Livros de mais de 30 escritores sinceros são proibidos na China

Internautas chineses dizem que o Estado chinês proibiu a venda de livros de mais de 30 estudiosos e escritores. Algumas editoras postaram declarações em websites chineses que reforçam essa crença. A lista de livros proibidos inclui vários escritores liberais – alguns apoiaram o movimento pró-democracia ‘Ocupar Central’ em Hong Kong, alguns fizeram críticas ao sistema político da China e alguns defendem o constitucionalismo e o estado de direito.

Desde 11 de outubro, muitos chineses advogados, escritores e cidadãos têm circulado na Internet a notícia de que a Administração Estatal de Imprensa, Publicação, Filme e Televisão proibiu os livros do famoso historiador chinês Yu Ying-shih e do escritor taiwanês Giddens Ko.

Também foram proibidos os livros do poeta e romancista chinês Zheng Shiping (mais conhecido pelo pseudônimo Yefu), do economista chinês Mao Yushi, do professor de direito chinês Zhang Qianfan, do escritor e apresentador de TV em Hong Kong Leung Man-tao e do colunista Xu Zhiyuan, entre outros que fazem parte de uma relação contendo o nome de mais de 30 pessoas.

O usuário erheixifu012 da rede de relacionamento Sina Weibo postou a foto de um documento – emitido em 10 de outubro pela Casa de Publicações do Povo de Shanghai – pelo qual todos os revendedores e lojistas são intimados a retirar das prateleiras os livros escritos por Yu Ying-shih.

Além dessa foto, cuja veracidade não pôde ser confirmada, não houve vazamento de outra evidência documental sobre a proibição nem houve confirmação oficial sobre a proibição. No entanto, em 13 de outubro, vários grandes portais da web, incluindo o Sina.com, noticiaram que muitas editoras confirmaram o rumor. Essas notícias foram posteriormente retiradas dos sites, embora as manchetes ainda possam ser vistas no Google.

Agindo imediatamente sobre a notícia da proibição, a popular rede de lojas China Dangdang rapidamente criou uma nova página com o título “Livros Que Você Não Conseguirá Comprar em Breve”, listando livros escritos pelos escritores que se acredita terem sido proibidos.

No topo dessa webpage é dito: “Pessoas diferentes gostam de livros diferentes, mas há alguns livros que, mesmo que você não queira lê-los agora, você deve comprá-los o quanto antes, porque em breve você não conseguira comprá-los em lugar algum.”

Ativistas e cidadãos chineses, motivados pela notícia da proibição dos livros, reclamaram em alto som. Hu Jia, um ativista de Pequim, disse à Rádio Som da Esperança, baseada nos Estados Unidos, que: “As publicações de um escritor são a sua fonte de renda, especialmente em se tratando de um mercado tão grande como o da China continental. Se seus livros foram proibidos de serem vendidos no continente, isso é uma pressão muito real… [O Partido Comunista Chinês] não ter sabido lidar com mais de 30 pessoas é, por um lado, uma vingança contra essas pouco mais de 30 pessoas e, por outro lado, é também algo feito para  assustar outros intelectuais e escritores.”

O professor de direito chinês Fan Zhongxin postou em sua conta no Sina Weibo, uma plataforma semelhante ao Twitter: “As autoridades [chinesas], quando dão ordens que violam publicamente os direitos constitucionais dos cidadãos, como essa proibição da venda dos livros de Yu Ying-shih e Zhang Qianfan, geralmente dão ordens via telefonemas ou instruções orais.”

“Eles não deixam qualquer prova documental; eles não se atrevem a emitir um documento oficial”, disse Hu. “Esse método faria até mesmo o Imperador Qin [famoso tirano na antiga China] e Adolf Hitler ficarem envergonhados. Diante de tão evidente violação da lei, não se pode nem mesmo encontrar provas materiais para uma possível ação judicial. Existe realmente estado de direito [na China]?”

Diante do repúdio e condenação dos internautas chineses a essa proibição a venda de livros, o jornal chinês porta-voz do Partido Comunista, o Global Times, publicou um artigo opinativo mediante o qual declara que livros que constantemente estão contra o sistema são impossíveis de serem mantidos em qualquer tipo de sociedade. Os dissidentes precisam entender claramente essa “lei de ferro”, escreveu o Global Times.

A notícia da proibição desses autores tem motivado os chineses a lerem seus livros.

“Eu nunca li os livros de Yu Ying-shih, mas quando ouvi dizer que seus livros foram proibidos, isso estimulou minha curiosidade para lê-los”, comentou o usuário “Lei e Ordem” na plataforma do microblog Weibo (os comentários foram excluídos da internet chinesa, mas foram recuperados pelo serviço Freeweibo.com, que arquiva mensagens censuradas e apagadas na mídia social da China continental).

“Eu sempre acreditei que, neste país [a China], um livro que é proibido é geralmente um bom livro e que vale a pena lê-lo”, continuou o internauta. “Proibir a fala é a melhor maneira de promover um autor. Quando você não está certo de algo, a palavra ‘proibido’ pode fazer a verdade mais clara para você.”

 
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