Na China, empresas estrangeiras e pontos turísticos promovem propaganda comunista

O Partido Comunista Chinês (PCC) penetra todos os aspectos da sociedade e tem renovado seus esforços para mostrar-se ainda mais presente na vida cotidiana, desde o local de trabalho até as atrações turísticas famosas.

Como um dos maiores mercados do mundo, a China pode ser um lugar lucrativo para as empresas estrangeiras fazerem negócios. Mas mesmo as empresas estrangeiras estão sob crescente pressão para atender os desejos do PCC.

Todas as empresas que operam na China são obrigadas por lei a estabelecer filiais ou terem agentes do Partido em seu interior e isso não são se restringe apenas as organizações estatais. De acordo com o PCC, os agentes do Partido podem participar da tomada de decisões da empresa para garantir que as atividades da empresa estejam de acordo com as políticas do Partido. Os agentes também são responsáveis por qualquer sindicato. E o ônus financeiro para sustentar ou pagar os agentes do PCC infiltrados são de inteira responsabilidade da empresa em que atuam.

Em agosto, a Reuters informou que uma empresa europeia que participa numa joint venture chinesa foi pressionada a contratar mais quadros do Partido e a discutir suas decisões de investimento com os agentes do Partido. Em outro caso, uma empresa estadunidense deslocou suas instalações para um local sugerido pelos agentes do Partido porque as autoridades locais chinesas estavam promovendo investimentos nessa área.

No Shanghai Disney Resort, que é 70% de propriedade da Walt Disney Parks and Resorts e 30% do Shanghai Shendi Group, cerca de 300 dos funcionários que são membros do PCC regularmente realizam seminários políticos sobre a doutrina do Partido durante o horário comercial, informou o Wall Street Journal.

Atualmente, cerca de 70% das empresas de capital estrangeiro, ou 106 mil, têm representantes ou agentes do Partido em seu interior, disse Qi Yu, vice-chefe do Departamento de Organização do PCC, numa coletiva de imprensa realizada em 19 de outubro durante o 19º Congresso Nacional.

Esse número mostra um aumento acentuado em relação aos dados de 2011 fornecidos pelo Departamento de Organização, que afirmou que cerca de 47 mil empresas que receberam investimentos estrangeiros haviam cumprido as regras para estabelecer um escritório do Partido em suas instalações.

O número de empresas privadas de origem chinesa no país com filiais do Partido também aumento para 2,72 milhões, ou 67,9% de todas as empresas chinesas, de acordo com Qi Yu.

O controle do Partido dentro das empresas não é nada novo. De acordo com o site de notícias chinês China Business, que é administrado pelo núcleo de reflexão do PCC, a Academia Chinesa de Ciências Sociais, as filiais do Partido em empresas de investimento estrangeiro têm uma história que remonta aos anos 80, quando a China primeiramente se abriu ao investimento estrangeiro. O gigante agroquímico estadunidense DuPont foi a primeira empresa estrangeira a ter uma filial do Partido quando abriu um escritório em 1990 na Nova Área de Pudong.

Agora, as empresas privadas chinesas e de investimento estrangeiro, sob a influência de suas respectivas filiais partidárias, poderiam ser influenciadas a investir mais em empresas de propriedade estatal (EPEs) financiadas pela China, que o PCC está lutando para manter à tona. Este ano, na tentativa de sustentar as EPEs, o PCC permitiu a venda de participações minoritárias nas empresas a investidores privados.

O Wall Street Journal informou em outubro que os reguladores da internet na China planejavam assumir o controle de 1% da participação nas maiores empresas de internet do país – Tencent, Weibo e Youku Tudou, um site de compartilhamento de vídeos de propriedade do gigante de comércio eletrônico Alibaba – para estarem diretamente envolvidos na tomada de decisões das empresas, outro sinal do desejo do Partido de exercer controle sobre empresas privadas.

“Isso explica a mentalidade do PCC, que ele não confia em ninguém ou em nada. Ele deve ter seu próprio pessoal para monitorar a partir de dentro. Portanto, há organizações de Partido em todos os lugares, incluindo em organizações religiosas, como templos e monastérios budistas”, disse Xia Yeliang, ex-professor-associado de economia da Universidade de Pequim, em entrevista à New Tang Dynasty Television (NTD).

