confiáveis, parceiros pertencentes aos vários grupos étnicos islâmicos, para que fossem treinados em operações de desinformação e terrorismo e infiltrados nos países da nossa “esfera de influência”. A sua tarefa seria exportar um ódio radical e insensato contra o sionismo americano manipulando a ancestral aversão aos judeus sentida pelo povo naquela parte do mundo. Antes que eu deixasse a Romênia para sempre, em 1978, o meu DIE havia despachado cerca de 500 destes agentes disfarçados para os países islâmicos. De acordo com uma estimativa grosseira recebida de Moscou, até 1978 o serviço de inteligência do bloco soviético, como um todo, havia enviado cerca de 4 mil destes agentes de influência para o mundo islâmico.

Em meados da década de 1970, também começamos a despejar no mundo islâmico uma tradução árabe dos Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação da Rússia czarista que havia sido usada por Hitler como fundamento para sua filosofia antissemita. Também disseminamos um “documento” fabricado pelo KGB em árabe, segundo o qual Israel e o seu principal apoiador, os Estados Unidos, eram países sionistas dedicados a converter todo o mundo islâmico numa colônia judaica.

Nós, do bloco soviético, tentávamos conquistar mentes, pois sabíamos que não podíamos vencer as batalhas militares. É difícil dizer quais são exatamente os efeitos remanescentes da operação SIG. Mas o efeito cumulativo da disseminação de centenas de milhares de Protocolos no mundo islâmico e da retratação de Israel e dos Estados Unidos como inimigos mortais do Islã certamente não foi construtivo.

A Rússia pós-soviética foi transformada de maneira sem precedentes, mas a crença amplamente popular de que o nefasto legado soviético foi cortado pela raiz com o fim da Guerra Fria, como o nazismo foi eliminado no fim da Segunda Guerra Mundial, não é correta.

Na década de 1950, quando eu era o chefe do posto de inteligência externa romeno na Alemanha Oriental, testemunhei como o Terceiro Reich de Hitler foi demolido, os seus criminosos de guerra levados a julgamento, as suas forças militares e policiais desmanteladas e os nazistas varridos da vida pública. Nada disso aconteceu com a antiga União Soviética. Nenhuma pessoa foi julgada, apesar do regime comunista soviético ter matado mais de cem milhões de pessoas. A maior parte das instituições soviéticas foi deixada intacta, simplesmente trocaram de nome, e agora muitas são dirigidas pelas mesmas pessoas que governaram o Estado comunista. No ano 2000, os ex-oficiais do KGB e do Exército Vermelho soviético assumiram o controle do Kremlin e do governo da Rússia.

A Alemanha jamais teria se tornado uma democracia com os oficiais da Gestado e da SS no comando.

No dia 11 de setembro de 2001, o presidente Vladimir Putin foi o primeiro líder de um país estrangeiro a expressar condolências ao presidente George W. Bush pelo que chamou de “terríveis tragédias dos ataques terroristas”. Logo em seguida, entretanto, Putin começou a mover o seu país de volta aos negócios com terroristas. Em março de 2002, ele discretamente retomou as vendas de armas para o ditador terrorista do Irã, o aiatolá Khamenei, e envolveu a Rússia na construção de um reator nuclear de mil megawatts em Bushehr, incluindo uma instalação de conversão de urânio capaz de produzir material físsil para armas nucleares. Centenas de técnicos russos também começaram a ajudar o governo do Irã a desenvolver o míssil Shahab-4, com alcance superior a 2 mil quilômetros e capacidade para transportar uma ogiva nuclear ou armas químicas a qualquer ponto do Oriente Médio e da Europa.

O presidente atual do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, já anunciou que nada poderá impedir o seu país de construir armas nucleares, e chamou Israel de “vergonhosa mancha no mundo islâmico”, que devia ser eliminada. Durante a Segunda Guerra Mundial, 405.399 americanos morreram para erradicar o nazismo e o terrorismo antissemita. Agora, estamos enfrentando o fascismo islâmico e o terrorismo nuclear antissemita. As Nações Unidas não podem oferecer nenhuma esperança. Até hoje não foram capazes sequer de definir a palavra “terrorismo”.

Segundo um ditado, um tiro leva a outro. O Kremlin pode ser a nossa melhor esperança. Em maio de 2002, os ministros da OTAN aprovaram uma parceria com a Rússia, a antiga inimiga da aliança. O mundo inteiro disse que a Guerra Fria estava encerrada. Kaput. Agora, a Rússia quer ser admitida na Organização Mundial do Comércio. Para isto acontecer, o Kremlin deve ser firmemente advertido para, antes, abandonar o terrorismo.

Também devemos ajudar os russos a perceberem que é do seu máximo interesse desestimular o presidente Ahmadinejad a obter armas nucleares. Ele é um tirano imprevisível que, de um momento para outro, pode considerar a Rússia também um inimigo. “Se o Irã conseguir armas de destruição em massa, transportáveis por mísseis, vai se tornar um problema”, declarou corretamente o presidente Bush. “Vai se tornar um problema para todos e inclusive para a Rússia.”

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