Música: a terapia mais poderosa que você pode encontrar

Uma idosa foi internada em um centro médico no sul da Califórnia, mas ninguém sabia como ajudá-la. Ela estava claramente irritada, mas não conseguia se comunicar e ninguém conseguia consolá-la. Depois de três dias, ainda não falava e continuava dando socos em qualquer um que se aproximasse dela. Foi quando a equipe médica chamou Kat Fulton, uma terapeuta musical certificada.

Depois de considerar a idade da mulher, o local de nascimento e outros detalhes de seus documentos, Fulton pensou em uma música para acalmar a paciente combativa.

“De pé na porta, toquei uma velha canção chamada ‘Bicicleta feita para dois'”, disse Fulton, que dirige um grupo de terapia musical em San Diego, além de ter produzido uma série de vídeos de terapia musical para educação continuada.

“Ela se aproximou e começou a cantar comigo.” Ela sabia todas as palavras de todos os versos, disse Fulton. “A equipe espiou por trás de mim e disse: ‘Mudança de planos, sim, você pode falar! Sim, você pode falar!'”.

O tambor é um instrumento importante na terapia musical. Você não pode tocar uma nota errada em um tambor (Cortesia de Kat Fulton)
O tambor é um instrumento importante na terapia musical. Você não pode tocar uma nota errada em um tambor (Cortesia de Kat Fulton)

Histórias como essa são comuns na área de Fulton. Ela diz que este tipo de terapia funciona porque os seres humanos são biologicamente ligados à música.

“Nosso caminhar tem um certo ritmo, nós respiramos em uníssono. Nossos corações estão batendo. Sentados aqui, agora mesmo você está fazendo música, quer você queira ou não”, disse ela.

Origens da terapia musical

Enquanto muitas culturas antigas consideram a música como uma forma de medicina, a terapia musical moderna só vem sendo utilizada há 65 anos. Mas, desde então, tem-se revelado uma modalidade extraordinária, com evidências significativas de cura. Especialmente para a disfunção neurológica e doença de Alzheimer, demência, Parkinson, acidente vascular cerebral e autismo; estudos têm mostrado que a terapia musical pode trazer avanços na recuperação, de tal forma que outros tratamentos não podem se igualar.

Alguns terapeutas musicais consideram como raízes de sua prática certos modelos específicos, tais como o trabalho pioneiro do compositor e pianista Paul Nordoff e seu colaborador, o educador Dr. Clive Robbins. A partir de meados dos anos 1950, os dois trabalharam com crianças portadoras de deficiência, com a ideia de que cada um possui uma sensibilidade inata para a música que pode ser utilizada para o desenvolvimento e crescimento pessoal.

Um dos casos mais famosos de Nordoff-Robbins é o de uma cliente com quem trabalharam durante o desenvolvimento inicial de seu modelo: Audrey, uma menina com sérias dificuldades de comportamento e de aprendizagem. Aos sete anos de idade, Audrey parecia destinada a uma vida de confinamento em uma instituição psiquiátrica, mas quando Nordoff e Robbins começaram a se relacionar com ela através da música, os obstáculos ao seu desenvolvimento começaram a se desvanecer. Através de canções, tambores e acompanhamento de piano, Audrey deixou a instituição e, posteriormente, foi para a Universidade, resultado que os médicos nunca haviam cogitado antes que ela passasse pela terapia musical.

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Com a evolução da tecnologia promovendo novos entendimentos da neurociência, os recentes desenvolvimentos em habilidades de cura baseados em música estão surgindo o tempo todo. Pesquisas recentes têm mostrado que certas regiões do cérebro podem mudar em resposta à intervenção musical. Por exemplo, vítimas de acidente vascular cerebral que não podem dizer as palavras “happy birthday” muitas vezes conseguem cantá-las, dando aos terapeutas uma ponte para, eventualmente, recuperar a fala.

Fulton tem centralizado seu tratamento na unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN), onde os bebês prematuros muitas vezes experimentam dificuldades significativas com todos os procedimentos que suportam. O tratamento consiste em música ao vivo, mas antes que Fulton toque uma nota, ela examina os antecedentes culturais da criança e as preferências musicais de seus pais para selecionar o material adequado. Ela também pede para que a mãe cante, porque sua voz é mais familiar ao bebê.

