Publicado em - Atualizado em 01/06/2017 às 11:47

Luta política na Gestapo Chinesa expõe fragilidade da polícia secreta

A Agência 610 foi criada pelo ex-líder do Partido Comunista Chinês, Jiang Zemin, em 1999

Polícia paramilitar chinesa (Mark Ralston / AFP / Getty Images)

Polícia paramilitar chinesa (Mark Ralston / AFP / Getty Images)

Segundo a mídia chinesa, Fu Zhenghua, atual vice-ministro de Segurança Pública da China, foi recém-nomeado para assumir a chefia da Agência 610, uma das polícias secretas do Partido Comunista Chinês. Entretanto, dentro de poucas horas a notícia foi excluída de todos os grandes sites.

A incomum matéria foi publicada durante a visita do líder chinês, Xi Jinping, aos Estados Unidos. Há indícios de que nos últimos três anos, Xi tem marginalizado esse núcleo da polícia secreta chinesa.
A polícia secreta

A Agência 610 é uma entidade obscura com amplos poderes, muitas vezes comparada a Gestapo, a polícia secreta da Alemanha nazista. Foi criada pelo ex-líder do Partido Comunista Chinês, Jiang Zemin, em 10 de junho de 1999, com o propósito expresso de levar a cabo a perseguição ao Falun Gong.

O Falun Gong é uma prática espiritual chinesa baseada nos princípios da verdade, compaixão e tolerância, que inclui meditação. Em 1999, entre 70 e 100 milhões de pessoas praticavam o Falun Gong na China, de acordo com dados oficiais do regime chinês e do Falun Gong.

Fu Zhenghua (Reprodução)

Fu Zhenghua (Reprodução)

Organizações de direitos humanos, assim como diversas publicações, comprovam que a perseguição à prática tem sido uma das mobilizações de segurança mais ferozes na história chinesa recente, envolvendo encarceramentos arbitrários em massa, torturas e extração forçada de órgãos. Em muitos casos os adeptos do Falun Gong são forçados a renunciar a suas crenças e prometer lealdade ao Partido Comunista. Quem dirige esses procedimentos é a Agência 610.

A liderança da Agência 610 sempre esteve envolta em segredos, todavia, desde a ascensão de Xi Jinping ao poder, dois grandes acontecimentos indicaram que esse núcleo estava sendo apagado da estrutura do partido.

O primeiro ocorreu quando Li Dongsheng – subalterno do ex-czar da segurança chinesa, Zhou Yongkang – foi purgado em dezembro de 2013, e o título de diretor da Agência 610 foi revelado ao público. Para aqueles que acompanham política chinesa, sabia-se que a Agência já não tinha mais um líder.

O segundo foi quando, Liu Jinguo, assumiu o cargo em janeiro de 2014, porém o fato foi timidamente mencionado na mídia chinesa no final daquele ano. Ele havia sido nomeado segundo-em-comando da agência de investigação interna do Partido Comunista Chinês, assim indicando que suas energias não seriam dedicadas integralmente ao trabalho da Agência 610. Em maio de 2015, a notícia de que Liu já não era chefe da Agência 610 foi divulgada com destaque pela grande mídia chinesa, incluindo a mídia porta-voz, Diário do Povo.

Ambos os gestos, estritamente falando, foram políticos, disse Xia Yiyang, diretor sênior da ‘Fundação Lei pelos Direitos Humanos’, cujo trabalho se concentra no rastreamento das operações do aparelho de segurança da China.

“Os anúncios tiveram motivos políticos. Não havia necessidade de expor o título de Li Dongsheng. Quando isso foi feito, uma mensagem foi dada. Depois, a indicação de Liu Jinguo foi mantida relativamente sob sigilo”, disse ele em uma entrevista por telefone ao Epoch Times.

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No início de 2015 a Agência 610 pareceu ter ficado sem um líder, pelo menos, ninguém foi publicamente anunciado. Analistas apontam que a intenção do líder Xi Jinping é manter o núcleo sem força.

A nova posição de Fu Zhenghua foi relatada pelo Diário de Xinjiang, em um artigo que listava os 69 delegados da Central do Partido que participaram de uma cerimônia celebrando o 60º aniversário do controle da China sobre a região de Xinjiang, povoada por uigures, uma etnia de maioria muçulmana.

