Lendo a Arte: Davi, a escultura icônica de Michelangelo

A estátua de Michelangelo, Davi, é um ícone ocidental de inquestionável magnificência.

Esculpida à mão a partir de mármore, a estátua de cinco metros e dezessete centímetros claramente nasceu da mão de um mestre. Formas idealizadas são caracterizadas por uma grandiosa fusão de elegância e força. A obra de arte irradia uma aura de eternidade, uma qualidade superior atemporal que talvez somente Rafael conseguisse incorporar de forma similar nas suas pinturas.

Contudo a composição não poderia ser mais simples: um nu masculino em contraposição, a cabeça virada de lado e seu único adereço, uma faixa em redor das costas, em grande parte fora de vista. No entanto, esta simplicidade não impediu os seus criadores de expressar ambos: conteúdo e emoção.

Criadores? Sim de fato. A estátua foi originalmente encomendada ao escultor Agostino di Duccio, anos antes de Michelangelo nascer. Por razões desconhecidas, Agostino abandonou o projeto quando estava sensivelmente a meio caminho de completar a forma das pernas, pés, tronco e alguns drapeados.

Dez anos mais tarde, Antonio Rosselino trabalhou em Davi brevemente, e após mais essa intervenção o trabalho permaneceu parado por mais 25 anos até que o jovem Michelangelo de apenas 26 anos convenceu as pessoas que encomendaram a peça de que ele era o homem ideal para terminar o trabalho. Trabalhou na peça mais de 2 anos, por vezes durante a noite, utilizando uma grande vela montada no seu chapéu para ter luz.

A história de Davi

Para reiterar a historia Bíblica de Davi, o jovem pastor que conquistou Golias, o guerreiro filisteu gigante, apenas com seu arpão e uma pedra, corta a cabeça do gigante e mais tarde torna-se o lendário rei Hebreu.

Era comum na segunda parte do século XV retratar Davi com a cabeça de Golias, mas aqui uma abordagem mais diplomática é usada para expressar o tema, um Davi solitário vislumbra o horizonte distante, o seu sobrolho franzido, avalia a força do seu oponente instantes antes da luta.

A sua expressão tensa contrasta fortemente com a sua pose relaxada. Ele está alerta, e ao mesmo tempo relaxado; sem medo, mas não gabarola. As suas pupilas são em forma de coração. Tudo o que ele vê é o alcance do seu coração, a sua postura gloriosa prevê já a vitória.

As imperfeições da estátua

Existem algumas imperfeições anatômicas na estátua que deixaram perplexos, ao longo dos séculos, aqueles que a apreciaram. Estas ‘falhas’ são difíceis de explicar, como simples erros, dado que Michelangelo era um profundo conhecedor da anatomia humana.

A cabeça de Davi demasiado grande e o seu torso ligeiramente aumentado são geralmente assumidos como uma escolha deliberada, para corrigir o volume diminuído da parte superior, que é percebida pela perspectiva do observador. A estátua tinha originalmente como destino o telhado da catedral de Florença.

É uma teoria que realmente faz sentido: nessa altura, a perspectiva não tinha segredos para os artistas italianos. Mas isso não explica a mão direita anormalmente grande.

Podíamos supor que o tamanho da mão direita tinha como propósito servir para equilibrar a atenção do observador, mas isto é pouco provável, pois a definição exagerada dos mamilos já é suficiente para equilibrar a nudez pélvica. Portanto qual a razão deste ‘erro’?

Michelangelo compreendeu a importância de fazer com que este rapaz pastor parecesse capaz de derrubar um gigante – e em mais do que um contexto. Junto com a motivação religiosa, o tema do desprivilegiado que se torna vencedor também é importante na conceção da obra.

Nessa altura, Florença era uma cidade-estado independente ameaçada por poderosos rivais. Não seria suficiente se Davi fosse somente um rapaz bem parecido, exibindo apenas beleza e elegância. Ele teria que dar a impressão de ser um indivíduo que não deveria ser desconsiderado. E assim é.

Michelangelo foi bem sucedido na expressão da história Bíblica com diplomacia e eficiência. Esta estátua não é a figura de um desprivilegiado – é um aviso imbuído de uma glória avassaladora. “Não importa o quão grande é o rufião ele irá pagar caro se desafiar o povo de Deus”.

Da base da estátua, essa mão enorme repousa ameaçadoramente como uma arma de alto calibre. Se houver desejo de confrontação, rapidamente esta se dissipa.

Nunca iremos saber em que medida a magnificência desta estátua contribuiu para assegurar a paz ou evitar invasões estrangeiras, mas sem dúvida a absoluta capacidade artística que esta peça inspira causou admiração dos estrangeiros e conseguiu mais respeito do que seria possível conseguir com uma mensagem ameaçadora.

Esta é a primeira parte de uma serie de artigos chamada ‘Lendo a Arte’. Nesta serie, irei explorar  grandes obras de arte de todas as épocas e analisar o que faz delas obras extraordinárias desde o óbvio ao velado.

Wim Van Aalst possui um mestrado em publicidade e design gráfico. Pintor auto-didata, ele começou o seu trabalho como artista profissional em 2008 ensinando aos estudantes as técnicas e teorias da pintura a óleo tradicional

 
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