"Muitos colégios estão eliminando a música do currículo, mas talvez também estejam eliminando currículos que nos ajudam a ter habilidades cognitivas básicas," disse o Dr. Nadine Gaab (Highwaystarz-photo/iStock)
“Muitos colégios estão eliminando a música do currículo, mas talvez também estejam eliminando currículos que nos ajudam a ter habilidades cognitivas básicas”, disse o Dr. Nadine Gaab (Highwaystarz-photo/iStock)

O protocolo é chamado de estimulação multimodal, onde o terapeuta musical fornece a canção de ninar, e outros contribuem com uma massagem ou um delicado balanço para dar ao bebê uma experiência reconfortante que aos bebês prematuros, muitas vezes, falta, no estéril ambiente hospitalar.

“A pesquisa mostra que isso realmente reduz o tempo que a criança permanece no hospital, o que também é uma enorme economia de custos. Isso ajuda o bebê a amadurecer mais rápido e habituar-se mais rápido a estímulos adversos”, disse Fulton.

Manuseie com cuidado

A maioria de nós sabe que a música nos faz sentir bem, mas pode levar anos de treinamento até se conseguir usar a música como uma ferramenta para curar os outros. Os terapeutas musicais precisam conhecer não apenas o básico para fazer música, mas também devem ajustar cuidadosamente o tratamento para atender às necessidades do indivíduo.

Segundo o Dr. Brian Abrams, terapeuta musical, professor de música e coordenador de terapia musical na Montclair State University, enquanto a música tem o poder de curar, os terapeutas musicais são treinados para trabalhar com a música de forma competente e responsável, com base em anos de supervisão e treinamento completo.

“É incorreto dizer que a música é inofensiva. A música é uma ferramenta poderosa, e como tal tem o potencial de ajudar ou de prejudicar e, portanto, não é estritamente benigna. Além disso, é incorreto chamar a música de não invasiva. A música penetra em nós. Trata-se de algo que penetra nas partes mais profundas de nós mesmos, fisiologicamente, psicologicamente e emocionalmente”, disse ele. Um treinamento rigoroso, portanto, é essencial.

Enquanto muitos terapeutas musicais trabalham com as necessidades especiais de seus pacientes, Abrams usa a música como uma forma de psicoterapia, onde os pacientes podem expressar e trabalhar seus medos, traumas, dificuldades emocionais e outros obstáculos para o seu potencial humano através de ouvir a música, sua improvisação e composição.

Abrams disse que a formação inadequada em música, mesmo com as melhores intenções, traz o risco de prejudicar, como por exemplo traumatizar novamente uma pessoa com uma experiência musical ligada a um evento adverso em sua vida. Ele disse que a menos que o médico compreenda o contexto de uma pessoa e saiba como lidar com os problemas que podem surgir durante o tratamento, são vulneráveis a uma variedade de fatores que podem provocar traumas.

“É como na fisioterapia. Você precisa de alguém que seja formado em anatomia”. O terapeuta musical precisa estar capacitado para entender todas as nuances do contexto fisiológico, psicológico, emocional e social do paciente, disse ele.

Quando aplicado corretamente, Abrams disse que seus pacientes são capazes de trabalhar de uma forma que nem sempre é possível em terapias verbais, porque as experiências musicais muitas vezes permitem que as pessoas acessem e trabalhem mais diretamente os aspectos da sua psique.

“Muitas vezes a comunicação verbal envolve processos de terapia musical, mas a principal ‘ação’ se produz com a música”, disse ele.

“Os pacientes podem liberar as emoções, acessar conhecimentos e encontrar novas maneiras de ver as coisas das quais não falam. Com a música, experimentamos coisas em tempo real, assim como fazemos na vida, com as emoções que são facilmente acessíveis.”

Construindo uma relação musical

A terapia musical tem uma grande variedade de formas, mas muitas vezes trata-se de conseguir que os pacientes façam sua própria música. Enquanto para um músico poderia levar décadas para dominar um instrumento, os terapeutas musicais têm muitos truques para que mesmo aqueles sem formação musical possam começar a tocar imediatamente. Geralmente começa-se cantando ou tocando tambores, mas Abrams mantém uma ampla variedade de instrumentos musicais disponíveis para seus pacientes, para que eles possam expressar uma ampla variedade de emoções.

“Na maioria das vezes o paciente começa, então eu entro em um diálogo musical com ele e o incentivo a expressar o som, mais plenamente, seja através do instrumento ou da voz. Gostaria de incentivá-los a atribuir letras ao que estão cantando através da sensação emocional e estética da música”, disse ele.

Terapeutas musicais geralmente são músicos realizados, mas um bom médico não permite que ninguém interfira no objetivo terapêutico.

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“A verdadeira cura vem da relação terapêutica; a música é apenas uma ferramenta para ajudar a construir essa relação de forma que o paciente possa alcançar sua própria transformação”, disse Fulton. “Nossa tarefa como terapeutas é simplesmente ficar fora do caminho para que nosso paciente realize o trabalho.”

