José Dirceu é ‘Bob’ no esquema do Petrolão, segundo delação de Yousseff

O ex-ministro José Dirceu, que cumpre pena por arquitetar o esquema do Mensalão do PT, teve muitos codinomes em sua vida, quando agia na clandestinidade em grupos de esquerda durante a ditadura militar. Agora, as investigações da Operação Lava Jato da Polícia Federal revelam um novo apelido do ex-chefe do Partido dos Trabalhadores e homem forte do governo Lula, para identificar sua parte na contabilidade do propinoduto que sangrou a Petrobras.

Nas planilhas dos operadores do maior esquema de desvios de recursos públicos que se tem notícia, o petista José Dirceu era associado à sigla (codinome) “Bob”. As revelações foram feitas pelo doleiro Alberto Youssef, que durante uma década atuou como uma espécie de “banco” para lavar o dinheiro roubado da petroleira.

Em uma série de depoimentos à Polícia Federal, prestados entre os dias 9 e 13 de outubro de 2014, Youssef afirmou que o mensaleiro José Dirceu mantinha relação muito próxima – “eram amigos”, nas palavras do doleiro –, com o empresário Julio Camargo, da Toyo Setal. “Julio Camargo possuía ligações com o Partido dos Trabalhadores, notadamente com José Dirceu e Antonio Palocci”, disse ele.

Segundo Youssef, Dirceu e o também ex-ministro Antonio Palocci Filho, este homem forte tanto na gestão Lula quanto no início do primeiro governo Dilma Rousseff, utilizavam um jato Citation Excel, de propriedade de Julio Camargo, que ficava no Angar número 1 da companhia aérea TAM, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Mas o uso do jato não é o único elo entre o petista e o operador do Petrolão.

O doleiro descreve o esquema montado por Julio Camargo: segundo ele, o empresário tinha um testa de ferro, chamado Franco, a quem Youssef reconheceu em fotografia exibida pelos policiais. Trata-se de Franco Clemente Pinto, uma espécie de contador do dinheiro roubado da estatal, que utilizava um escritório no sexto andar de um edifício comercial ao lado do Shopping Cidade Jardim, na Zona Sul da capital paulista.

Franco detalhava a “contabilidade ilícita” – Youssef não informou os valores – em planilhas arquivadas em um pen drive protegido por senha. Nessas tabelas, José Dirceu era “Bob”, Youssef era conhecido como “Primo”. Diz ainda que o empresário também instrumentalizou propina da empreiteira Camargo Corrêa para agentes públicos e bancar caixa dois de partidos.

Youssef voltou a implicar o PT como beneficiário direto da propina movimentada no escândalo do Petrolão: disse que o partido recebeu propina em uma obra da empresa Toshiba, a licitação da casa de força do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Segundo ele, foram entregues 400.000 reais à cunhada do tesoureiro petista, João Vaccari Neto, chamada Marice. “O valor do PT foi negociado com João Vaccari”, disse Youssef. Uma outra parcela de 400.000 reais chegou a Vaccari pelas mãos de Rafael Ângulo Lopez, que trabalhava para o doleiro.​

Para que a Toshiba, que integrava o cartel das empreiteiras na Petrobras, pudesse participar das obras do Comperj, Alberto Yousseff disse que a empresa procurou “emissários do Partido dos Trabalhadores” e próprio João Vaccari, já que a propina deveria ser acertada também com a diretoria de Serviços da Petrobras, comandada na época pelo petista Renato Duque, indicado por Dirceu para o cargo na estatal​. A exemplo de Youssef, Julio Camargo também concordou em colaborar com as investigações em troca de possíveis benefícios judiciais.

À Polícia Federal, o doleiro disse que Júlio Camargo possui grande quantia de dólares em contas no Exterior, enviados sob o disfarce de lucro de suas empresas.

Em um de seus depoimentos, Júlio Camargo revelou, por exemplo, que a empresa Toyo Setal pagou propina de 30 milhões de dólares ao lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, apontado como o operador do PMDB no Petrolão.

A propina a Baiano serviria para que a empresa sul-coreana Samsung Heavy Industries celebrasse com a Petrobras contratos para a fabricação de duas sondas de perfuração em águas profundas. O pagamento precisou de intermediação de Alberto Youssef, que providenciou contratos simulados com empresas de fachada para viabilizar parte dos recursos.

Documento da Polícia Federal (Reprodução / VEJA)
Documento da Polícia Federal (Reprodução / VEJA)
 
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