Jornal da China é forçado a se desculpar por pedir soltura de repórter

Foi um gesto raro e corajoso do New Express, um jornal na China, imprimir na metade superior da primeira página as palavras “Por favor, libertem-no” em letras grandes em 23 de outubro. Um de seus repórteres, Chen Yongzhou, tinha sido detido pela polícia após escrever uma série de artigos alegando irregularidades financeiras na empresa chinesa de equipamentos pesados Zoomlion e o jornal exigia sua libertação.

Levou apenas alguns dias para as autoridades centrais do Partido Comunista entrarem em ação: o jornal foi rapidamente amordaçado e o repórter foi detido em 26 de outubro, arrastado para a China Central de Televisão (CCTV) em trajes prisionais e forçado a confessar ter recebido dinheiro para publicar os artigos.

No dia seguinte, o jornal teve de se retratar em sua primeira página. “Nosso jornal tomou medidas inadequadas, prejudicando gravemente a credibilidade pública dos meios de comunicação. A lição que aprendemos é profunda”, disse o jornal.

Agora, ninguém sabe a verdade sobre o assunto. Chen Yongzhou efetivamente aceitou dinheiro para escrever ataques injustos sobre a Zoomlion? Ou foi apenas um caso das autoridades de propaganda do Partido Comunista Chinês (PCC) punirem um jornal arrivista e seu repórter?

Seja qual for o caso, o incidente mostrou como o devido processo legal pode voar pela janela quando o PCC precisa alcançar um objetivo político, bem como os perigos de um jornal na China que tenta desafiar as autoridades, segundo analistas que acompanharam de perto o caso.

Autoconfissão

Chen Yongzhou, que tem 27 anos, parecia contrito em sua aparição na CCTV quando fez sua confissão. Sua cabeça foi raspada e ele usava um uniforme azul fornecido pela polícia.

“Nenhum desses artigos foi escrito por mim”, disse ele. “Os artigos originais foram fornecidos por outras pessoas, eu apenas os editei e publiquei.” Posteriormente, ele disse: “Eu lamento profundamente o que fiz… Espero que toda a profissão midiática possa tirar uma lição do meu exemplo.”

No dia seguinte, o New Express publicou o pedido de desculpas em sua primeira página, dizendo: “Tomaremos este incidente como um aviso e sinceramente corrigiremos os problemas existentes, aumentando o controle sobre o processo de publicação.”

Questões

Mas os internautas chineses e observadores não puderam deixar de perguntar: Se Chen era realmente o culpado, por que as autoridades não seguiram os procedimentos legais normalmente? Por que tomar a medida extraordinária de levá-lo à televisão para confessar seus crimes para a nação?

Certamente não ajudou o caso do regime que Chen tivesse uma ferida sangrenta no pescoço durante a confissão televisionada, um fato que comentaristas online abordaram. A escrita atrás de Chen na parede da sala de interrogatório, “o uso da tortura para obter confissões é proibido”, ofereceu uma justaposição sombria.

Outros incidentes perturbadoramente semelhantes à confissão forçada de Chen Yongzhou também ocorreram recentemente: Houve a autoconfissão de Charles Xue, um investidor capitalista com inclinação pró-democracia, e Peter Humphrey, um inglês que dirigia uma empresa de investigação financeira.

“Depois que essas pessoas foram presas, a primeira coisa que fizeram não foi encontrar suas famílias e advogados para defender seus direitos, mas ‘confessar seus crimes’ na CCTV”, observou Fengqingyang, um comentarista e blogueiro bem conhecido na internet chinesa. “Eles são idiotas? Eles estão felizes por serem presos?”

Intervenção política

De acordo com Hu Ping, o editor-chefe da Primavera de Pequim, uma publicação pró-democracia sediada em Nova York: “É óbvio que o jornal recebeu pressão da mais alta esfera do poder.”

As autoridades foram capazes de expor a confissão do repórter, mesmo antes de qualquer procedimento legal, julgamento ou condenação. “Por que eles rasparam seu cabelo e fizeram-no usar um uniforme prisional? Há também fotos online que mostram marcas de ferimento no pescoço de Chen. Há obviamente algo suspeito nisso tudo.”

O advogado chinês Si Weijiang disse ao Diário da Manhã do Sul da China que o material de investigações policiais é segredo de Estado perante um tribunal e apenas os advogados estão autorizados a abordar os suspeitos. “Quem deu à CCTV o direito de violar esses procedimentos legais”, perguntou ele.

Nos bastidores está o alvo original dos artigos, a ‘Zoomlion Heavy Industry Science & Technology Development Co. Ltd.’, que tem uma capitalização de mercado de US$ 42 bilhões. O governo da província de Hunan tinha uma participação de 16% na empresa até o final de 2012.

 
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