A terapia musical pode curar uma pessoa específica ou um grande grupo. Para uma família enfrentando circunstâncias extremas, por exemplo, fazer música lhes proporciona uma chance de unir-se em harmonia.

“Se você tem um ente querido em um asilo, a música é um motivador incrível para que a família vá visitá-lo, quando as visitas são muito raras”, disse Fulton. “Caso contrário, a visita é dolorosa porque talvez a avó não saiba que alguém já não está mais na família. Quando a avó está cantando para você, cria-se uma experiência positiva, significativa e memorável para ser compartilhada com a família”.

Os benefícios de fazer música

O falecido Dr. Oliver Sacks era um neurologista de renome e um forte defensor da terapia musical. Seu livro de 2007 “Musicophilia” conta várias histórias sobre os efeitos da música sobre o cérebro humano, assim como o desejo inato do cérebro para a música. Uma das histórias fala sobre um homem que, depois de ser atingido por um raio, desenvolveu uma paixão avassaladora por aprender a tocar piano.

Outros tópicos incluem a síndrome de Williams (uma condição em que os doentes sofrem deficiências no desenvolvimento e problemas cardiovasculares, mas também tem uma afinidade especial para a música), e as pessoas com amusia – total incapacidade de perceber a música. Para aqueles que sofrem com amusia, uma sinfonia pode soar como um barulho de panelas e frigideiras.

Sacks se uniu a outros especialistas em música para compartilhar suas opiniões sobre o documentário “Vivo por dentro”, de 2014, que mostra como um programa de iPod ajuda pacientes com Alzheimer quase não-falantes a recuperar seu brilho próprio. Quando um cuidador coloca os fones de ouvido em um paciente, de repente uma cara triste, sem esperança, sorri feliz.

Se ouvindo gravações se obtém benefícios significativos, imagine o que a música ao vivo pode fazer. Pesquisas descobriram que ao longo do tempo os músicos desenvolveram mudanças significativas nas redes funcionais e estruturais do cérebro.

Dr. Gottfried Schlaug, diretor de música, de neuroimagem e laboratórios de recuperação de acidentes cardiovasculares, chefe da divisão de doenças cerebrovasculares no Beth Israel Deaconess Medical Center, além de professor associado de neurologia no Beth Israel e Harvard Medical School, aponta para a estrutura do cérebro chamada fascículo arqueado. Esta estrutura percorre a partir da porção auditiva do cérebro no lóbulo temporal até uma região no lóbulo frontal que atribui sons para ações motoras. Comparações de imagens mostram que em músicos profissionais essa estrutura é visivelmente maior.

Segundo Schlaug, o fascículo arqueado é de vital importância para a percepção de sons, e para a comparação de novos estímulos sonoros com algo que já está armazenado em nossa memória. Ele também desempenha um papel importante na aprendizagem e utilização da linguagem.

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Schlaug e sua equipe de pesquisa está atualmente avaliando a música com base nos protocolos usados para ajudar as pessoas com Parkinson, para suavizar seus movimentos bruscos e ajudar as vítimas a recuperar e reforçar sua língua.

Em março de 2015, em um seminário sobre música e medicina na Faculdade de Medicina de Harvard, Schlaug disse que fazer música é uma ferramenta de reabilitação notável, uma vez que não só conecta o som com o sistema motor, mas também tem uma “vantagem ao unir um estímulo emocional e isso estimula áreas de prazer e recompensa no cérebro “.

A pesquisa adicional feita pelo Dr. Nadine Gaab, professor de pediatria na Harvard Medical School e pesquisador-chefe nos laboratórios do Hospital Infantil de Boston em neurociência cognitiva, sugere que os músicos apresentam melhor função executiva, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e fluidez verbal do que os não-músicos.

Gaab, em um seminário em Harvard, disse que é importante considerar a tendência de substituição de programas de música por mais leitura ou aulas de matemática, para aumentar os resultados dos testes.

“Muitas escolas estão eliminando a música, porém também estão eliminando currículos que melhoram as habilidades cognitivas básicas”, disse ele.

De acordo com Abrams, excluindo a educação musical, “nos excluímos de uma parte fundamental de nossa humanidade.”

“As artes não são uma matéria”, disse ele. “Elas são como a comida. São necessárias para o ser humano. São totalmente parte de uma pessoa. Os cuidados com a saúde nos ajudam a permanecer vivos e fisicamente funcionais, mas queremos apenas nos manter vivos e funcionando? Precisamos de experiências significativas. Temos de ver a beleza de entrar em relações uns com os outros. É disso que se trata.”

 
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