O funcionário do regime Qi Yu elaborou sobre os benefícios de exigir um aparato do Partido em todas as empresas, afirmando que isso pode ajudar o Partido a entender melhor as políticas econômicas da China, resolver conflitos trabalhistas e criar “energia positiva”. As observações de Qi Yu, no entanto, atraíram muita dúvida e críticas de estudiosos.

“Na superfície, pode parecer que [as empresas] estão criando voluntariamente filiais do Partido. No entanto, existe de fato uma ameaça subjacente. Se essas empresas privadas não ouvirem, terão dificuldades [em fazer negócios] daí por diante”, disse Xia Yeliang.

O professor acrescentou que, com as filiais do Partido influenciando como as empresas realizam seus negócios, as empresas privadas na China estão perdendo sua capacidade de inovar e, em última instância, sua vantagem competitiva.

“[O PCC] está tentando criar o que seria uma economia livre dentro de uma gaiola. Às vezes, [a filial do Partido na empresa] desempenhará o papel tradicional do sindicato do PCC; outras vezes, ela desempenhará o papel de coordenar com os empregadores”, disse Hu Ping, editor-chefe da Beijing Spring, uma publicação pró-democracia baseada em Nova York, em entrevista à NTD.

Mas Hu Ping concluiu que o verdadeiro propósito de sua existência é o monitoramento e a vigilância.

Turismo vermelho chinês

Enquanto as autoridades do Partido estão fazendo mais para monitorar os negócios, os representantes do Partido agora estão indo a locais turísticos populares para espalhar propaganda cara a cara.

O Palácio de Verão em Pequim é uma atração importante. Outrora um jardim imperial durante a Dinastia Qing, o complexo possui lagos, jardins e palácios rodeados por colinas pitorescas. Ele foi designado um patrimônio mundial pela UNESCO em 1998.

Em 30 de outubro, o local histórico anunciou que estabeleceria um “escritório representativo do Partido” que pode prestar serviços e promover o espírito do Partido para as pessoas, informou o portal de notícias chinês Sina.

A iniciativa faz parte do esforço recente da Administração Nacional de Turismo da China para promover o “turismo vermelho”. Numa reunião recente, o diretor da administração, Li Jinzao, explicou aos funcionários sobre a importância de propagar a ideologia do Partido, ao lado de outras iniciativas mais mundanas, como melhorar os banheiros, aumentar a segurança e incentivar o turismo no interior do país.

Um guia turístico no palácio expressou entusiasmo pela divulgação da propaganda do Partido em seu local de trabalho, numa entrevista com o jornal estatal Legal Evening News. “Por meio do escritório de representação, eu farei um bom trabalho na promoção das políticas e do espírito do Partido, e lhes informarei sobre a situação do Partido”, disse Han Xiao.

Durante anos, o PCC tem ampliado sua influência ideológica além de suas fronteiras, enquanto tenta limitar a influência ocidental no país. Por exemplo, o Partido estabeleceu Institutos Confúcio em instituições acadêmicas em todo o mundo para divulgar sua ideologia aos estudantes. Ao mesmo tempo, o PCC desconfia da potencial introdução de quaisquer valores ocidentais, como liberdade de pensamento e expressão. Em 2015, o Partido considerou proibir livros didáticos que introduzam pensamentos e valores ocidentais nas escolas chinesas.

Agora, visitantes na China são “educados”, sem se darem conta, por agentes do Partido situados em locais turísticos.

Quanto às atrações ocidentais, como o Shanghai Disney Resort e o em breve esperado Beijing Universal Studios, não está claro se elas também terão de satisfazer a ênfase renovada da Administração de Turismo sobre a propaganda do Partido.

Apesar de todos os esforços do Partido para promover lealdade a sua ideologia, as pessoas estão gradualmente perdendo sua obediência. Uma campanha no ano passado para cobrar as taxas vencidas do Partido coletou cerca de 277 milhões de yuanes (cerca de 41,8 milhões de dólares), devidas por mais de 120 mil membros do Partido que trabalham em empresas estatais apenas na cidade de Tianjin, de acordo com o Wall Street Journal.

 
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