O lucrativo empreendimento de lavagem cerebral na China

Arrastar pessoas de suas camas, trancafiá-las em segredo durante meses ou anos e submetê-las à educação ideológica à força não seria, aparentemente, uma forma muito produtiva da atividade econômica. Mas os funcionários que administram este sistema na China – que nem sequer existe oficialmente – parecem estar ganhando um bom dinheiro.

Zang Kuidong, uma professora da província de Shandong e praticante do Falun Gong, descobriu após ter sido libertada de um centro de lavagem cerebral em 2013 que os funcionários exigiram 5 mil yuanes (US$ 800, o equivalente a mais de 6 meses de renda rural na China) de seu empregador. Os quatro guardas que a prenderam arbitrariamente extorquiram um total de 20 mil yuanes por ‘hospedarem’ Zang e outros três por duas semanas.

Os guardas inclusive contrataram um cozinheiro profissional para preparar suas refeições requintadas, e pagaram-no com o dinheiro extorquido. Os adeptos do Falun Gong receberam um único prato de legumes simples por noite para ser compartilhado entre eles.

O relato, publicado pelo Minghui, um website que traz testemunhos em primeira mão da perseguição ao Falun Gong na China, explica este esquema dos guardas prisionais e funcionários da segurança pública nos centros de lavagem cerebral em toda a China. Nestas instalações ad hoc, estabelecidas em casas abandonadas, edifícios governamentais abandonados, hotéis remotos ou complexos de edifícios construídos fora de áreas suburbanas, guardas sabem que sangrar suas vítimas pode render-lhes ganhos financeiros.

Um dos alvos principais destes centros de lavagem cerebral, como são chamados na China, são os praticantes do Falun Gong, uma disciplina espiritual que tem sido perseguida pelas autoridades desde 1999, a polícia política da China prende adeptos do Falun Gong e tenta forçá-los a desistir de suas crenças e prometer lealdade ao Partido Comunista.

Xu Ying, uma professora primária na província de Heilongjiang, foi submetida a este processo: ela foi raptada em seu local de trabalho em março deste ano e em seguida colocada no Centro de Detenção Florestal de Hailin. Os guardas a jogaram no chão e pisaram em seu rosto, cuspiram nela e “espancaram-na violentamente”. Mais tarde, ela foi algemada a um armário e forçada a assistir vídeos de propaganda anti-Falun Gong.

Outras vítimas têm sido eletrocutadas com bastões elétricos, penduradas pelos pulsos ou têm seus membros amarrados em diferentes posições e então estirados em direções opostas, provocando dor agonizante que pode durar dias, enquanto são eletrocutados, espancados e humilhados pelas forças de segurança chinesas, que lhes prometem que a tortura somente acabará se eles desistirem de suas crenças espirituais.

A campanha contra a prática do Falun Gong era a prioridade política do Partido Comunista Chinês (PCC) nos primeiros anos da perseguição, que foi iniciada e conduzida pelo ex-líder chinês Jiang Zemin e seus asseclas. Uma força-tarefa especial do PCC, a Agência 610, foi criada para supervisionar a campanha. Com uma enxurrada de propaganda diária nos meios de comunicação, o PCC criou uma atmosfera de crise e terror, capturando e torturando até a morte os adeptos do Falun Gong em todo o país.

Embora a violência continue, nos últimos anos a campanha se desvaneceu ligeiramente como uma missão política prioritária, e no último ano o PCC inclusive decidiu fechar sua rede de campos de trabalho forçado, o principal meio de sumir com os adeptos do Falun Gong.

Mas a persistência da campanha de perseguição contra o Falun Gong depois de 15 anos pode chocar pela fortuna que os funcionários são capazes de acumular administrando os centros de lavagem cerebral que têm como alvo os praticantes do Falun Gong.

“As autoridades de segurança do Partido Comunista transformaram os centros de detenção e de lavagem cerebral numa fábrica de dinheiro, motivando ainda mais os funcionários de baixo escalão a realizarem e persistirem com os abusos”, disse Erping Zhang, porta-voz do Centro de Informação do Falun Dafa, num comunicado enviado por e-mail.

“Além dos praticantes do Falun Gong inocentes serem presos e suas famílias serem vítimas de perseguição religiosa, eles também estão sujeitos à extorsão por meio deste processo corrupto.”

Uma pesquisa recente do Minghui, um website que relata em primeira mão a perseguição na China, mostra em detalhes, por meio de uma compilação de testemunhos pessoais e de dados recolhidos da mídia e de websites oficiais chineses, como as autoridades de segurança são capazes de lucrar com a administração dos centros de lavagem cerebral.

