Máfia chinesa entra em guerra para controlar doações de sangue

Gangues com facas estão em conflito nos arredores de hospitais chineses e atacando-se mutuamente para controlar o sangue proveniente de doações.

“Quem atua nesta área têm de saber lutar, entende o que quero dizer?” afirmou recentemente Xiao Su, diante do Primeiro Hospital Afiliado da Universidade Soochow, na província de Jiangsu.

Xiao Su é membro de uma gangue que controla o comércio de sangue em dois hospitais na China. Estes grupos prosperam por causa dos regulamentos vagos na China sobre as doações de sangue, que facilitam o surgimento deste mercado negro.

Doações de sangue são extremamente limitadas na China, a falta de confiança social é uma razão para isso, há uma lei no país que determina quem pode receber uma transfusão de sangue. A norma diz que, se um paciente for capaz de apresentar um certificado mostrando que têm incentivado amigos e familiares a doarem sangue, então ele pode obter sangue. Mas nem sempre é fácil convencer parentes e amigos a doar.

É aí que as gangues entram.

O esquema funciona assim: As gangues anunciam online o pagamento por doações de sangue. Eles guiam pessoas dispostas através do processo, fornecem informações pessoais do paciente para o certificado, e posam como amigos ou familiares quando acompanham os doadores até o hospital. Eles recebem sua recompensa e, em seguida, a gangue vende o certificado para o paciente que necessita de transfusão.

O negócio é tão lucrativo que várias gangues surgiram, cada uma controlando seu próprio território, o que normalmente envolve as doações de sangue e respectivos certificados num hospital ou área.

“Veja meu patrão lá, veja quanto músculo ele tem. Ele trabalha duro todos os dias”, disse Xiao Su a um repórter do Qilu Evening News. Xiao Su trabalha para o Sr. Zhou, o chefe de uma gangue de tráfico de sangue.

Sentado numa calçada, com cabelo curto e uma jaqueta preta de motociclista, Xiao Su disse ao repórter que esteve envolvido numa briga de faca no mesmo local menos de uma semana após começar a trabalhar para Zhou. “Este negócio envolve lutas sangrentas.”

Um lucrativo comércio

Xiao Su estima ganhar cerca de 30.800 dólares por ano com o tráfico de sangue, uma soma considerável já que o trabalhador chinês médio ganha apenas 1.200 dólares no mesmo período. Mas seu pagamento é pequeno em comparação com os cerca de 154 mil dólares que seu chefe Zhou faz por ano.

A gangue de Zhou ganha dinheiro abusando da legislação para doação de sangue na China, que tem um artigo que incentiva a família ou amigos de pacientes hospitalares a doarem sangue em troca de um certificado, um esquema de doação casada que seria supostamente para ajuda mútua.

Mas porque os hospitais chineses enfrentam constante escassez de sangue (a mídia estatal China Daily afirma que houve 9,4 doações por mil pessoas em 2014 na China, menos do que 11,7 a 36,8 doações por milhar em países de alta e média renda, segundo a Organização e Mundial de Saúde), e porque os hospitais não podem facilmente verificar o vínculo real entre doadores e pacientes, o mercado negro criado pelo crime organizado de tráfico de sangue prospera.

O Primeiro Hospital Afiliado da Universidade Soochow tem também uma política que involuntariamente incentiva o mercado negro local coordenado por Zhou e outras duas gangues. O hospital só fornece sangue de seu banco para pacientes que necessitam de tratamento de emergência, e requer que todos os pacientes que não correm risco de morte que utilizem o esquema de doação de sangue casada.

Publicidade online

As redes de tráfico de sangue operam através de mídias sociais ou solicitação direta, segundo o Qilu Evening News.

Um anúncio típico de doação de sangue publicado no popular serviço de mensagens chinês WeChat diz o seguinte: “Procura-se doadores de sangue, compensação de 200 yuanes por 200ml, 400 yuanes e um presente no valor de 100 yuanes por 400ml. O doador deve ter pelo menos 18 anos. Doadores do sexo masculino devem pesar pelo menos 52kg, e doadoras 47kg. Os braços devem estar livres de marcas de agulha.” Um número de telefone no final do anúncio finaliza a mensagem.

Xiao Su disse ao Qilu Evening News que recentemente ele abordou um homem no centro de doação de sangue da Cruz Vermelha de Suzhou e convenceu-o a fazer uma doação casada. Antes de emitir o certificado, o médico do hospital não tomou qualquer medida para verificar a relação do homem com o paciente que receberia o sangue.

Guerras territoriais entre gangues de sangue não estão limitadas à província costeira de Jiangsu. Em 2013, quatro membros de gangues foram sentenciados à prisão quando dois grupos rivais se confrontaram diante do Hospital Jishuitan em Pequim, de acordo com o portal de notícias chinês Netease.

Um mercado negro

O Ministério da Saúde do regime chinês tem tentado limitar o comércio de sangue restringindo a quantidade de sangue que um hospital pode armazenar proveniente de doações casadas, enquanto as autoridades locais na cidade de Wuhan simplesmente proibiram doações casadas, segundo a revista de negócios Caixin.

Mas o mercado negro de doações de sangue não deve parar tão cedo porque os cidadãos chineses geralmente não são favoráveis à doação de sangue, consequência de uma série de escândalos nas últimas décadas.

Nas décadas de 1980 e 1990, autoridades de saúde chinesas encorajaram agricultores a venderem seu sangue e plasma para hospitais ou bancos de sangue, mas, devido às condições precárias dos procedimentos realizados, centenas de milhares contraíram HIV/AIDS. Estima-se que entre 500 e 700 mil pessoas foram afetadas apenas na província de Henan, segundo o site de direitos humanos Canyu.org.

Em 2011, um escândalo envolvendo Guo Meimei, também afetou a Sociedade da Cruz Vermelha da China em seus esforços para coleta de sangue. Guo, uma jovem que postou fotos de sua vida extravagante na internet, afirmou ser uma gerente da Cruz Vermelha em sua conta de mídia social. O escândalo deixou o povo chinês ainda mais desconfiado da Cruz Vermelha e desfavorável a apoiar suas iniciativas.

 
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