Livro de poesia faz um relato pós-moderno da tortura desumana na China

O fotojornalista chinês Du Bin, que foi solto em julho após uma detenção arbitrária da polícia de um mês, publicou online um livro que ele escreveu anos atrás detalhando a tortura e a impunidade na China. Trata-se de poemas, uma pintura, desenhos onomatopaicos e descrições de tortura brutal. O título do livro é “Escova de Dente” (“Toothbrush”).

Escovas de dente, na verdade, se tornaram instrumentos de tortura nas mãos da polícia chinesa e das forças de segurança, que as enfiam na vagina de mulheres praticantes do Falun Gong, uma disciplina espiritual que tem sido perseguida pelos últimos 14 anos na China, segundo relatos recolhidos por Du Bin.

O trabalho de Du Bin em expor que a perseguição provavelmente levou a sua detenção em 31 de maio, da qual ele foi solto em 9 de julho deste ano. No início do ano, ele lançou o filme “Sobre cabeças de fantasmas: As mulheres do Campo de Trabalho Masanjia“, que trata especificamente do Campo de Trabalho Mansanjia e das técnicas de tortura lá empregadas, e também publicou outro livro intitulado “Massacre da Praça da Paz Celestial”.

O livro recente, que tem uma página com a pintura “Noite Estrelada” de Van Gogh e consiste da poesia de Du Bin, foi originalmente publicado em Taiwan em 2011. Ele reflete principalmente a brutalidade e a crueldade da campanha do Partido Comunista Chinês contra os praticantes do Falun Gong.

“Escova de Dente”, bilíngue em chinês e inglês, pode ser baixado online no Boxun, um site sobre direitos humanos na China.

Uma entrada típica diz: “Inserindo um bastão elétrico em sua vagina./Descargas elétricas.”

Outra:
“O poderoso lhe diz (e ela diz a sorte):
Lave bem.
Arrancarei seus órgãos enquanto você estiver viva.
Ela se debate inutilmente no ar.
Gritos.
Não mais um som humano.”

Du Bin disse numa entrevista que seu livro é “difícil de ler”, mas que “o conteúdo é muito importante para nosso tempo. Essa tortura implacável deve acabar. Isso é uma vergonha para a humanidade.”

O livro também se refere à colheita de órgãos de praticantes do Falun Gong e aborda uma variedade de outros métodos de tortura – as masmorras de água, a alimentação forçada com tubos e muito mais – inventados por carcereiros na China para atormentar praticantes do Falun Gong na tentativa de fazê-los renunciar a suas crenças.

A introdução do livro começa assim: “9991 d.C. O comunismo unificou a Terra. Chamando-a de Império da Escova de Dente. O poderoso devastou toda a lei. Proibiu a discussão aberta do Direito. Mas ainda há aqueles que buscam a liberdade, a democracia, o estado de direito e a dignidade: os que se recusam a ser escravizados. Eles formaram um grupo disperso de rebeldes chamado Gonglunfa, ou Discussão Aberta do Direito.”

“Gonglunfa” é formado das sílabas de “Falun Gong” e “9991” provavelmente se refere a 1999, o ano em que o Partido Comunista Chinês começou sua campanha contra os praticantes do Falun Gong.

No parágrafo seguinte, ele escreve: “Esta é uma história pós-moderna. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.”

Du Bin diz que quando mostrou o livro a um repórter do New York Times, para o qual ele costumava trabalhar como fotógrafo contratado, e o indivíduo “suspirou ao ler cada página”.

Ele acrescentou: “Ele me disse que ficou muitíssimo comovido. E que ouviu sobre essas coisas descritas no livro antes. Depois que ele disse isso, eu não me senti inquieto mais. Acho que ele entende por que tive de escrever este livro. Desde então, eu tive a coragem de publicar o livro e dá-lo a todas as pessoas que gostariam de lê-lo.”

 
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