A informação reverberou pela internet chinesa em portais como Sina, Phoenix, e The Paper. Entretanto, em poucas horas a notícia foi censurada. Não se viu nenhuma menção nas mídias porta-vozes do partido comunista: Diário do Povo ou Xinhua.

Xia, da ‘Fundação Lei pelos Direitos Humanos’, delineou duas possibilidades: uma mensagem à facção que têm participação na perseguição ao Falun Gong sobre o futuro da Agência 610, com a nomeação de Fu Zhenghua. A outra é que foi simplesmente um vazamento de informação.

Está claro, porém, que a Agência 610 “não é prioridade da liderança atual”, disse Xia. “Eles não querem ter este departamento no centro de qualquer política. Eles não querem sequer mencionar este escritório em público. ”

Existem duas considerações institucionais e pessoais relacionados à nomeação de Fu Zhenghua.

Fu, muda de lado

O histórico de Fu é fortemente ligado a Zhou Yongkang, o ex-czar de segurança purgado do Partido Comunista Chinês. Ao longo dos anos, ele esteve fortemente envolvido na campanha anti-Falun Gong, em seu papel como chefe da Secretaria de Segurança Pública de Pequim.

Entretanto, quando Xi Jinping começou a caçar Zhou Yongkang, Fu rapidamente virou a casaca, poupando-lhe o mesmo destino de seu patrono, de acordo com informações de mídia de Hong Kong.

Fu, assim como seu antecessor, Liu Jinguo, era pouco familiar com a Agência 610. Outra possível indicação para liderança do departamento, de acordo com Xia Yiyang, era Chen Zhimin, atual vice-ministro de segurança pública e ex-chefe do temido Departamento de Segurança Doméstica (Guobao). “As operações da Agência 610 são muito específicas”, disse Xia. “Não é que qualquer um que pode assumir e executar as políticas como uma ‘cria’ da casa”.

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A nomeação sucessiva de dois “estranhos” ao comando da Agência 610 em um curto período, em vez da promoção de um membro experiente do própria polícia secreta, como foi feito no passado por meio de lideranças internas como: Wang Maolin, Liu Jing, ou Li Dongsheng, é também uma indicação da atenuação da influência institucional da Agência 610, afirma Xia.

Para se entender o papel da Agência 610 no contexto do atual governo chinês, é necessário saber que o departamento é uma arma política do ex-líder Jiang Zemin, o principal rival de Xi Jinping, que assumiu o poder no final de 2012. Todos os altos funcionários do Partido Comunista Chinês purgados na campanha ‘anti-corrupção’ de Xi foram, se não especificamente designados por Jiang, pelo menos eram leais ao ex-líder chinês.

Um caminho tortuoso

A resistência para grandes mudanças na configuração das forças de segurança chinesas podem, por hora, impedir uma extensa purga na Agência 610. Qualquer alteração nesse sentido será, consequentemente, acompanhada por uma mudança na política da perseguição ao Falun Gong, que então torna a questão política uma tanto sensível e espinhosa.

Em um artigo recente do jornal ‘China Quarterly’, os filósofos Caylan Ford e Stephen Noakes usaram a teoria de “dependência da trajetória” para explicar como, depois de dedicar recursos maciços na infrutífera perseguição ao Falun Gong, existe uma “suficiente institucionalização do sistema onde a reversão ou súbita parada [da perseguição] gerariam custos extremamente elevados”.

A nomeação de Fu Zhenghua parece ser uma expressão dessa dependência em curso, apontam os filósofos.

“É um sinal de que institucionalmente a Agência 610 continua viva como uma entidade do Partido Comunista Chinês para perseguir o Falun Gong e outros grupos religiosos ou espirituais visados pelo Partido Comunista”, disse Sarah Cook, pesquisadora de China na ‘Freedom House’ e do co-autora de uma análise das operações da Agência 610.

Embora a nomeação de Fu Zhenghua possa sinalizar uma intenção por parte das autoridades chinesas de não revigorar a perseguição ao Falun Gong, a instabilidade da Agência 610, pelo menos temporariamente, pode elevar a intensidade da perseguição nas bases de operação.

“Se você tem uma situação onde as autoridades não tem certeza do futuro do departamento, isso pode dar margem para incertezas permitindo que núcleos locais não implementem as ordens de cima”, disse Cook. “Isso poderia ser outro momento de consolidação da Agência 610 “.

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