O Minghui sugere que há três vias principais de enriquecimento ilícito dos funcionários: desvio de verba de investimento em equipamentos, instalações e administração; exigir “taxas” dos locais de trabalho estatais cujos funcionários eles prenderam e estão submetendo à lavagem cerebral; e extorquir diretamente dos familiares das vítimas.

Com base em dados incompletos compilados pelo Minghui, os autores sugerem que o dinheiro que circula na indústria de lavagem cerebral na China esteja na casa dos bilhões de yuanes (centenas de milhões de dólares).

A renda dos funcionários diretamente destinada pelo regime – incluindo bônus para trabalho de lavagem cerebral bem-sucedido, além de “taxas de educação” para cada vítima e resgates extraídos dos familiares que desejam libertar seus parentes presos – chega a dezenas ou centenas de milhões de dólares.

Por exemplo, quando um adepto do Falun Gong é enviado para um centro de lavagem cerebral, as autoridades de segurança vão a seu empregador e exigem uma “taxa de educação” mensal. Isto pode ser muito maior, até dez vezes maior, do que a renda ou salário médio. Os empregadores, particularmente os empregadores estatais, também podem ser obrigados a pagar taxas pelos “companheiros” que acompanham as vítimas presas e que os seguem 24 horas por dia.

A renda por este canal é estimada em mais de US$ 485 milhões (3 bilhões de yuanes) nos últimos 15 anos, sugere o Minghui. Mas os “companheiros” mesmos – que frequentemente são presos condenados por crimes violentos ou tráfico de drogas – só recebem uma pequena remuneração por seus serviços, enquanto os guardas levam o resto.

Os fluxos de receitas são garantidos por funcionários das Agências 610 provinciais, que exigem quotas de “transformações” – ou seja, casos bem-sucedidos de doutrinação ideológica – dos centros de lavagem cerebral.

Se um centro não recebe praticantes do Falun Gong suficientes para cumprir as quotas, as Agências 610 locais prenderão mais praticantes. Para garantir que os empregadores enviem um número adequado de funcionários para serem transformados, um distrito na cidade de Nanjing exigiu que empregadores e comitês residenciais paguem depósitos antecipados por cada funcionário.

Uma delegacia de polícia em Fushun contratou falsos praticantes do Falun Gong para serem “transformados” quando eles não satisfizeram sua quota de captura. Os empregadores que se recusam a cumprir as normas impostas são ameaçados e multados pela Agência 610.

As despesas operacionais são altas nos centros, que requer a construção, instalação, manutenção e substituição de vários tipos de estruturas de confinamento e equipamentos de tortura, incluindo solitárias, sistemas de vigilância, bastões elétricos, algemas, correntes, “leitos da morte”, e muito mais.

Muitos destes centros comportam centenas de praticantes do Falun Gong, como o centro Erehu, onde há cerca de 400-500 praticantes detidos.

O Centro de Lavagem Cerebral de Pequim custa entre 400-500 mil yuanes (US$ 64-80 mil) por dia para operar, enquanto a Centro de Lavagem Cerebral de Banqiao, na província de Hebei, custa quase 3 milhões de yuanes (US$ 485 mil) por ano, segundo estimativas do Minghui.

O chefe de um centro frequentemente acumula dezenas de milhões de yuanes (milhões de dólares) em renda ilícita enquanto supervisionava a operação de um centro de lavagem cerebral dessa escala, afirma o Minghui. Esses funcionários costumam fazer viagens oficiais de “treinamento” de negócios, recebem grandes bônus e dirigem veículos de luxo.

A indústria continua a prosperar e expandir, especialmente agora que as instalações de campo de trabalho forçado foram renomeadas como “centros de reeducação legal” e são usadas para transformação ideológica, afirma o Minghui.

“Estes centros ilegais trancam as pessoas e as forçam a se submeter às autoridades comunistas, desistir de seus ideais, aspirações ou escolhas existenciais individuais, e seguir os comandos das autoridades sem questionamentos. Essa é sua função política”, disse Tang Jitian, um advogado de direitos na China, que tem sido ativo na luta contra os centros de lavagem cerebral.

“Mas, na realidade, há também uma motivação financeira: a Agência 610 e as autoridades político-legais extorquem dinheiro e o colocam em seus bolsos. O lucro é impressionante, então, dessa perspectiva também, a existência dessas instituições é um veneno para a sociedade.”

 
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